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sábado, 26 de novembro de 2022

"A Morte Chega Cedo"

Foi em Setembro que Forninhos se despediu de mais um filho da terra, o João tinha 55 anos e faleceu no dia 4 de Setembro. No passado dia 24 de Novembro seria de cantar o seu aniversário e apagar as 56 velas.
Ontem, 25 de Novembro, ao falar com a minha mãe, soube que Forninhos sofreu mais uma perda, faleceu a São, que tinha a minha idade, 51 anos.
Dois amigos que Deus levou de forma inesperada!
Grande turbulência que vai na minha cabeça! Parece ficção. 
Até sempre amigos. 
Descansem em paz
🕊️🕊️
À família da São, os meus sentimentos e um abraço de solidariedade nesta hora má.
A ti, grande amigo João, Parabéns. As minhas memórias não deixarão que tu morras...(para quem crê na doutrina cristã como eu, não faz sentido tudo acabar depois da morte).


Em Vossa memória deixo os meus crisântemos que eram as flores que enfeitavam as campas dos cemitérios no mês de Novembro e uma bela mensagem de Fernando Pessoa, que fala sobre a existência humana.

"A Morte Chega Cedo".

A morte chega cedo,
Pois breve é toda a vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.

O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.

E tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.

sábado, 19 de novembro de 2022

Gente Nossa

Tenho ainda lembrança da bisavó Casemira, de saias compridas, a quem chamavam tia Caniça (Forninhos tinha e tem uma alta imaginação de apor alcunhas, não só a todo o nativo, mas também a todo o estranho que entre em contato com a comunidade).
Era viúva e vivia em casa dos meus avós maternos. Já teria uma certa idade, mas só agora lhe contei os anos. Tinha 84 anos quando faleceu, no dia 1 de Setembro de 1978.
Da sua genealogia apenas sabia que era prima do ti Bartolomeu, que também ainda conheci. Então tive de voltar às investigações...

Nasceu a 23 de Dezembro de 1894


Foi Batizada no dia de Natal de 1894

Era a filha mais nova de Francisco de Almeida e de Elisa dos Prazeres da Costa
Neta paterna de António de Almeida e de Maria Albuquerque, ambos naturais e residentes em Forninhos.
Neta materna de José da Costa, de Forninhos e de Antónia Prazeres, de Dornelas.
Irmã de:
António, nascido a 01-01-1897 (emigrou para o Brasil)
Alzira, nascida a 22-10-1899 e que faleceu com 2 anos de idade
Diogo, nascido a 01-07-1902 (emigrou para o Brasil)

Casou no dia 24 de Abril de 1913

No Posto do Registo Civil de Forninhos, com Maximiano Guerra, filho de José Guerra, alfaiate, de Forninhos e Emília Mota, da Matança. 

Casemira com a filha, genro e netas: Ana e Ema

O casal teve apenas uma filha, uma rapariga de nome Maria de Jesus Guerra (minha avó). 
Teve 7 netos e o maravilhoso é que a avó Casemira amava todos da mesma forma. 
Depois de ter criado a filha, o destino reservou-lhe a missão de tratar dos netos:
-José, casou na Matela
-Ana
-Augusta
-Profetina, casou na Matela
-Lurdes
-Luis
-Ema (minha mãe)

Dos 15 bisnetos ainda conheceu 13.

Os seus avós paternos, António de Almeida e Maria Albuquerque, ambos naturais e residentes em Forninhos, terão casado na 2.ª metade do século XVIII, foram os pais de, pelo menos, sete filhos:

Batizado de Francisco Almeida

1-Francisconasceu a 01-12-1865 e foi batizado a 17-12-1865. Com 27 anos de idade casou com Elisa dos Prazeres da Costa, de 19 anos, filha de José da Costa, de Forninhos e de Antónia Prazeres, de Dornelas. Faleceu a 01-10-1934.
2- José, nasceu a 01-10-1868 e foi batizado a 15-10-1868; faleceu a 27-11-1936.
3-Maria, nasceu a 16-03-1871 e foi batizado a 02-04-1871. Com 25 anos casou com António Bartolomeu de 42 anos de idade. O casamento realizou-se no dia 28-01-1897. António Bartolomeu era filho de Maria Ferreira e de Manuel da Fonseca Bartolomeu, ambos de Forninhos.
4-Luís, nasceu a 03-12-1873 e foi batizado a 21-12-1873; faleceu com 6 meses a 21-07-1874.
5-Diogo, outro filho do casal, nasceu a 02-03-1876 e foi batizado a 26-03-1876; casou com 29 anos com Arminda Pina, de 21 anos (eram primos); ele faleceu a 05-09-1947. Arminda Pina era filha de Maria Moreira e António Pina, ambos de Forninhos.
6- Albertonasceu a 07-12-1879 e foi batizado a 18-01-1880; faleceu a 29-01-1950.
7- Luís (2.º do nome), faleceu com 18 meses a 28-07-1886.

Casamento de Maria e António Bartolomeu

Os seus avós maternos, o José da Costa, de Forninhos e a Maria dos Prazeres, de Dornelas, foram também pais de:
1- José, foi o padrinho da bisavó Casemira e à data era solteiro.
2- António, casou com Felismina Marques, filha de António da Fonseca Marques e Maria da Fonseca, vide família Marques. Este casal teve, pelo menos, uma filha chamada Alzira.
3- Júlia. Seria a Júlia dos Prazeres que casou com Alípio Batista? 

A família do marido:

Os sogros, José Guerra, alfaiate, de Forninhos, que faleceu a 18-09-1908 (tinha 60 anos), e Emília Mota, sabemos que tiveram três filhos que chegaram à idade adulta, netos paternos de Francisco de Andrade e Maria Guerra, ambos de Forninhos e maternos de José de Sousa e Joseffa Mota, ambos da Matança:

Emídio, nascido a 29-12-1878 (seria o pai da tia Purificação? a esposa do José Melo, moradores em Viseu, pais dos primos Américo e Esperança?)
Maria, nascida a 30-07-1882, mas quis Nosso Senhor levá-la com 10 meses
Maria, segunda do nome, nasceu a 05-11-1884 e foi batizada em Forninhos no dia 11-01-1885. Não sabemos se sobreviveu. De 1 de Junho de 1859 a 6 de Janeiro de 1888 os registos são muito difíceis de ler, foram todos feitos pelo Cura Francisco de Almeida Coelho, que tinha uma letra mais arcaica que a do Cura Baltazar Dias (1758). E, de 6 de Janeiro a 28 de Fevereiro, o Pároco Joaquim de Almeida Coelho tinha uma letra quase tão má como a do pároco anterior (pelos sobrenomes talvez fossem irmãos).
Maria de Jesus, nasceu a 15-04-1888. Casou a 20 de Maio de 1920 com José dos Santos Albuquerque, conhecido por "Zé Rito", pais de Júlia "Rito" esposa de Augusto Marques. Faleceu a 11 de Setembro de 1958.
Maximiano, nascido a 29-01-1892, marido da bisavó Casemira. Sabia ler e escrever, mas teve uma vida curta; faleceu no dia 01 de Agosto de 1928, tinha 36 anos. Morrer aos 36 anos é muito cedo!

Batismo de Maximiano Guerra

Para quando um cemitério memorial, a ressuscitar/imortalizar todos os esquecidos que deixaram pegadas por esta terra?
Houve enterramentos no adro da igreja.

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Nossos 13 anos

Faz hoje 13 anos que dei o alerta de que para compreender o presente é preciso primeiro conhecer o passado e, desde então, todos os anos nesta data, dia 9 de Novembro, lembro esta premissa e este 13.º ano não vai ser exceção, por isso, do baú sai mais um clique do século passado, do tempo quando as máquinas fotográficas ainda eram um artigo raro em Forninhos, daí a atenção e o ar sério dos interessados no passarinho


À frente está o meu pai, o Samuel, o meu tio António, penteadinho de risco ao lado, e de laçarote no cabelo, a Natália, minha madrinha. Lá atrás, encostadas à porta de madeira, estão as minhas tias Júlia e Margarida. 
Foi há setenta anos? Não sabemos a idade exata da foto, encontrada pelo meu primo Ricky entre os documentos da minha tia Margarida e facultada pela minha madrinha, mas já lá vão com certeza seis décadas; o meu pai está quase a fazer 78 anos e graças a esse extraordinário invento que foi a fotografia, todos podemos ver como "eram os homens e mulheres de amanhã" e fica demonstrado, mais uma vez, que o passado rejuvenesce as nossas lembranças da infância: vejo a enorme teia de primos, de tios e outros familiares e até de vizinhos, que compunham os quotidianos da nossa aldeia, com os trabalhos do campo, a escola, a catequese, a animação domingueira, as festas...
Saudades....
Bem hajam tias Margarida, tia Natália e primo Ricky por mais uma foto que aqui deixam ao povo de Forninhos e para a posteridade. 
Bem-Haja XicoAlmeida pela tua persistência. Os anos passam no mundo real (e virtual) e só o que é forte perdura. 
Durante este longo percurso de 13 anos, foram publicadas, até ontem, 971 entradas e 19.218 comentários no nosso Blog! Tudo isto é obra!
Bem hajam todos pela vossa companhia e amizade, que se não fosse desta forma virtual, provavelmente nunca aconteceria.
Parabéns a quem festeja esta data, 09/Novembro🎈
Vamos continuar por aqui...

domingo, 30 de outubro de 2022

É uma cidade (um castanheiro)

Se há coisas muito bonitas e que merecem ser recordadas todos os anos: são as castanhas e os castanheiros. Aquilino Ribeiro numa entrevista dada a Igrejas Caeiro descreve-nos com uma grande sensibilidade o lugar onde nasceu:
- Eu nasci no meio dos castanheiros, na zona dos castanheiros. Sabe que o castanheiro é uma árvore bonita, uma árvore da força e da beleza...
- Frondosa... A árvore mágica não parece estranha ao entrevistador!...
- Mais que frondosa. Um castanheiro é uma cidade. É uma cidade para os pássaros. Há o peto real, há a poupa, há o melro, que fazem o ninho nos castanheiros...
Aquilino parece ter descido à sua infância. 
- É um pequeno mundo...Parece que o entrevistador tem também um coração de menino!...
- Absolutamente. É um perfeito mundo. E depois as pastoras que vêm, com os seus tamanquinhos, britar o ouriço, com os britadores especiais, com a sua capuchinha para apanhar as castanhas, todas as manhãs, quando vem um bafo de vento. Tem muita graça. E quando elas se começam a rir?!...A castanha é uma coisa muito bonita!...
Como não há duas leituras iguais e depois, a cada época sua leitura, hoje ao ler esta entrevista lembrei-me dos meus avós, tias e tios que já partiram...
Havia um souto, herança do meu avô Cavaca, no terreno da Moradia; as minhas tias, Júlia e Margarida, foram para lá muitas vezes apanhar as castanhas logo pela manhã, antes de seguirem para a escola, ainda com o terreno orvalhado da noite, pois quando as castanhas estão na sua força de cair (estou agora a escrever como se ainda lá houvesse castanheiros, atenção: não há!) tinham de ser apanhadas duas ou três vezes ao dia para que mãos alheias não se aproveitassem delas. 
A pobreza levava muita gente a apoderar-se do alheio, sobretudo do que era menos comum haver na aldeia. 
A partir da apanha qualquer pessoa poderia ir lá fazer o rebusco


Reforçamos, assim, a memória e a saudade, para que, cada um à sua maneira, não se esqueça que só somos eternos se tivermos memória e a passarmos aos vindouros.

domingo, 23 de outubro de 2022

Maneira de contar os dias e os meses

O dia 1 de Novembro é o dia de Todos os Santos, mas o calendário religioso tem um dia dedicado a cada santo e, por isso, o 11 de Novembro é o dia de São Martinho, embora ainda se celebre antes o dia dos fiéis defuntos, a 2 de Novembro (dia dos mortos). 
O dia 8 de Dezembro é dia da Sra. da Conceição e o dia 13 é dia da Santa Luzia (minga a noite e cresce o dia) e estamos no dia de Natal. Ainda hoje dizem dia de Natal e não dia 25 de Dezembro. Assim como a véspera é o dia da Consoada.
O primeiro dia do ano era o dia das Janeiras, o dia 6 era o dia dos Reis. 
As feiras também eram conhecidas pelo nome que se festejava nesse dia. O 20 de Janeiro (dia de São Sebastião) é dia da Feira dos Vinte, no Mosteiro; o 23 é o dia do Santo Ildefonso, festejado em Esmolfe, feiras onde sempre acorriam os forninhenses. 
Até os nossos descobridores iam pondo nomes de santos às terras que iam achando. Muitas tomaram nomes de santos que se festejavam nesse dia em que eram achadas: Ilha de São Miguel, Ilha de Santa Maria, Ilha de São Jorge, etc....
Mais vagos são os dias sem festividade fixa: o dia do Entrudo, a Quarta-Feira de Cinzas que marca o início da Quaresma ou o dia de Ramos e de Páscoa (não dizem o dia "x" de Março ou "y" de Abril).
O 3 de Maio ainda hoje é o dia de Santa Cruz. Depois vem a Quinta-Feira de Ascensão, a Segunda-Feira do Espírito Santo e o tempo das cerejas, que faz-me lembrar Amália Rodrigues.
A Amália não sabia o dia em que nascera. A mãe apenas lhe dissera que nasceu no tempo das cerejas e por causa disso Amália mandou pintar as paredes da sala de jantar com essa fruta.
O povo raramente usava o nome dos meses.
Regulava-se pelo tempo das ceifas, pelo tempo das malhas, pelo tempo das vindimas, pelo tempo dos magustos, pelo tempo dos míscaros...
Pelo Santo António, Pelo São João, pelo São Pedro, pela Santa Marinha (que é a Padroeira de Forninhos), pelo São Bartolomeu...

Sala de Jantar da Amália - foto retirada da net

Mas se há dia e mês que marca o calendário do forninhense, é o dia 15 de Agosto quando marca encontro na terra pela Senhora dos Verdes.
8 de Setembro é dia de Nossa Senhora da Saúde.
16 de Setembro é dia da Santa Eufémia, na Matança.
29 de Setembro é do dia de São Miguel das uvas.
Era a agricultura e a religião que comandavam a vida das gentes das aldeias como Forninhos. Por isso, até ficou em ditados esta forma de contar o tempo:
"Em Dia de S. Simão e de S. Judas, já colhidas estão as uvas", ou seja, pelo 28 de Outubro já toda a gente vindimou.
Ou
"No dia de São Martinho vai-se à adega e fura-se o pipinho"
E este outro:
"Pelo Santo André faz o bacorinho coé-coé".
O povo por mais que queira, não consegue desligar-se da religião e continua a marcar a sua vida pelo Natal, Páscoa e dias santos.

Faltam 69 dias para acabar o ano de 2022

sábado, 8 de outubro de 2022

Ora, certa manhã de Outono...

Quem nunca andou aos míscaros no outono e encontrou uma castanha ou uma bolota que as gaias enterravam? Estes pássaros faziam provisões de castanhas e bolotas que enterravam e as que ninguém achava e as gaias lhes perdiam o sítio começavam a nascer árvores, castanheiros e carvalhos(as).
Então, aqui fica mais um excerto de Aquilino Ribeiro, do Livro a Casa grande de Romarigães, escrito em 1957, tinha o autor 72 anos, que retrata muito bem essa vivência nossa em Forninhos e é a continuidade do post O vento que é um pincha-no-crivo que escrevi na Primavera do ano passado.


"... Também ali perto, por uma tarde fosca de Outubro, chegou um gaio, voejando de chaparro em chaparro, a grasnar mal-humorado como é próprio da raça. No saiote desbotado, as duas pinceladas de azul, azul retinto, fulguravam para que se soubesse que um gaio também é gente dos ares. Trazia no bico uma bolota, um pouco menor que o bolo que o corvo costumava levar à cova de Daniel, mas para ele era mais importante. Dispunha-se a comer a merenda bem amargada, quando deu com os olhos no mariolado vizinho com quem bulhara uma Primavera inteira por causa da gaia, depois sua mulher. Já esse tal, rancoroso e mau, dava jeitos de querer investir, penas riças, garras desembainhadas, a asa possuída de frenesim. Que remédio senão preparar-se para o receber condignamente! E deixou cair a glande. Esta foi bater na face zenital dum velho toro, saltou de ricochete para o lado e aninhou-se muito aninhada num monte de folhas secas e argalhos. Ninguém a via, nem ela via a mais pequena nesga do mundo.
Os dois gaios, depois de trocarem muitos gritos de cólera e darem a sua bicada, mas sem que corresse sangue, despediram-se. O mais rela e pundonoroso pulou ao chão a procurar a sua rica bolota. Procurou, tornou a procurar pincharolando dum lado para o outro e introduzindo por toda a parte, taladas e covilhas, o olho finório e matuto, mas nada descobriu. Soltou duas ou três vezes a sua voz ralhada a conjurar os deuses daquele desaforo, perdeu a paciência. E saraivando, batendo a asa, ainda meio atrida da rixa, lá foi para o outro carvalhal onde havia que pilhar.
A bolota taluda ficara ali muito quieta, muito bem refastelada em virtude do próprio peso, enterrada que nem pelouro de batalha depois de passarem carros e carretas. Que fazer senão deitar-se a dormir? Dormiu uma hora, uma vida inteira, quem sabe?! Um laparoto veio lá de cascos de rolha, rapou a terra, fez um toural, aliviou-se, e ela ficou por baixo, sufocada sem poder respirar, em plena escuridão. Estava no fim do fim?
Um belisco, e do flanco saiu como uma flecha. Era de luz ou de vida? Era uma fonte ou antes um cântico de ave, de água corrente, de vagem a estalar com o sol, dum insecto na sua primeira manhã, música trilada da terra ou das esferas? Era tudo isto, encarnado no fogo incomburente que lhe lavrava no flanco, verbo que acabou por irradiar do próprio mistério do seu ser. (...)
Ora, certa manhã de Outono..."

Da semente se faz a árvore🍁