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domingo, 16 de março de 2025

Via Sacra

Porque nos Domingos da Quaresma, ainda se reza em Forninhos a Via Sacra (Via Crucis, em latim), recordo esta oração quase desconhecida, embora em todas as nossas igrejas estejam bem expressas as imagens do Caminho do Calvário de Jesus Cristo, muitos Cristãos não sabem o que representam os quadros. 
A tradição já não é o que era, mas mantém-se.

Na primeira estação - Jesus é condenado à Morte:


Na segunda estação - Jesus toma a Cruz aos Ombros:


Na terceira estação - Jesus cai pela Primeira Vez:


Na quarta estação - Jesus encontra sua Mãe:


Na quinta estação - Jesus é ajudado por Simão de Cirene:


Na sexta estação - Verónica enxuga o Rosto de Jesus:


Na sétima estação - Jesus cai pela segunda vez:


Na oitava estação - Jesus encontra as Mulheres de Jerusalém:


Na nona estação - Jesus cai pela terceira vez:


Na décima estação - Jesus é despojado das suas Vestes:


Na décima primeira estação - Jesus é pregado na Cruz:


Na décima segunda estação - Jesus Morre na Cruz:


Na décima terceira estação - Jesus é descido da Cruz:

XIII

Na décima quarta estação - Jesus é colocado no sepulcro:


O Papa João Paulo II sugeriu que fosse criada uma décima quinta estação na Via Sacra para recordar a ressurreição de Jesus, embora seja opcional e não entre na estrutura tradicional da Via Sacra:

XV
Tradições e elementos simbólicos que ajudam os fiéis a refletir sobre o amor infinito de Deus manifestado na entrega de Seu Filho.

sábado, 9 de julho de 2022

Aquilino Ribeiro (a malha)

"Manhã cedo, mal o sol, bravio que nem enxame de abelhas alvoriçado, pulava detrás dos montes, goela forte bradava do alto pináculo da meda: à eira-aaa-aa-a!
Aquilo ouvia-se em grande raio pelo povo e suas abas, como sinos de Toledo.
E logo de cada canto rompiam os malhadores, lépidos e pontuais como quem acode a um toque de guerra.
Calça branca de estopa, para gargantilha um lenço de mulher, esfraldado sobre os ombros por mor de paraganas, sol e moscas, irmãos danados a ferrar, a grenha das pomas a espirrar dos bofes da camisa, uns após outros, enchiam os caminhos dormentes que levam às eiras.
Todos descalços - que nem carne de Ferrabrás aturava pés descalços de sol a sol, na trabuzana - apenas se ouviam suas vozes marulhar àsperas na corrente remansosa da madrugada.
(...)
De chapelão de grande sombra, saiote vermelho e colete de atacadores, mulheres ajeitavam as cuanhas e estendiam mantas a toda a roda para caçar o grão respingueiro.
Outras preparavam a eirada com desatar os molhos e espalhar em carreiras, tendo o cuidado de deixar as espigas bem ao léu, para que se embebedassem de sol - o sol que as criara e agora ajudava os manguais a enxotar o grão para fora dos seus casulos.
E tão breve a palha aquecia, se punham em fila os malhadores.
Era um buzinado de guerra.
À porfia, de olhos no chão moventes em que o sol, já alto, se espojava num delíquio de luz e de fogo, apertavam uns com os outros.
Com luzinhas presas a cada aresta de palha, a eira breve se tornava um caldeirão de cobre a ferver.
Por isso mesmo a manobra requeria olho fino e mão lesta.
Já os olhos, em sua fixidez para a mobilidade, desvairavam.
Mas os braços obedeciam pela ordenança mesmo do vaivém.
E sempre avante!...
O grão lá ia largando, era ver as zagalotadas que acompanhavam o erguer dos pirtigos na palha delida.
Conho, tinha que saltar, para ir ao crivo das cirandeiras, às arcas, à azenha, e volver do forno o pãozinho que, com tanto apego, se pede ao Senhor no padre-nosso."





O que vemos nestas fotografias antigas de Forninhos, já são sinais de mudança, porque numa época anterior, as malhas eram feitas tal qual Aquilino Ribeiro descreve in Terras do Demo, 1.ª parte, II.

P.S. - As fotos postadas, como da grande maioria, são originais!



E antes que Julho finde toca a malhar "quem malha em Agosto, malha com desgosto".

sábado, 29 de maio de 2021

O Ciclo do Milho

Depois do centeio, do linho e do vinho, é hoje a vez do milho.
A sementeira do milho acontece na Primavera e a partir daí há sempre que fazer até ao fim do Verão: sachar, abelgar, regar e regar... etc...
Quando era pequena, quase toda a gente em Forninhos cultivava milho houvesse água para regar ou não. Lembro-me que nas margens do Rio Dão, Ribeira e Salto, havia muito milho. Não era basicamente para a alimentação humana, mas sim para a alimentação dos animais. Mas sei que num tempo mais antigo cozeu-se por lá muito pão de milho.


A 1.ª sacha. Por mais cuidada que a terra esteja, crescem sempre ao mesmo tempo que o milho, as ervas daninhas e a 1.ª sacha serve para arrancar essas ervas.
Para este trabalho iam ranchos de pessoas com os sachos ao ombro, que durante horas sachavam o milho ainda pequeno (com duas, três folhas).
Mas a primeira tarefa da sacha do milho era arralar, um trabalho mais ou menos leve, pois o mais difícil era arrancar o pé de milho certo ou a caneira certa, depois era pegar no sacho e juntar-se ao rancho.
Mas ainda vinha a 2.ª sacha, esta mais aligeirada, chamavam aterrar o milho.
E o milho vai crescendo até ao dia em que, como todas as coisas, precisa de água. Então, lá se ia "avelgar" (fazer regos na terra) e de seguida a 1.ª rega (assentar o milho).
Como se regava naquele tempo? 
Com o motor de rega, mas antes a rega era feita através dum engenho ainda muito usado no Séc. XX, o Picanço. Este modo de regar, como facilmente perceberão, tinha de ser realizada por mais que uma pessoa.


Tirada manualmente do poço, por uma pessoa, a água era despejada balde a balde no rego previamente feito. Conduzida pelo pé, por outra pessoa, com o sacho a guiar o líquido através dos talhadoiros, era assim que se matava a sede ao milho até este ganhar espiga e as suas "barbas" ficarem secas.
Depois lá vinha mais uma tarefa para toda a família: cortar a cruta do milho ou "as bandeiras" e espalhá-las para secarem; quando secas eram enfaixadas e guardadas para no Inverno alimentar os animais. Mas lembro-me que as vacas tanto comiam as crutas em verde, como em seco.


Está a chegar o fim do Verão, os milhos estão maduros e só esperam as escanadas (não dizemos desfolhadas ou descamisadas). 
Geralmente a escanada era feita por um grande número de pessoas à tardinha ou à noite. 


À volta dum grande monte de milho cortado rente, retirava-se a espiga para um balde ou cesto e quando cheios despejavam-se nos canastros ou sacas de serapilheira, entre cantorias, milho-rei, abraços, risos, ceiote e bailarico ao som dum realejo...


Quantas vezes o milho-rei, essa espiga de cor diferente, ia escondida no bolso dos rapazes para poderem distribuir abraços a todos os trabalhadores. Esta era uma oportunidade única para se aproximarem fisicamente das raparigas.
E eis que chega a malha do milho.
Soltos dos carolos, noutro tempo através do mangual, os grãos de milho ficam a secar nas lages/eiras comunitárias, aproveitando o sol descorado de fim de estação.


Dia após dia, estende-se o milho pela manhã com a ajuda do rodo ou até com o ancinho virado ao contrário e junta-se à tardinha com a ajuda das vassouras de giesta, para evitar a orvalhada noturna que se começa a fazer sentir. 


A última varredela já é para o ensacar e guardar nas arcas de madeira para consumo ou vender. Em 1917, o correspondente de A Folha de Trancoso indicou que a nossa freguesia exportava milho!!
Mas do milho, até as crutas secas e os trambolhos (canas do milho) se vendiam! Tudo era aproveitado, até as folhas fininhas da maçaroca do milho e a moinha serviam para encher almofadas e os carolos serviam para acender o lume e fazer brasas!!
Das barbas do milho ainda faziam chá para tratar problemas do sistema renal e urinário.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

5.ª Feira de Ascensão

Hoje é 5.ª feira de Ascensão. Para muitos é o dia da espiga, mas eu sempre conheci este dia como a 5.ª feira de Ascensão, o dia em que Jesus Cristo subiu (ascendeu) ao céu em corpo e alma, após 40 dias na terra, depois da ressureição.
Em tempos, terá sido um importante feriado religioso, o dia em que eram benzidos os campos, principalmente os dos cereais, que eram primordiais na alimentação humana e dos animais. 
Depois que deixou de ser feriado, a Ascensão é celebrada no domingo próximo.


Em conversa telefónica com algumas pessoas, a maior parte bem se lembra da procissão das ladaínhas à volta da igreja e da benção ser feita no sentido Cruzeiro Paroquial/Casa Paroquial. De volta ao interior da igreja realizava-se a cerimónia, com o Santíssimo Sacramento exposto na Custódia e com todo o povo ajoelhado e na altura da "uma hora santa" do altar-mor era atirada em direcção ao Santíssimo uma chuva de pétalas de rosas desfolhadas. Era como o dia do Lausperene.
- Dia do Lausperene? Perguntei eu.
- Sim, em memória do período que o corpo de Jesus Cristo passou no túmulo até à Ressureição, só que agora era para lembrar a Ascensão de Jesus, o senhor padre vinha também aspergir com água benta.
- Ah! não me lembro nada disto, dentro da igreja só lembro na minha infância, de atirar punhados de pétalas de rosas para cima do altar de Nossa Senhora de Fátima no último dia do mês de Maio, no final de se rezar o terço.
Enchiam-se açafates com pétalas de rosas de várias cores, brancas, cor de rosa, amarelas, vermelhas, mas predominavam as vermelhas.
- Agora o que se verifica é que ao longo da história,  a Igreja Católica tem andado muitas vezes às aranhas em relação a muita coisa. Não fazem as coisas bem feitas. Desta vez os campos não vão ser benzidos por causa do estranho covid-19, mas no ano passado o padre também já não abençoou os primeiros frutos.
-Também não sabia disto. Foi a chuva que o impediu?
-Não, não lhe apeteceu. De tal maneira que...
- Dizia a minha mãe que neste dia os passarinhos não iam ao ninho.
- E também se dizia, e disto eu lembro-me,"Dia da Ascensão seca a raíz ao Pão" anunciando assim o pão, a vida e o aloirar/amadurecer das searas.

domingo, 8 de dezembro de 2019

Hoje era "Dia da Mãe"

Há alguns anos atrás, o Dia da Mãe era comemorado no dia de hoje, 8 de Dezembro.  Os menos jovens, durante muitos anos fizeram deste dia um dia muito especial, mas alguém tomou a decisão de passar a comemoração, no nosso país, para o 1.º domingo de Maio e "não havia necessidade" como dizia o diácono Remédios. Hoje sequer se mencionou na comunicação social esta bonita data (pelo menos eu não vi/ouvi) então os meus votos de feliz Dia da Mãe deste ano, são dados pelas mãos de Laura Costa que foi ilustradora de livros infantis e desenhou uma série de postais de Natal que foram publicados pelos CTT durante vários anos, na década de 1940.


Neste desenho (que foi capa do disco "Natal em Portugal" de Shegundo Galarza "), editado no final dos anos 70, entre 1977 e 1979, está representada a comunhão, a divisão de trabalho, a colaboração e a intimidade e traz ainda a saudade dos tempos de infância em que sobre o lume da lareira as mães faziam as tradicionais filhóses. Era um ritual muito desejado pelos filhos. Depois de fritas as filhóses eram colocadas num grande prato e polvilhadas com açúcar.


Tão boas que eram quentinhas!

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Um pombal tradicional

"Os pombais correspondem a construções especialmente preparadas para albergar pombos e destinam-se a cumprir uma ou várias das seguintes funções: produção de carne (borrachos e pombos); produção de estrume de pombo denominado por "pombinho"; simbolizar ou ostentar poder, riqueza, melhoramento estético de uma propriedade e entretimento (columbofilia)".

Pombal com Gargula

À semelhança de outras regiões do país, bem perto dos Valagotes-Forninhos, em território do concelho de Penalva do Castelo, podemos encontrar rebocado de argamassa de cal, com uma pequena porta (para entrada e saída do dono) um pombal tradicional de planta circular. No telhado uma plataforma de entrada e saída dos pombos.
Está numa propriedade privada, que foi do Senhor Adelininho, que apenas serviu, disseram-me,  para ostentar poder, riqueza; não funcionava como fonte alimentar (tanto melhor que fosse assim).
Há ainda muitas pessoas que se lembram ver o pombal e bandos de pombos "quando eu era rapazote passei lá muitas vezes a caminho da Matança. E no Mosteiro também havia um da familia dos Coelhos, que ainda se pode ver, fui lá uma vez com o Ilídio Marques buscar pombos para entretimento. Foram-se os pombos e os pombais, vieram os frangos e os aviários".

Ano 1892

Por parte do município de Aguiar da Beira e municípios vizinhos, com afinidades comuns, não seria possível a recuperação dos pombais da nossa região, sei lá...para postos de vigia de fogos...para algo últil e bonito por esses campos fora?
Afinal são património da região, um património arquitectónico, cultural e é uma pena o seu abandono.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Escanar o milho

Era um rancho de gentes, num céu aberto por aí fora... 


Setembro o milho amadurece, primeiro o temporão das terras secas, o branco, nas terras de centeeiro, que alternava ano a ano com o semear do centeio para quem tal queria ou não tivesse outro remédio.
Para lá das misturas de farinha do pão, tinha por si só o milagre das papas do ralão e as papas doces de leite e açúcar.
Chegando meados de Setembro, era o forte da colheita do milho de regadio, forte e majestoso com várias espigas, como que dizendo que crutas cortadas para o gado e junto à última espiga, os haviam tornado mais valentes.
Na véspera e entre amigos, o dono combinava com eles irem cortar o seu milho na Ribeira e claro ao amanhecer, sem cerimónias, afinal eram os mais chegados e por tal no desdejum, uns figos secos e aguardente, o resto ficaria para a piqueta lá por volta das dez da matina.
No caso do meu pai, o tio Armando Coelho, Carlos Bragança e tio Zé Cavaca. Gentes chegadas...
Outros houveram, mas eram pagos ao dia, bebidos e não comidos...
Chiava o carro das vacas, carregadinho até ao Carvalho da Cruz, depois seria a direito, mas havia volta não volta que encostar nas sombras para o descanso e beber.
Enfim chegados, na outrora lage agora coberta de alcatrão (bem haja a ignorância), era descarregada a carga e outras que viriam a seguir pelo mesmo caminho.
Ao anoitecer ja se adivinhava a azáfama como sendo dia festivo, desciam a ladeira em direção ao ribeiro dos moncões, com acomódos pelos ombros que a noite prometia alguma frescura, coisa natural.
A promessa não seria vã. Quem vinha para trabalhar, ansiava pelas brincadeiras que depois viriam, os caretos com mantas pela cabeça, cobiçavam as raparigas, a coberto daquela capuchinha e por vezes, muitas, o toque do realejo e mais forte o da concertina. No fim uma pequena arrelia, a maçaroca de milho preto, foi uma aldrabice, foi roubada tal como ele vencedor queria um beijo.
Mas as escanadas não ficavam por aqui, iam pelos campos abaixo para quem não tinha eiras.
Pela Gândara e Romeiros e eram feitas nos campos à luz de candeeiros a petróleo cantando pela noite dentro, cantando de todo o lado.
Uma paródia!  

Foto de Maria Fernanda Sousa.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Mulheres que lavam no ribeiro

Não me recordo de ver as mulheres lavar a roupa no rio do Salto (também conhecido por Poço dos Caniços), mas sei que há algumas décadas era um cenário habitual ver mulheres lavarem roupa nos diversos afluentes do rio Dão, dando um colorido engraçado às margens com as peças que ali coravam.
Nos lavadouros dos ribeiros, aí sim, recordo ver mulheres, com experiência adquirida na prática diária, a lavar a roupa à mão, de joelhos num farrapo velho ou numa tacoila para não se molharem.


Água fria da ribeira/água fria que o sol aqueceu.
Velha aldeia/traga a ideia, roupa branca que a gente estendeu.
Três corpetes/um avental/sete fronhas/um lençol/três camisas do enxoval que a freguesa deu ao rol.
Ó rio não te queixes/Ai o sabão não mata/Ai até lava os peixes/Ai põe-nos cor de prata.


Também ainda há lembrança das barrelas.
- Bem ensaboada a roupa era posta, em camadas, num canastro de vime, e tapada com panos de estopa com cinza; por cima era regada com água a ferver.
- No dia seguinte era então lavada de novo e, se por acaso alguma nódoa não saiu, lavavam-na novamente e ficava a corar nas lenteiras dos ribeiros.
Hoje esta tradicional tarefa não passa de uma memória.

Fotos: lavadouro do ribeiro dos Moncões, Forninhos, 2011.

domingo, 24 de junho de 2018

Hoje é dia de água abençoada



Hoje é dia de ir ao banho, pois o S. João tem água benzida até ao nascer do sol. 
Celebrando o Verão, os cultos pagãos já faziam a festa do fogo, mas a história de João Baptista, primo de Jesus, trouxe um novo culto, associando a água e o fogo.
E, havia em Forninhos a tradição dos rapazes ir mergulhar à meia-noite no poço dos caniços (rio Dão) e outras pessoas também se banhavam antes da aurora. Uma vez que se levantavam de madrugada para ir para as terras, para estarem lá antes do nascer do sol, antes de iniciarem as regas no campo, banhavam-se nas poças e presas, naturais ou feitas pelo Homem e só depois é que as abriam. Este banho era purificatório, e as pessoas ficavam abençoadas para o ano inteiro e abençoadas seriam pessoas melhores? Talvez fosse essa a razão, mas os rapazes, acho que iam tomar banho no poço dos caniços por desporto ou por brincadeira...abençoada!
Mas quem não fosse a banhos no S. João, ainda podia ir no S. Pedro, que tem água benzida todo o dia.
"E esta, hein!"
Até os santos têm as suas diferenças de estatuto!

terça-feira, 5 de julho de 2016

DA ARCA DO BRAGAL

Alva, simplesmente bela, quem diria que corre para dois séculos e sem rugas.Um sortilégio na  mesa, mais não fosse pela carga emocional que carrega.
O tesouro guardado na arca para a futura noiva. O enxoval!



Nada que valha nada neste mundo consumista, mas só de pensar quantas mãos de pessoas de Forninhos já a tocaram neste século e tal...
Sinceramente quando toquei nela pensei nos braços e olhos cansados no decorrer da noite...no doba, dobadeira doba, não erices a meada...e a gente ficava de castigo...a dobar, para o que a necessidade trouxesse.
Nas sobras, "penteavam os bicos" de panos de cozinha, mais para ofertas a gentes de posses, deixando por detrás o novelo e dores das costas. Coitadas das tascadeiras...
Até aqui se chegar, gentes dormiram em mantas de estopa, que é linho menos trabalhado.
Agora e olhando, parece uma mágica noite de orvalho, transparente...

domingo, 5 de junho de 2016

Deitar o burro

"Em Junho, foice em punho"

Não sei porquê, não consigo passar nenhum mês de Junho sem me vir à lembrança que as ceifas se faziam em Junho, mês de muito calor. Já muita gente escreveu sobre o tema, incluindo eu própria, mas entendo que as particularidades de cada terra fazem a diferença, mesmo quando se escreve sobre a mesma coisa e eu há dias lembrei-me que para além das cantigas populares que o povo trabalhador cantava, havia em Forninhos a brincadeira do deitar o burroIsto é, havia um momento em que os ceifeiros quase chegavam ao fim dos regos que tinham começado, enquanto que outros ainda vinham a meio, então lá vinha a brincadeira:
-Ai que me corto! - Dizia um/uma.
- Aonde? - Alguém respondia.
- Na mão direita!
- Quem te cura?
- Maria Dura.
- Quem te ama?
- Maria Ana.
- Quem leva o burro?
- É fulano... (aqui mencionava-se o ceifeiro/a que ia mais atrasado e todos os ceifeiros imitavam o burro em voz alta: leva...leva...leva...).
E continuavam...
- Ai que me corto!
- Aonde?
- Na mão do calo.
- Quem leva o cavalo.
- F... 
E ainda:
- Ai que me corto!
- Aonde?
- Na mão q' arrenta.
- Quem leva a tormenta.
F...


(Informante: M.ª Augusta Guerra da Fonseca)

sábado, 16 de janeiro de 2016

O marrano

" Em Janeiro, um porco ao sol, outro no fumeiro"



Quando alguém precisava emprenhar uma das suas porcas parideiras, pedia a alguém da aldeia que tivesse um porco adulto não capado para alugar. Era um ciclo anual vindo de tantas gerações em que por vezes se fazia mais que meia légua a pé, conduzindo por caminhos escombrosos a porca que estava aluada a partir dos cinco meses e que por sinais da "serventia" inchada tal como as tetas, "pedia que a chegassem" ao marrano. Por vezes, mais que uma ou duas tentativas, pois meio século atrás, em Forninhos poucos tinham porcos de cobrição, tirando e quando tinham, os Matelas e o tio Bartolomeu; tinham de recorrer a aldeias vizinhas como Dornelas, Matela e o lugar do Pontão Vermelho, entre outras...
Depois de emprenhada, o tempo era curto como reza o ditado: "três meses, três semanas, três dias e três horas porcos fora, pois se bem souber contar quatro meses vai achar".
Nascida a ninhada que poderia chegar a dezena, havia que rezar para não vir a moléstia e dar cabo deles, coisa não rara e seria uma desgraça nenhum escapar, pois passadas as quatro semanas havia que os capar.
Muita vez acontecia sem saberem o nome da doença e tal combater; resignada a mulher do lavrador dizia que tinha sido a moléstia, que havia que se fazer. Dava-lhes o mal, ficavam com manchas vermelhas por altura de Abril e por vezes em Setembro, tal como a ninhada, a progenitora também ia para a um valado e coberta de terra, por vezes para gáudio dos ciganos que por ali passavam. Uma desgraça, mesmo, lá se ia a Feira Nova e o rendimento...
Restava remediar o mal e olhar em frente e comprar para criação entre os vizinhos mais chegados ou ao tio Aníbal de Valverde que por ali aparecia na sua camioneta com porcos de boa raça, mas caros.  
O mestre capador da aldeia era o saudoso tio Armando Castanheira, sendo que de vez em quando aparecia um senhor gordo, das bandas de Lamas que se fazia apresentar pelo toque da sua gaita.
A coisa tinha de ser bem feita, pois se o porco ficasse mal capado, a carne aquando abatido, ficava amarga e era uma vergonha ouvir dizer que o animal era roncalho e ninguém lhe pegava. Nem os donos...
Muitas das vezes corriam perigos, tal como um capador que no acto, mal se deu conta de a porca arrombar a porta do cortelho ao ouvir o ganir do filho e de boca aberta e dentes à mostra o correu mais de uma centena de metros. 
Coisas passadas, agora pouco resta de um ou outro cortelho, quanto mais de porcas parideiras e marranos! 
Sobrevive um ou outro roncalho.

Muito já se escreveu n' O Forninhenses sobre a tradicional matação do porco e desmancha, por isso convido os leitores a clicar AQUI, AQUI e AQUI

domingo, 20 de dezembro de 2015

Boas Festas, Feliz Natal

Para complementar os meus posts sobre as 'tradições de natal' e 'tradições em extinção' trago uma foto de um grupo de cantadores de janeiras que foi cortesia do Sr. João Albuquerque, pois não estou a imaginar hoje um grupo de homens juntar-se e percorrer a aldeia de porta em porta a cantar as janeiras. 


Cantavam durante 4 ou 5 minutos e acabada a cantoria, lá vinha um copo, uma chouriça e às vezes umas fritas (ninguém falava de 'rabanadas' como agora querem impôr-nos), mas claro o principal objectivo da 'troupe' de cantadores de janeiras era desejar às pessoas da casa muito Boas Festas através dos seus cantares. Se tiver interesse pode aceder aqui e ler as cantigas desse post.
Se em Forninhos ainda cantam as janeiras? Só se fôr por conveniência da Junta de Freguesia e isso a acontecer é com espírito partidário, infelizmente as Janeiras com o tempo transformaram-se em adereço político. Só um milagre conseguia instalar novamente a tradição com o espírito de antigamente!

******BOAS FESTAS ******FELIZ NATAL ******

FELICIDADE para todos os bloguistas, pois não pode haver sentimento mais abrangente que este...Se estivermos felizes é porque tudo o resto está bem. 

Voltamos a postar em Janeiro de 2016.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Searinhas de trigo do presépio

No dia 8 de Dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, em Forninhos, à semelhança de outras aldeias do país, era dia de semear os canteirinhos de trigo para o presépio. Era um belo trabalho feito com dedicação pelas mulheres solteiras que se dedicavam às práticas da Igreja e da Religião Católica.

presépio da igreja - ano 2011

Do séc. XX, merece aqui especial menção a tia Augusta Saraiva e a tia Augusta 'velha', a tia Cecília e a tia Anunciação e a sua irmã Luz, que durante muitos anos os colocaram no presépio da igreja.
Porque em Forninhos não se dá continuidade a este costume ou tradição? 
Durante o ano enquanto comungam até cantam tantas vezes O "meu pão sagrado". Depois existe tanto terreno no adro da igreja para receber esta sementeira que chegado o dia de Reis (6 de Janeiro) até podiam transplantar as searinhas para a terra, pois parece que nem palhinhas suficientes há para adornar a cabana onde nascera o Menino Jesus.

Meu pão sagrado

Procurei-te todo o dia
Mas não Te encontrei
Busquei-Te no irmão,
Mas não te amei.

Meu pão sagrado
Corpo de Cristo
Jesus está em mim.

Convidas teus filhos
Banquete Divino
Na mesa Teu Pão 
Na mesa Teu Vinho.

Refrão

Espiga de trigo
Unidos no amor
Seara madura
És vida, És sol.
(...)

Ainda vão a tempo de semear, nos pequenos pires ou num vaso o trigo.

domingo, 31 de maio de 2015

Transumância e tosquia das ovelhas

A transumância
As  transumâncias aconteciam por esta época, mas em Forninhos talvez não tenha havido transumância, porque os rebanhos eram pequenos, só se o do Sr. Amaral que era maior tivesse passado por este sistema...mas não acredito. Acredito é que S.Pedro-Forninhos tivesse sido um ponto de passagem. Na "monografia da freguesia de Forninhos" não encontrei nada a respeito. Deixá-lo, encontrei no Livro de Penaverde, pág. 47, esta interessante passagem:
"Antigamente, passava por aqui duas vezes no ano o "gado da serra". Para fugirem certamente aos rigores e fomes do inverno na Serra da Estrela, e à procura de melhores pastos, em Outubro, várias centenas de gado acompanhadas de 4 ou 5 pastores e outros tantos canzarrões, faziam de Penaverde um ponto de passagem para o Douro. O regresso era ali por Abril ou Maio. De cá não há transumância; e quando não haja verdura nos montes, há pastagens de ferrãs e ervas, em quintais e lameiros".
Também em Maio se faz a tosquia das ovelhas. Em Maio os últimos, em Setembro os primeiros. Quer isto dizer que a tosquia no mês de Maio deve ser feita nos últimos dias e a de Setembro nos primeiros. A tosquia de Setembro é mais curtinha é para tecer e a de Maio é para urdir. Estamos no dia 31 de Maio e da tosquia das ovelhas que anuncia o fim do frio, publica-se duas fotos tiradas na quinta do Pisão, espaço gerido pela Câmara Municipal de Cascais em pleno Parque Natural de Sintra-Cascais:



Dantes a ferramenta do tosquiador era a tesoura, feita com um aço muito fino, mas a prática da tosquia com tesoura foi substituída pela tosquia com máquina, muito menos demorada e trabalhosa do que aquela. Não deveria ser fácil utilizar a tesoura, já que os tosquiadores tinham de pôr lã enrolada à volta dos anéis da tesoura, para facilitar o trabalho de horas, dias e semanas!
Vide:

Esta tesoura pertenceu ao ti Armando Castanheira e já foi publicada n'O Forninhenses em Fevereiro de 2011 com o intuito de mostrar e explicar aos mais novos a sua utilidade.
O corte da lâmina é direito, mas as costas são abauladas, isto para facilitar os cortes, mais fundos ou mais leves.

domingo, 22 de março de 2015

Retalhos da vida de uma aldeia

Acho o modelo desta salgadeira - arca em madeira que se enche de sal - muito interessante! Com compartimentos; um, para salgar as carnes e conservar os untos; outro, para a panela de barro com azeite usado para conservar alguns enchidos depois de retirados do fumeiro.
Porque estamos na quaresma não resisto a repetir um post que fiz há tempos e que nestes dias faz sentido reviver a situação. 


Sabiam que durante muitos anos era prática nos quarenta dias de preparação para a Páscoa, algumas famílias forninhenses pregarem a arca salgadeira? 
Não se tocava na carne da salgadeira, desde o dia de Entrudo/Carnaval, aonde se não ia enquanto não amanhecesse a Ressurreição do Senhor.
Presentemente sacrifícios como esse já se não fazem, mas em Forninhos ainda se vai usando  a "arca frigorifica " dos nossos avós e eu acho muito saborosa a carne que nela é conservada.
O(s) unto(s), gordura amassada, enrolada e moldada em bolo, acreditam que até ver esta fotografia não sabia sequer o que era, nem qual a sua função!
Pelo que entendi servia para temperar as sopas, principalmente o caldo verde. Também servia como creme ou pomada, usado para "desembaçar". Sei que a minha bisavó Emilia que "desembaçava" crianças doentes o fazia, rezando uma oração e aquecendo nas brasas um pouco de unto esfregava-o sobre a barriga do doente.
O sal era para todo o ano, com ele temperavam os alimentos e também as viandas dos animais. 
Trago hoje duas ou três situações de outros tempos, porque somos nós que hoje temos a incumbência de contar como foi a vida dos nossos avós, amanhã serão os nossos descendentes ou os descendentes deles, mas até lá que haja saúde e coza o forno, na Páscoa, os tradicionais bolos de azeite, os "folares" da nossa terra.


Estes nossos bolos, ao contrário de outras terras portuguesas, não são doces, são para ser comidos com queijo da serra, presunto e chouriça.