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sábado, 24 de setembro de 2022

Até ao lavar dos cestos é vindima

Embora com bastantes lacunas, inverdades e omissões, por ignorância ou por outra qualquer razão (será que somos contra a nossa história?), tenho de reconhecer que, sobre este tema, as fotos publicadas na monografia "Forninhos, a terra dos nossos avós" representam muito bem o nosso passado.


Antoninho "Matela" - meu avô materno

Na minha meninice ia sempre à vindima do meu avô e ele contava sempre aos netos que uma velha no Douro só com os bagos fez cem pipas de vinho!! Acho que a velha do Douro fazia parte das vindimas do Dão da altura.
Até parece que estou a ouvir o meu avô:
- Vamos lá meninos, toca a apanhar também os bagos do chão. Olhem que uma velha no Douro fez cem pipas de vinho só com os bagos...sabiam?
Coitada da velha, pensávamos! Longe de nós pensarmos que todo o vinho é feito com os bagos das uvas.

Fotos copiadas da referida monografia.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

A História é de todos

No verão ou outono de 2013, na Tipografia da Beira Alta, Ldª. imprimiram-se 500 exemplares da primeira edição da monografia "Forninhos: a Terra dos nossos avós", da autoria de Carlos Alves e co-autoria de  Filipa Loureiro.
No capítulo "invasões e liberalismo", escreveu-se que no dia 2 de Abril de 1850 o jornal Ilustração Brasileira, na sua edição de sábado, na secção História da Actualidade, referia que "Na freguesia de Forninhos grassa actualmente uma febre de carácter maligno", não dando mais explicações sobre esta epidemia, página 72 (agora com o "Coronavírus", vem bem a propósito recordar esta notícia).
Posteriormente, sobre Forninhos foi editado um artigo com muito interesse, na Revista de História da Sociedade e da Cultura n.º 18, da autoria do João Nunes, e podemos ler (página 115): "Em 1859, uma notícia do Jornal dava conta de que em "Forninhos grassa actualmente uma febre de carácter maligno" (A Ilustração 1859:97).
Afinal a notícia é de 1850 ou 1859?
Existe um documento que pode confirmar essa notícia:




Não querendo ser desmancha-prazeres, o ano inserido na monografia de Forninhos está errado e tal em nada beneficia o leitor comum ou de quem inicia novas investigações, ao contrário da Revista da História da Sociedade e da Cultura n.º 18 que acrescenta informações de inegável utilidade.
A notícia, portanto, é do ano de 1859 e talvez desta vez o leitor forninhense entenda que na sociedade forninhense predomina mais o consumo do que a cultura e o consumo traz lucro e prestigio social, não importa se a história é deturpada, se com isso alguém tira dividendos económicos e políticos.
Voltando à notícia, será que alguém de Forninhos trabalhava na Ilustração Luso-Brazileira?
Todos adoramos a nossa terra, para cada um a sua é a melhor e a mais bonita, mas eu acho que minha terra não ía ser notícia no século XIX, num jornal universal, se não houvesse uma pessoa nascida e criada na região.
Se alguém descobrir diga-nos.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Medidas medievais


Esta pedra com uma cavidade, está numa casa de pedra construída em forma de juntouros que representa as primeiras casas que deram origem ao povoado de Forninhos. Nesta casa viveu a tia Cleta, mãe da tia Isaura.
Os autores da monografia de Forninhos (página 44), referem que esta pedra rectangular provavelmente terá vindo do Lugar de S. Pedro, onde outrora existiu uma comunidade medieval; mede 127 x 44 cm e o encavo: 81 x 6 cm; é definida como sendo uma "Vara/Medida Padrão de Forninhos" e que devido ao encavo insere-se nas unidades de medida linear. 
Todos sabemos que medidas de pedra serão provavelmente medievais, embora seja difícil identificá-las no tempo ou no local de origem, uma vez que tiveram larga utilização ao longo de séculos. 
E não quero ser do contra, mas as dimensões de comprimento (se bem a mediram) não são de uma vara! 
Segundo o "Dicionário de História de Portugal" a vara correspondia a cerca de 1,10 cm e a medida (da vara) seria em geral invariável. Pode ser meia-vara? Mas a meia-vara tinha de medir 0,55 cm.
Pode tratar-se de outra medida medieval? É capaz.
O côvado, também é uma medida de comprimento usada por diversas civilizações antigas. Media 0,66 cm, mas podia apresentar ligeiras variações locais. Era baseado no cumprimento do antebraço, da ponta do dedo médio até o cotovelo.
Com erros ou sem erros, justificações plausíveis ou não, estes foram os números que chegaram aos nossos dias. Não é preciso inventar nada!
Portanto, creio que esta gravação (se bem a mediram, repito) aproxima-se mais do côvado do que da vara ou até da meia-vara. Côvados há-os de todos os tamanhos e podem variar mais de 20 cm entre si.
Existia também outra medida: a braça, mas esta medida, segundo alguns autores, teria cerca de 184 cm, outros, defendem que seria o dobro da vara, ou seja, mediria 220 cm. A braça tinha também um sbmúltiplo: a meia-braça.
Talvez os leitores do blog saibam mais sobre este assunto e possam dar mais achegas, porque - tirando as medidas da pedra - a descrição que os autores da monografia de Forninhos fazem sobre as medidas-padrão lineares é o que consta na «net» ou seja: as gravações das medidas-padrão aparecem geralmente em locais/edifícios: igrejas, portas de amuralhamentos urbanos medievais ou castelos. Por elas se aferiam as medidas que traziam os comerciantes e feirantes de panos, fitas e linhas. A maior parte destas medidas desenvolveram-se no reinado de D. Dinis...
Esta pedra que está na parede duma casa rural, terá vindo de onde? 
Não creio que terá vindo da igreja de S. Pedro, pois o pequeno templo desmoronou-se mais tarde e só depois é que os de Forninhos trouxeram para a povoação as melhores pedras. O Pe. Luís Lemos no Livro de Penaverde refere que "os de Forninhos, aplicaram a boa pedra da capela na construção do cemitério e reparação da igreja". Ora, é sabido, que isto foi nos anos 40 e 50 do Séc. 20.
Acredito mais que esta pedra pode ter vindo da  Igreja de Forninhos, do templo anterior a 1797, pois já aqui publicamos um documento que sugere que a actual igreja foi construída de raíz. Em vez de na horizontal estaria na vertical e era aqui que o povo ia tirar as medidas; ou, então, terá vindo de alguma muralha do nosso Castelo. 

Medidas medievais de comprimento
O sistema de medidas de comprimento utilizado em Portugal na Idade Média baseava-se no palmo, que correspondia a 22 cm. 
Com referência ao palmo, existiam dois múltiplos principais:
O côvado, por vezes conhecido como alna, correspondia a três palmos;
A vara, que correspondia a cinco palmos.
Cada uma destas medidas tinha um submúltiplo com metade do seu tamanho:
O meio côvado e a meia vara.
A medida da braça não era baseada no palmo. Como acima disse, segundo alguns autores teria cerca de 184 cm. Outros, defendem que mediria 220 cm (o dobro da vara).
A braça tinha também um submúltiplo: a meia braça.

http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/2182.pdf

Já agora não deixe de visualizar o post: "Pesos e Medidas" AQUI Obrigada.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Novas da Capela

Em post anterior que pode reler aqui, referi-me à nossa capela, mas esqueci-me do alpendre. À data em que fora erigida a capela (digamos em 1696),  o alpendre não existia. E acrescento uma nota imaginária (ninguém me levará a mal por isso): depois do povo construir uma igreja maior, para poder comportar mais gente, fora desejo do mesmo povo ter uma capela maior. Tornou-se realidade esse desejo e construiu-se o alpendre em 1838, conforme data gravada.


Mas interessa-me saber se a capela é anterior a 1696. 
A respeito desta matéria, uma vez mais, na obra de Forninhos, há contradições. 
Sobre a edificação ou surgimento da nossa capela lê-se, pág. 130 (início): "...a edificação da capela da Senhora dos Verdes deve-se à forte devoção para com a Virgem, em virtude do milagre relacionado com a salvação das colheitas." .
Para mim, isto não faz sentido nenhum, porque a capela (sem o alpendre e talvez sem a sacristia, pois a data gravada/e agora escondida é 1809), já existia antes da praga dos gafanhotos de 1720, pois só assim se explica o voto, nenhum povo ia fazer um voto a uma capela que não existia! Uma coisa é o culto a Nossa Senhora dos Verdes, outra coisa é a capela! E, ainda para mais, porque existe a data de 1696 gravada numa pedra que remete para finais do século XVII.
No último parágrafo da página, sobre a sua arquitectura, já é referido: "...porventura edificada na transição do século XVII para o XVIII..."



Porque quem informa ou escreve tem a obrigação de estar um passo adiante dos leitores, pois para isso se prepara e investiga, sou a informar o seguinte: 
Compulsados os livros de registos da Câmara Eclesiástica de Viseu, onde se registava a instituição de igrejas e capelas da diocese não há nada sobre a nossa Capela (a série correspondente aos livros da Câmara Eclesiástica principia em 1694 e vai até ao século XIX). Segundo me informaram, para o período anterior existem apenas registos esparsos, a maioria da documentação relativa a igrejas e capelas perdeu-se ou está em parte incerta e isto pode significar que a nossa capela seja de construção anterior a 1694, pois se tinha de ser concedida uma licença ninguém acredita que se instituísse a capela da Senhora dos Verdes, sem que se tivesse feito o respectivo registo no cartório da diocese com as respectivas licenças. Na realidade não eram passadas duas licenças, mas apenas uma no final do processo de instituição das capelas ou igrejas. Este (final do processo) era constituído por várias partes: pedido de 'licenciamento' da capela por parte dos instituidores do templo; avaliação das condições do templo, geralmente feita por parte do pároco da localidade onde se encontrava sediada a capela; autorização, com a respectiva licença da instituição do templo. Era assim que as coisas se passavam realmente. Foi assim que se efectivou o processo da construção da nova igreja de Forninhos em finais do século XVIII.
Mas, sobre as licenças, no parágrafo 2.º, da página 130, lê-se isto: "...para a edificação de uma capela tinha de ser concedida uma licença, a qual só era atribuída após informação do pároco sobre a decência do lugar e qual a utilidade do templo. Igual procedimento se verificava quando estava concluída a obra, na qual não se podia celebrar missa sem a concessão de uma nova licença para efectuarem a bênção do novo templo...". (sublinhado nosso).
Note-se que o referido é sobre todas as capelas públicas, pois no caso específico da Capela da Senhora dos Verdes «nada», ainda assim por que motivo os autores afirmam que eram passadas duas licenças para a edificação de uma qualquer capela?

Nota: Pela minha parte, tenho informado o pouco que sei e posso, no sentido de repôr a verdade dos factos relacionados com a minha terra, agora cabe aos outros netos de Forninhos que frequentam esta página apreciar como lhe aprouver o que se disponibiliza. 

terça-feira, 19 de abril de 2016

A verdade da mentira


Sobre Forninhos, directa ou indirectamente, em 02-v-931 o arqueólogo viseense José Coelho, no seu caderno de notas, sua fl. 57, em resumo, escreveu que "Numa grande área existem abundantes ruínas de construções, cujos alicerces são bem evidentes..."
"Vêem-se a meio do povoado ainda ruínas da cap. medieval de S. Pedro..."
"Ver na folha sgte ara de sacrifícios?"
Estas notas inequivocamente datadas de 1931 referem-se ao Castelo dos Mouros, do sítio medieval de S. Pedro, em Forninhos; a ara de sacrifícios é o que nós forninhenses popularmente chamamos de a forca.
Agora como é que se explica isto?

imagem inserida na pág. 30 da monografia
Como se explica a data de 2-V-932 inserida na fl. 58 do Caderno de Notas de José Coelho?
Afinal José Coelho visitou este local a 2-v-931 ou 2-v-932?
Talvez  alguns números e letras estivessem tão claras que deu jeito as reescrever de forma legível. De facto, basta observar atentamente a imagem da pág. 30 da monografia de Forninhos, a terra dos nossos avós, para ver que alguém manipulou o escrito do Dr. José Coelho e ainda acrescentou um ponto de interrogação (?).
Por debaixo do "Penedo de sacrifícios?" está escrito, a maior, "Penedo de sacrifícios" sem qualquer pontuação. A interrogação existe na fl. 57, mas na fl. 58, a existir, seria +ou- por baixo do 8 e não do 5.
Cliquem na imagem, observem bem e digam-me afinal o que a EON&Cp.ª ganharam com isto?
Eu digo: ganharam mais um peso na consciência se é que a têm. 

Forca, com o Castelo dos Mouros ao fundo

Por se assemelhar a uma lagareta, definiram este penedo como sendo um lagar rupestre destinado ao fabrico do vinho e azeite, mas se o é...porque então o povo chama a este monumento medieval a forca e não lagarinho ou lagariço como chamam a outros lagares encontrados por perto?

Quem era José Coelho?
Professor, historiador e arqueólogo, José Coelho notabilizou-se pelos seus estudos de história e arqueologia regional.
Ao longo da sua vida foi recolhendo e juntando na sua Casa da Via Sacra um interessante espólio arqueológico. Após a sua morte (7 de Abril de 1977), os seus filhos, ofereceram, em 1979, a coleção de peças e apontamentos (Cadernos de notas Arqueológicas) à Câmara Municipal de Viseu, que se comprometeu a expô-los. Esta coleção esteve patente em várias exposições temporárias desde essa altura, encontrando-se expostas desde 1980 na Casa do Miradouro.

sábado, 9 de abril de 2016

Cruzeiro do Porto (Forninhos)

Apesar de ser um dos mais bonitos cruzeiros da freguesia de Forninhos não foi este cruzeiro objecto de um rigoroso e monográfico estudo. A monografia de Forninhos, a terra dos nossos avós descreve este cruzeiro como "Cruzeiro/Alminhas do Porto" e  diz-nos que data do séc. XIX/XX (fonte??). 
É óbvio que não são umas alminhas, assim como se desconhece a sua exacta cronologia.


Estilisticamente, o cruzeiro distingue-se em partes distintas: a base quadrangular, a coluna com três cavidades e a secção onde assenta a cruz com as extremidades decoradas com flores tipo rosas.





Já muito diluído, as cavidades aparentam ter restos de ocre avermelhado; a ser ocre este cruzeiro deve ser muito mais antigo, mas os mais velhos só se lembram aqui recitar o responso final aos defuntos dos Valagotes, seguindo depois em "acompanhamento" para a igreja. 


No século XX a base do cruzeiro foi elevada e adaptada ao suporte/coluna do cruzeiro e ao coroamento deste, em cruz. Este trabalho em cimento já devia estar corrigido há muito...e à volta do mesmo não devia haver vegetação alguma, mas como duvido que mandem cortar a vegetação, que coloquem então o baseamento no local original. 


Pág. 138, da monografia de Forninhos: Cronologia - séc. XIX-XX. "Cruzeiro/Alminhas em granito de perfil esguio emoldurado sobre um pedestal de secção quadrangular. A parte superior é composta por um pedestal onde repousa uma cruz de secção losangular e a terminação dos braços sugere uma decoração vegetalista."
Toda a razão, apresenta uma decoração vegetalista, mas não é só na terminação dos braços!

terça-feira, 22 de setembro de 2015

VALAGOTES: Coluna Romana


Tem a Freguesia de Forninhos uma anexa - os Valagotes - confiado a Santo António que lá tem capela e festa. Esta base de coluna romana encontra-se no interior dessa capela, cuja proveniência se desconhece, mas a darmos crédito ao autor (ou autores) "do livro sobre Forninhos" pode ter sido trazida da Pardamaia ou de Penaverde, ou mesmo de um sítio próximo dos Valagotes que se desconhece (pág. 33). 
Podem muito bem ter razão quanto a ter sido trazida de Penaverde ou de perto dos Valagotes. O Sr. Pe. Luis Lemos no seu livro sobre Penaverde afirma que no pátio de um senhor chamado António Nunes encontrava-se uma base de coluna romana. "Esteve muito tempo cá fora, junto da parede." "Também no Chão da Torre apareceram em 1966 um troço de coluna romana e outras pedras aparelhadas, quando trabalhadores procediam à abertura de uma vala." Dado isto, foi levado a concluir "Quem sabe ainda o mais que haverá no subsolo daquele chão da Torre! E de todo o povo da Vila!" (pág. 206).
Agora, da Pardamaia (?) que afirmam ter sido há cerca de 2000 anos uma pequena villa romana eu não acredito, pois não existem nenhumas evidências que confirmem que existiu uma villa no terreno abaixo, vulgarmente chamado de Pardamaia e mais ainda que a povoação de Forninhos se desenvolveu ao redor desta suposta "villa".
Olhem bem:
terreno na Pardamaia-Forninhos, pág. 35
Agora publico três ou quatro fotos de comprovadas villas romanas para o leitor comparar e depois então dizer se acham que o terreno da Pardamaia esconde vestígios de um sítio romanizado!!!

Detalhe da villa romana de Frielas, concelho de Loures

Detalhe da Vila Romana de Pisões (Beja)
Detalhe da Villa Romana da Falagueira, Amadora
Conímbriga, perto de Coimbra

É uma pena que na obra que intitularam "Forninhos a terra dos nossos avós" tenha existido outros interesses, sobrepostos aos interesses de Forninhos e dos forninhenses.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Forninhos há 178 anos era freguesia d'Algodres

Forninhos hoje pertence ao concelho de Aguiar da Beira, mas há 178 anos Forninhos era freguesia do concelho d´Algodres. Passo a explicar:
Primeiramente Forninhos pertencia à Terra de Penaverde, na Idade Média dava-se o nome genérico de "Terras" a certas regiões mais ou menos extensas, a que correspondia uma circunscrição jurisdicional, compreendendo povoações mais ou menos próximas umas das outras, ligadas entre si por laços morais de interesses, foros, tradições e costumes. Essas circunscrições territoriais, subdividam-se em sub-regiões que também conservavam na mesma a designação de Terras. Mais tarde a designação de Terras foi substituída pela de Termo com significação mais restrita, aplicando-se este nome, como sinónimo de Distrito e Alfóz, a mais reduzidas circunscrições, a que se chamava Concelhos. Por força do Decreto de 6 de Novembro de 1836 o concelho de Penaverde foi extinto e todas as freguesias deste concelho, Dornelas, Forninhos, Penaverde e Queiriz, foram incorporadas no de Algodres.
Mas foi "sol de pouca dura" (como se costuma dizer) porque por decreto de 12 de Junho de 1837 publicado no Diário do Governo N.º 11, de 17 de Junho de 1837, a Cabeça (Sede) do Concelho de Algodres passou para a Villa de Fornos d´Algodres e transferidas para o concelho de Aguiar da Beira da Comarca de Trancoso, as freguesias de Dornelas, Forninhos e Penaverde, que formavam o antigo concelho de Penaverde. A partir desta data só a freguesia de Queiriz continuou a integrar o concelho de Algodres ou Fornos de Algodres, no qual se manteve até aos nossos dias.
Há, no entanto, fontes que informam que quando desapareceu o concelho de Penaverde em 1836 foi agrupado no de Trancoso e passou definitivamente para o de Aguiar da Beira quanto este foi restaurado em 1840.



Clique para ler


No entanto, os autores do "livro de Forninhos" sobre a Reforma dos Concelhos escreveram isto na pág. 73: (...) Se em 1801 faziam parte deste município as freguesias de Penaverde, Forninhos, Dornelas e Queiriz, em 1826, este território já estava confinado apenas a 3 freguesias com a saída de Queiriz, mas oito anos mais tarde, em 1834, o município recupera a sua constituição primária voltando esta freguesia a ser incorporada.
Ora, esta passagem (e mesmo o que se lê para trás) não diz de qual município se trata, nem a fonte! Simplesmente "atiram para o ar"! Mas presumindo eu que "falam" de Penaverde, enquanto concelho, que foi extinto por Decreto de 6 de Novembro de 1836, continuemos, pois:
"A carta de Lei de 12 de Junho de 1837 instituiu Fornos de Algodres como novo concelho, e extinguindo o de Algodres. Essa mesma carta definia que as antigas freguesias do extinto concelho (Forninhos, Dornelas e Penaverde), fossem desanexadas ao extinto concelho de Algodres e integradas no de Aguiar da Beira (Lima, 1935).".
Embora aqui citem a fonte que utilizaram (Lima, 1935), faltou dizer e era importante dizê-lo, porque também faz parte da nossa história administrativa, que quando o concelho de Penaverde é extinto todas as freguesias deste concelho, incluindo Forninhos, foram incorporadas no d'Algodres.
E mais...bastava uma consulta à publicação do Governo, n.º 141, de 17 de Junho para não escreverem o que escreveram. É que em lado algum se lê que o concelho d'Algodres foi extinto, o que se lê é que a Cabeça (mesmo que Sede) de concelho foi transferida. O detalhe é este:"A Cabeça do Concelho de d'Algodres, no Districto Administrativo da Guarda, passará para a Villa de Forno d´Algodres, e as Freguezias de Dornellas, Forninhos, e Penna-Verde, que formavam o antigo Concelho de Penna-Verde serão desannexadas do referido Concelho d'Algodres, e reunidas aos d'Aguiar da Beira da Comarca de Trancoso." (sublinhado nosso). O concelho d'Algodres se alguma vez foi extinto não o foi por esta Lei. Digo eu!
Agora o que me surpreendeu mesmo, mesmo, foi o que li no final da pag. 73 e início da 74: "Entre 1842 Forninhos fazia parte do concelho de Aguiar da Beira. Em 1867, a edilidade de Aguiar da Beira é extinta e as freguesias de Forninhos, Dornelas, Penaverde, Queiriz, Carapito, Cortiçada, Eirado, Valverde e Coruche passam a pertencer a Fornos de Algodres." (sublinhado também nosso). 
Deixa-me perplexa, além da falta de rigor e de qualquer suporte documental, este "Entre 1842"
Entre 1837 e 1842? Entre 1842 e 1867? Ou, entre 1837 e 1867? Palavra que não sei...
Depois espanta-me muito que em 1867 as freguesias de Forninhos, Dornelas, Penaverde e mais ainda as de Carapito, Cortiçada, Eirado, Valverde e Coruche passassem a pertencer a Fornos de Algodres!
Em que publicação está tal explanado? Qual a fonte e qual a data exacta da Lei ou Decreto do ano que citam (1867)? 
Sem intervalo, segue, assim:
"Anos mais tarde em 1878, o concelho de Aguiar da Beira é restaurado e Forninhos volta à sua circunscrição. Contudo, por decreto real de D. Carlos I, entre 26 de Junho de 1896, o concelho de Aguiar é novamente extinto passando o seu território para administração de Trancoso. Contudo, a 13 de Janeiro de 1898 é novamente restaurado, situação na qual se manteve até aos nossos dias.".
Anos mais tarde? Basta consultar alguma legislação régia para se perceber que Forninhos não ficou no concelho de Fornos de Algodres, pois a lei administrativa de 1867 foi revogada com a chamada "janeirinha".
Pelo que concluo que há historiadores a inventar, em vez de bem informar!

-/-
O Decreto de 12 de Junho de 1837 publicado no Diário do Governo N.º 11, de 17 de Junho de 1837 é claro e especifica muito bem que as freguesias do antigo concelho de Penaverde, com excepção da freguesia de Queiriz, passaram a fazer parte do concelho de Aguiar da Beira e comarca de Trancoso. 
Porque confio neste documento oficial, devidamente identificado, é isto que me permite afirmar que há 178 anos, Forninhos era freguesia do concelho de Algodres! Só.

Agradeço o documento oficial publicado ao amigo Albino Cardoso dos blogues: 
 http://dalgodres.blogspot.pt/http://aquidalgodres.blogspot.pt/

terça-feira, 14 de abril de 2015

Os latoeiros

" Vem a chuva, anda o caldeireiro na terra..."
Assim se comentava em Forninhos quando se ouvia no povo o barulho do bater dos caldeiros, isto  há mais de meio século atrás.



Contrariamente ao que os autores dos textos "Forninhos a terra dos nossos avós" nos quiseram fazer crer, no capítulo "a arte dos ofícios", a nossa aldeia nunca teve determinados mestres, entre eles o da latoaria e não tem de se envergonhar de tal, pois teve outras coisas que outros não tinham, mas que partilhavam com as redondezas.
Quando se lhes referem que: "Com mãos ágeis a dobrar o latão ou a folha-de-flandres, o latoeiro produzia um sem número de peças, quase todas ligadas ao dia-a-dia desta comunidade, como as candeias, os baldes e cântaros para a água, as almotolias, os funis, etc." sei eu e todos os forninhenses que estão a referir-se aos latoeiros de algumas aldeias de concelhos limítrofes, afamadas pelos seus bons mestres latoeiros, tais como os casos de  Pindo e Matela, no concelho de Penalva, Juncais e Figueiró da Granja, de Fornos, Coriscada de Trancoso e porventura muitas outras, mas de Aguiar da Beira pouco ou nada que eu tenha conseguido saber.
Trabalhavam com folha de flandres (lata), zinco e das suas mãos saíam os utensílios mais usuais para o dia a dia, é verdade, quer para a casa, quer para o campo. Potes de azeite, panelas, almotolias, funis, lampiões, enxofradeiras para as vinhas, a ferrada para a ordenha e transporte do leite, acinhos para a feitura do queijo, assadores de castanhas, etc. e tal...
De Forninhos, quem podia ou tinha oportunidade, nas feiras da zona encontrava as bancas repletas destas e outras coisas, sendo que na nossa aldeia, era normal de vez em quando aparecer o"Feno" de Dornelas, porventura a pé, para remendar tachos, panelas, regadores e caldeiros. Encostava no Largo da Lameira ou no pátio das casas e com a solda derretida, lá remediava a coisa.
De Figueiró da Granja, também vinha uma vez por outra um artífice de alcunha o "Preto", por ser moreno, mas este já vinha de carrinha. Entregava trabalhos feitos por encomenda e levava mais um ou outro pedido.
Mas o que melhor recordo, sem dúvida é o amigo Vasco da Matela, melhor, mestre Vasco, que agora, ainda apesar da idade, artesão certificado e muito requisitado pelos certames de artesanato pelo país. O Vasco vinha sempre ao domingo e com ele a tristeza era uma palavra por inventar. Por vezes a pé, afinal a Matela fica perto e depois começou a vir com uma motoreta, trazendo e levando encomendas.
Forninhos nunca teve latoeiros, mas também nunca teve falta deles!







Fotos: Cortesia de Henrique Santos Lopes.

sábado, 11 de abril de 2015

Do tamanqueiro ao sapateiro

Tamanqueiro foi uma das profissões manuais que houve também na aldeia de Forninhos. Os mais novos já não se lembram, mas numa altura em que os sapatos não eram para todos, havia pessoas em Forninhos que encoiravam calçado de pau: os tamancos e tamancas. Os tamancos eram um tipo de botas, feitos de couro ao natural e que depois eram encebados e nalguns casos pintados de preto; as tamancas ou socas eram um tipo de chinelas femininas, feitas também em couro natural, havendo-as também pintadas de preto. A base de ambos era feita de pau, normalmente de amieiro (matéria prima em abundância nas zonas ribeirinhas da nossa região) por ser um tipo de madeira leve e moldável e também por ser um material quente e seco principalmente para os meses de inverno, muito severo nesses tempos de antanho. Com brochas (pregos curtos com cabeça larga e achatada dos lados) pregados por baixo, para se não romper as solas, faziam um barulho muito característico quando se caminhava nas calçadas. Mais tarde, em vez de brochas, já se usava tiras de pneu para aligeirar o passo.
De Forninhos nomearam-me o o tio Aníbal (pai do tio Antoninho do Aníbal), tio António sapateiro (marido da tia Ilda), o tio Carlos Bragança, o tio Joaquim da Isabel, o tio Abílio Moca e o tio Funfas, um pedinte que Forninhos adoptou, que além de encoirarem as solas dos tamancos e tamancas, também reparavam alguns sapatos e botas que entretanto se tinham rompido.
Da mesma maneira que o fiz com os "pedreiros", "carpinteiros" e outros...quero neste 'post' prestar a minha homenagem aos "sapateiros" que protegeram os pés deste povo descalço, pois até à primeira metade do século XX era usual ver circular descalço, devido à ausência de meios económicos e também por hábito, já que muitos não conheciam outras solas que não as dos seus pés calejados. Esta realidade até é referenciada na "monografia de Forninhos":
"Os sapatos não se deitavam fora, arranjavam-se e duravam um vida. Aliás muitos dos testemunhos recolhidos em Forninhos apontam mesmo, para o uso de sapatos apenas em ocasiões especiais, sendo normal crianças e graúdos andarem de tamancos ou descalços nas suas atividades diárias." (pág. 173).
Mas no que respeita aos sapateiros de Forninhos, o que transcrevo a seguir já não é bem verdade:
"...o sapateiro trabalhava por encomendas. Vinha o cliente, escolhia e encomendava o modelo. Depois pegava-se nos moldes com o número correspondente e riscava-se a pele. Peça por peça, delimitava-se a matéria-prima que depois de cortada, era molhada e esfregada para se tornar mais dura.
De seguida, juntava-se as diversas partes com a máquina de costura ou à mão, ganhando assim forma. Colocava-se o contraforte, as palminhas e cortava-se a sola, faziam-se os saltos ou tacões. Montava-se tudo, colava-se, cosia-se e faziam-se os acabamentos.
Um mestre experiente fazia um par de sapatos por dia. Era um trabalho árduo, sem higiene, sem horário, que exigia muita habilidade e capacidade para manusear os diferentes materiais.".
Estará o historiador/investigador a referir-se a um mestre sapateiro da aldeia vizinha da Matela - tio Valentim - que trabalhava por encomenda e em dias específicos (domingos) se deslocava a Forninhos para entregar as encomendas?
É possível.

As imagens são meramente simbólicas, embora parecidas com as da época. 

sexta-feira, 6 de março de 2015

Mentiras e mais mentiras...

Em Forninhos não há cesteiros. Na verdade, a arte popular da cestaria nunca se desenvolveu nesta terra, mas isso não constituiu qualquer problema para que os autores da "monografia" da freguesia de Forninhos escrevessem o contrário, incluindo "o cesteiro" na arte dos ofícios da terra. Se calhar para eles - ou para quem os informou - quem sabia fazer um cesto, era cesteiro! Mas se assim fosse podia existir cestaria em qualquer povoação rural desta ou outra zona!

canastros, cestos usados nos trabalhos agrícolas

Segundo o que foi avançado por esses autores, em Forninhos "As necessidades do quotidiano agrícola aguçavam o engenho e surgiam então as cestas de mão, arredondadas, com uma asa larga para facilitar o transporte de objectos e produtos pesados. Donde veio esta? Confesso que não sei. "Serviam um pouco para tudo, desde a sementeira, à apanha da fruta ou ovos ou o transporte do farnel para o campo. Os cestos maiores eram usados nos trabalhos agrícolas na apanha da uva ou do milho."
Tenho lido bastante sobre a arte popular da cestaria e sobre esta cesta, a tal com uma asa larga, descobri que se chama cesta de corra. É feita com corras de carvalho.

cesta de corra, com asa larga

"Construída com amor e muito engenho, a arte da cestaria começou a desaparecer com a generalização do plástico em meados da década de 60."
Mais:
Em Forninhos, "O cesteiro percorria os campos à procura da sua matéria-prima. Colhi-a e tratava-a, secando-a. Quando estava em condições para ser moldada, o artífice estruturava primeiro o esqueleto da peça, forrando-o de seguida com as fibras de madeira ou juncos".
"Só com uma faca, as mãos e dos dentes, o cesteiro entrelaçava a matéria-prima numa sequência repetitiva dando vida e forma à peça.".
Olhem que a cestaria foi de tal modo importante em Forninhos que ainda hoje "...já não há quem faça estes cestos, mas a lembrança perdura e ainda podemos encontrar pedaços de velhas memórias de outrora."!!!
De Forninhos tenho lembrança de ver uma senhora - D. Mimi -  fazer um cesto de vime, mas disso nunca fez negócio! Negócio faziam os artesãos que se deslocavam à nossa aldeia vender cestos, que os faziam na hora, bem como revestiam os garrafões com vime.


garrafão de vidro empalhado
Historiador e arqueólogos inventaram e conceberam cestos adequados às necessidades dos nossos agricultores e baseados na ideia de que "As necessidades do quotidiano agrícola aguçavam o engenho" existiram cesteiros em Forninhos! 



Nem sei como no brasão de Forninhos não está representada a cestaria. O brasão podia fazer uma referência ao junco, ao vime, à cesta de asa larga, sei lá...!

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Sepulturas escavadas na rocha


Esta sepultura escavada numa pequena rocha, encontra-se numa mata (pinhal) a sul da lagareta que se encontra perto da Capela de N. S. dos Verdes, em Forninhos. Tem 1,70m de comprimento e 50cm de largura na parte superior e 40cm na parte inferior e a cabeça está virada para nascente.
Já falamos dela aos leitores do 'blog dos forninhenses' em Setembro de 2010 e foi descrita num livro feito de fotos - pág. 42 - a que deram o nome "Forninhos, a terra dos nossos avós", ano 2013, assim:

"Sepultura escavada na rocha de Lagarinhos

Descrição
Sepultura escavada na rocha, não antropomórfica. O corpo do defunto seria colocado na posição de decúbito supino ou dorsal, sem caixão apenas envolto num pano ou túnica (sudário). Esta sepultura seria encerrada com uma tampa formada por uma lage única ou várias colocadas lado a lado.
Cronologia 
Medieval (séc. XII-XIII)".
Mais foi referido (e aqui existe contradição):
"As sepulturas escavadas na rocha podem apresentar-se sem o contorno da cabeça e pés, como é o caso da Sepultura dos Lagarinhos, correspondendo ao momento mais antigo da edificação destes monumentos, em redor dos sécs. X/XI. Um pouco mais tardias, do séc. XII/XIII são as sepulturas que apresentam os contornos do corpo humano sendo por isso denominadas de antropomórficas.
(...)
É quase certo que esta sepultura estará relacionada com o povoado de S. Pedro localizado a cerca de 1,5 km a nordeste.". (sublinhados nossos).

Como há uns tempos, recebi no meu e-mail uma foto idêntica, hoje, dia 22 de Outubro de 2014, apeteceu-me publicá-la, pois aqui e ali...outras sepulturas escavadas nas rochas deve haver, quase de certeza...


O que o autor da foto disse é que a encontrou indo para Senhora dos Verdes, próximo a uma lagareta, mas não soube dizer-me se é a mesma lagareta a que chamam "lagarinho ou lagarinhos" ou se foi perto da lagareta da pág. 32 a que deram o nome de "lagar rupestre de Santa Maria". Conto consigo para ajudar a que se perceba melhor...