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domingo, 23 de outubro de 2022

Maneira de contar os dias e os meses

O dia 1 de Novembro é o dia de Todos os Santos, mas o calendário religioso tem um dia dedicado a cada santo e, por isso, o 11 de Novembro é o dia de São Martinho, embora ainda se celebre antes o dia dos fiéis defuntos, a 2 de Novembro (dia dos mortos). 
O dia 8 de Dezembro é dia da Sra. da Conceição e o dia 13 é dia da Santa Luzia (minga a noite e cresce o dia) e estamos no dia de Natal. Ainda hoje dizem dia de Natal e não dia 25 de Dezembro. Assim como a véspera é o dia da Consoada.
O primeiro dia do ano era o dia das Janeiras, o dia 6 era o dia dos Reis. 
As feiras também eram conhecidas pelo nome que se festejava nesse dia. O 20 de Janeiro (dia de São Sebastião) é dia da Feira dos Vinte, no Mosteiro; o 23 é o dia do Santo Ildefonso, festejado em Esmolfe, feiras onde sempre acorriam os forninhenses. 
Até os nossos descobridores iam pondo nomes de santos às terras que iam achando. Muitas tomaram nomes de santos que se festejavam nesse dia em que eram achadas: Ilha de São Miguel, Ilha de Santa Maria, Ilha de São Jorge, etc....
Mais vagos são os dias sem festividade fixa: o dia do Entrudo, a Quarta-Feira de Cinzas que marca o início da Quaresma ou o dia de Ramos e de Páscoa (não dizem o dia "x" de Março ou "y" de Abril).
O 3 de Maio ainda hoje é o dia de Santa Cruz. Depois vem a Quinta-Feira de Ascensão, a Segunda-Feira do Espírito Santo e o tempo das cerejas, que faz-me lembrar Amália Rodrigues.
A Amália não sabia o dia em que nascera. A mãe apenas lhe dissera que nasceu no tempo das cerejas e por causa disso Amália mandou pintar as paredes da sala de jantar com essa fruta.
O povo raramente usava o nome dos meses.
Regulava-se pelo tempo das ceifas, pelo tempo das malhas, pelo tempo das vindimas, pelo tempo dos magustos, pelo tempo dos míscaros...
Pelo Santo António, Pelo São João, pelo São Pedro, pela Santa Marinha (que é a Padroeira de Forninhos), pelo São Bartolomeu...

Sala de Jantar da Amália - foto retirada da net

Mas se há dia e mês que marca o calendário do forninhense, é o dia 15 de Agosto quando marca encontro na terra pela Senhora dos Verdes.
8 de Setembro é dia de Nossa Senhora da Saúde.
16 de Setembro é dia da Santa Eufémia, na Matança.
29 de Setembro é do dia de São Miguel das uvas.
Era a agricultura e a religião que comandavam a vida das gentes das aldeias como Forninhos. Por isso, até ficou em ditados esta forma de contar o tempo:
"Em Dia de S. Simão e de S. Judas, já colhidas estão as uvas", ou seja, pelo 28 de Outubro já toda a gente vindimou.
Ou
"No dia de São Martinho vai-se à adega e fura-se o pipinho"
E este outro:
"Pelo Santo André faz o bacorinho coé-coé".
O povo por mais que queira, não consegue desligar-se da religião e continua a marcar a sua vida pelo Natal, Páscoa e dias santos.

Faltam 69 dias para acabar o ano de 2022

domingo, 18 de março de 2018

Ditos do Povo

Somente para avivar a memória. Que diziam os nossos pais e avós do mês e do tempo quaresmal que vivemos?


De Março:

"Se entre Março e Abril
o cuco não voltar
ou ele está morto
ou o mundo vai acabar"

"Março, marçagão
De manhã inverno
E à tarde verão"

Este ano, quem dera. Este Março é mais Fevereiro "rego cheio".




Da época pascal:

"Ramos molhados, anos abençoados"

Mas a mulher que se previna:

"Na semana dos Ramos
Lava os teus panos
Que na da Paixão
Lavarás ou não"

E pronto...

"Lázaro, Ramos e na Páscoa estamos", desde pequenos que ouvimos também este dito, bem mais longo porque popularmente existe um nome, para cada uma das semanas da quaresma ou para os seis domingos que antecedem o domingo de Páscoa: Ana, Magana, Rebeca, Susana, Lázaro, Ramos e na Páscoa estamos. 


Mas já agora, uma lenga-lenga:

"Domingo de Rebeca
armei uma rela
Domingo de Lázaro
apanhei um pássaro
Domingo de Ramos
o depenamos
Domingo de Páscoa
o papamos".

domingo, 18 de junho de 2017

Predicados

Na vida social de uma aldeia como Forninhos havia há 50 anos palavras e expressões com um significado que ainda hoje têm o mesmo valor. Exemplo, as palavras "doutor" e "professor". 
Mesmo que não tivessem concluído uma qualquer licenciatura os "doutores e professores" eram boas pessoas, boa gente e isso valia-lhes o respeito da população. Já diz o povo "mais vale cair em graça do que ser engraçada"
Sei que me entendem.
O exemplo do contrário, era judeu ou guinário. De cada vez que se queria dizer que fulano e sicrano era mau, bastava dizer:
- Aquilo é um Judeu!
E estava tudo dito. Pessoa que assim fosse rotulada estava marcada.
Mas para dizer que uma pessoa era mesmo muito má para a mulher e filhos, em geral as grandes vítimas, dizia-se:
- Aquilo é um Rei Herodes!
Se queriam ofender:
- Guinário.
Virá certamente de "sanguinário" e era uma palavra muito usada na minha meninice em Forninhos para designar pessoa que tinha mau íntimo. 


Rei Herodes - Rei da Judeia

Outras palavras muito usadas eram candaugua e corrécio.
A palavra candaugua é formada pelos sons do que devia ser "cão de água" e significa(va) vadio, um corrécio, que gosta muito de vadiar e pouco de trabalhar.
Quando um rapaz vinha tarde para casa ouvia logo essa do candaugua.
- Ah, candaugua, isto é que são horas?
- Seu corrécio!
Mas o que é que este cão algarvio, que segundo se lê na wikipédia até foi muito trabalhador tem a ver com vadiagem?
Não sei. Não encontro a lógica.
Outra:
- Aquilo é que é um valdevino!
Quer dizer também que a pessoa é um vadio, um estroina, que frequentava tabernas...
A palavra monarca também se ouvia como ofensa. Era alguém rude e armado que gostava de mandar, dominar. No feminino significava mulher muito gorda.
Depois vieram os vocábulos introduzidos pela mistura emigrante.
Quem não se lembra daquela célebre mãe a gritar "Michel, tu vas tomber" (Miguel, vais cair) e como o filho caiu: "Ai o filho da p*** que caiu mesmo".
O calão emigrante ouvia-se (e ainda se ouve) nas casas dos primeiros emigrantes regressados. 
Logo chegados de férias, falavam sem cessar das folhas de peia (feuille de paie), que significava o recibo relativo ao salário; dos papiês (papiers), os documentos de legalização como emigrantes; das pubelas (poubelles), os caixotes do lixo. Além dos vocábulos, demos connosco também a saber de cor os departamentos através das matrículas dos carros. O 75 era Paris, 92 ou 94 era dos arredores, 68 Colmar....
Apesar de serem cá apelidados depreciativamente de "avecs", é preciso não esquecer que naquela triste e apagada época dos "senhores doutores" em que, se tanto havia um ou dois em cada aldeia, a emigração trouxe dinheiro e conforto e construiu-se com a vinda dos avecs um linguajar diferente e mais colorido.
Longe vão os tempos em que se inventaram palavras como "guinários".

sábado, 1 de novembro de 2014

O cão do Zé Vaz

Quem nao se lembra ainda hoje em Forninhos, do vociferar das mulheres para os seus homens:  "andaste na moina, andaste na borga, és pior que o cão do Zé Vaz".


Num modo de linguajar caseiro, eis a história simples destas palavras julgativas de menosprezo por comportamentos "vadios", embora de sã libertinagem.
O cão, porventura mais delgadito que o da foto e segundo me disse quem o recorda, tinha pelo amarelo escuro. O seu dono não vivia mal e muitos ainda dele se recordam. Feitor do homem com mais posses na aldeia, quatro filhos. Uma freira, um padre, um juiz e um marceneiro.
Mas, relato a estória ouvida. 
Havia uma mulher na vizinha aldeia da Quinta da Ponte que vendia sobretudo na Feira Nova, utensílios de madeira para utilizacão na vida doméstica do dia a dia, gamelas e banquitas, tendo por tal a alcunha de "Gamelas".  
Vinda a pé ou  montada na  burrita, subia em direccão à feira, tendo de passar por Forninhos e o "raio" do cão, esperto e curioso, começou a seguir os passos da feirante, nas quartas-feiras, de quinze em quinze dias. Dias de feira em que ele se "escapava", o malandro. Tal mistério foi descoberto, aquando os vendedores e compradores da feira que iam da terra  o notaram como companheiro por debaixo das mesas de madeira improvisadas,  a abocanhar os restos de ossos e marrã frita.
Um cão com dono, armado em vagabundo aventureiro, mas fino. Chegava a casa satisfeito, pudera!
E segundo consta, enquanto deu para tal, "lá navegava" atrás da tia Gamelas. Um senhor "feirante", sem nunca se perder e voltando sempre a casa!
Embora real, podia dar um bom filme de amor entre um cão e uma senhora que ganhava a vida nas feiras, mas vendo bem tal foi! Permanece na memória e por tal, quando ainda hoje os homens vão a esta feira  no argumento de comprar, na simples mira de petiscar e no regresso tardio, embora complacente, ouvem a ladainha do por onde andaste tanto tempo e a sentença habitual "Não tens vergonha nenhuma a cirandar por aí, és pior que o cão do Zé Vaz"!.

quarta-feira, 28 de março de 2012

AS MERENDAS

Antigamente no Inverno, porque os dias são curtos, não havia MERENDA. Depois, chegada a hora de Verão, chegava também a hora da merenda. O acto de merendar fazia parte do dia a dia das famílias, pelo menos, há 40, 30, 20 anos atrás era assim. Está bem: ainda mais ou menos é assim, mas o termo, modo de dizer, só as pessoas mais idosas o usam, já que os mais jovens dizem "lanche" e "lanchar".


Da parte da tarde, quiséssemos ou não, era costume a família a seguir à sesta e antes de iniciar os trabalhos no campo, ainda com muito sol, comer a merenda. Aliás, a palavra merenda veio do latim memere, "merecer". Para comer algo, todos tinham de fazer por o merecer, parece. Mas o que me motivou a escrever este artigo foi a fotografia, uma amostra como há 40 anos atrás a família Carau fazia súcia, partilhava a merenda, convivia. Da esquerda para a direita o tio Zé Lopes corta o queijo com a navalha e reparem agora no colo do tio Ulisses. 
Outras iguais tenho para por aqui registar coisas nossas que um dia já foram assim, sempre com a ajuda e explicação de alguém mais velho, porque se ninguém registar as vivências e modos de dizer, hoje bem distantes e mesmo desconhecidos dos mais jovens: «bye-bye».

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Modos de Dizer: “Um frio de Rachar”

Expressões como “está um frio de rachar” ou “está um frio que corta” são usuais nos dias de muito frio e é quando mais apetece sermos aquecidos pelo fogo de uma bela fogueira:


Com este Post volto às expressões orais, modos de dizer, que não sendo exclusivamente forninhenses, fazem parte da nossa linguagem. Aqui ficam mais algumas frases sábias que o nosso povo usa para se referir aos dias de chuva e de muito vento:

- A propósito dos dias de chuva, há ditos populares que ainda se ouvem, como: “chove a cântaros”; “chove que Deus a dá”; “borriço”;” chuva de molha-tolos” ou "chuva molha-todos"...

- Quando havia muito vento ouvia-se, noutros tempos: "morreu um escrivão para os lados de Trancoso”; "anda o diabo à solta"...

Comentem estas expressões e sugiram mais.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Modos de Dizer: "Matar o Bicho"

"Matar o Bicho" é uma expressão muito conhecida do povo forninhense, como designação da primeira refeição do dia, a que hoje habitualmente chamamos de pequeno-almoço. As outras refeições principais eram o “jantar” por volta do meio-dia e a “ceia” à noite. Ainda hoje as pessoas mais velhas referem-se ao almoço, como jantar.

Antigamente eram os próprios patrões que ofereciam o “mata-bicho” aos trabalhadores do campo, antes de estes começarem o trabalho; e, a meio da manhã, portanto, antes do meio-dia, comiam a piqueta, o que ainda hoje é usual nos trabalhos rurais.
Outra expressão que ainda hoje é usual e habitual entre os forninhenses é a merenda, que é uma refeição feita por volta das 16h.

Contribuam com outros modos de dizer, palavras ou frases que podem ser usadas para expressar outro significado.

« eu já estou com a barriga a dar horas»