As comemorações do 25 de Abril estão à porta e é por isso que quero voltar a falar de um dos acontecimentos mais marcantes da História Portuguesa - a Guerra Colonial. Vou deixar aqui uma síntese daquilo que passou o autor do blog Guerra Colonial, do Zaire ao Cunene passando pelos Dembos, o texto é longo, mas cada um lê o que quiser e se quiser...
Hesitei no título a dar à peça. Hesito sempre na escolha do título. Pensei: "Das Rãs-Sátão ao Cunene passando pelos Dembos". "Guerra Colonial: As pedras que me atiraram" foi outro título que ocorreu, mas não...seria demasiado violento para os leitores como me disse o Sr. António S. Leitão.
Começo então por um episódio marcante, o dia da partida:
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| a bordo do Vera Cruz: 10 de Janeiro de 1972 |
Era um domingo como os outros. Mais frio e cinzento, normal para o Inverno. Depois de introduzir numa pequena mala os meus parcos haveres, saio pela porta do lado Norte porque era esta que dava para a estrada nacional. Depois de atravessar o pátio que daquele lado era mais pequeno, encosto-me à ombreira do portão e aí aguardo a chegada de um autocarro da União de Sátão, mais pequeno que os outros, porque só fazia a ligação Sátão/Aguiar da Beira. Chamavam-lhe a carreira das três. Instantes mais tarde, uma apitadela na última curva, avisar-me-ia que tinha chegado a hora.
Atravesso a estrada em oblíqua, o que tem o condão de me levar à esquina da taberna frente à qual ele parava.
Abro e acto contínuo fecho a porta traseira. Quando pus o pé no estribo ainda "consegui" dizer "Adeus pessoal" às pessoas que então vieram à porta. Quando o autocarro arrancou, vi que o meu irmão Fernando chorava.
A guerra entrou pelo corpo dentro de toda a gente: dos que foram e dos que ficaram. (palavras minhas).
Primeira etapa Sátão; segunda etapa Viseu; comboios diversos levar-me-iam até um ponto situado no meio de «nulle part» chamado Santa Margarida. Desta vez era a sério, não havia margem para dúvidas: brevemente receberíamos os camuflados e embarcaríamos rumo a Angola.
Chegou o dia «D» e a hora «H» fomos introduzidos nas entranhas do majestoso transatlântico que dava pelo nome de Vera Cruz. Depois de uma travessia de nove dias, pudemos de novo dizer: terra, terra, mas tínhamos mudado de continente: estávamos na África dos elefantes e das girafas.
Após o desembarque, esperava-nos um comboio que geralmente tem bancos, mas as fabulosas riquezas angolanas pelas quais nós estávamos prontos a dar a vida, não chegavam para pôr bancos no "nosso" comboio", e como gado, "embarcamos" em vagões que nos levariam até um loteamento de barracões de cimento situado no meio de um grande areal. Não vão pensar que era uma praia, tal como o comboio, também as "casernas" davam a impressão terem sido concebidas para acolher animais. À entrada de cada barracão havia de cada lado uma placa de cimento e em cima destas um fila de colchões asquerosos repletos de um pó amarelado que talvez dez anos antes tivesse sido palha.
Ficamos por lá alguns dias; vinham seguidamente grandes camiões equipados de altas cancelas (cuidado não fosse a mercadoria suicidar-se), e então como dizia o poeta, lá íamos nós, de Luanda para o Norte.
Quando chegávamos à Guerra, recebíamos como é natural uma espingarda e com ela uma centena de cartuchos que conservávamos em permanência quase sempre (a menos que houvesse um armeiro) dependurados ao fundo da cama. Quando íamos para o exterior, que por vezes se confundia com o interior, podíamos completar o nosso "arsenal" com duas granadas que devíamos solicitar na arrecadação.
Convém recordar que para as munições necessitávamos de cartucheiras, também para as granadas havia uma espécie de bolsas de lona, a que se chamava porta-granadas. Tudo corria na maior das normalidade até que um dia...(Pode ler o resto aqui).
Cansado de criticar o menu que nos era servido durante a guerra em Angola, decidi um dia desbloquear cinco escudos do meu magro orçamento, para comprar um ananás. Estando numa zona pacífica, entravam diariamente no quartel dois miúdos de cor que por vezes eram "utilizados" como moços de recados.
Chamei um deles, dei-lhe dez escudos para que fosse à cidade comprar-me o tal fruto açucarado. Sabendo de antemão que o ananás custava cinco escudos esperava logicamente receber outro tanto de troco, mas qual não é a minha surpresa quando o "nosso" pretinho estende uma mão com o ananás, outra com uma laranja servindo de troco.
Tive vontade de o acusar de ter gasto o troco em laranjas e de ter reservado uma para mim, mas pareceu-me tão sincero que me comoveu e disse-lhe come tu a laranja.
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| pobres cuanhamas pequeninos |
Naoatu?! - Disseram os miúdos quanto eu passava.
Hêêê! Respondi eu, e trouxe esta imagem.
Corria o ano de 1974; estávamos no mês de Maio. Depois de termos passado os últimos nove meses em Pereira d'Eça, eis-nos enfim em Luanda aguardando embarque para a Metrópole. De regresso a Portugal emigrei para França.
E chega. Algum leitor que seja mais curioso poderá aceder a muitos outros textos sobre o que se sente tantos anos depois aqui:
S. António Leitão: bem-haja por autorizar os seus textos e fotografias "n' O Forninhenses". Um abraço cá do fundo.