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sábado, 11 de abril de 2015

Do tamanqueiro ao sapateiro

Tamanqueiro foi uma das profissões manuais que houve também na aldeia de Forninhos. Os mais novos já não se lembram, mas numa altura em que os sapatos não eram para todos, havia pessoas em Forninhos que encoiravam calçado de pau: os tamancos e tamancas. Os tamancos eram um tipo de botas, feitos de couro ao natural e que depois eram encebados e nalguns casos pintados de preto; as tamancas ou socas eram um tipo de chinelas femininas, feitas também em couro natural, havendo-as também pintadas de preto. A base de ambos era feita de pau, normalmente de amieiro (matéria prima em abundância nas zonas ribeirinhas da nossa região) por ser um tipo de madeira leve e moldável e também por ser um material quente e seco principalmente para os meses de inverno, muito severo nesses tempos de antanho. Com brochas (pregos curtos com cabeça larga e achatada dos lados) pregados por baixo, para se não romper as solas, faziam um barulho muito característico quando se caminhava nas calçadas. Mais tarde, em vez de brochas, já se usava tiras de pneu para aligeirar o passo.
De Forninhos nomearam-me o o tio Aníbal (pai do tio Antoninho do Aníbal), tio António sapateiro (marido da tia Ilda), o tio Carlos Bragança, o tio Joaquim da Isabel, o tio Abílio Moca e o tio Funfas, um pedinte que Forninhos adoptou, que além de encoirarem as solas dos tamancos e tamancas, também reparavam alguns sapatos e botas que entretanto se tinham rompido.
Da mesma maneira que o fiz com os "pedreiros", "carpinteiros" e outros...quero neste 'post' prestar a minha homenagem aos "sapateiros" que protegeram os pés deste povo descalço, pois até à primeira metade do século XX era usual ver circular descalço, devido à ausência de meios económicos e também por hábito, já que muitos não conheciam outras solas que não as dos seus pés calejados. Esta realidade até é referenciada na "monografia de Forninhos":
"Os sapatos não se deitavam fora, arranjavam-se e duravam um vida. Aliás muitos dos testemunhos recolhidos em Forninhos apontam mesmo, para o uso de sapatos apenas em ocasiões especiais, sendo normal crianças e graúdos andarem de tamancos ou descalços nas suas atividades diárias." (pág. 173).
Mas no que respeita aos sapateiros de Forninhos, o que transcrevo a seguir já não é bem verdade:
"...o sapateiro trabalhava por encomendas. Vinha o cliente, escolhia e encomendava o modelo. Depois pegava-se nos moldes com o número correspondente e riscava-se a pele. Peça por peça, delimitava-se a matéria-prima que depois de cortada, era molhada e esfregada para se tornar mais dura.
De seguida, juntava-se as diversas partes com a máquina de costura ou à mão, ganhando assim forma. Colocava-se o contraforte, as palminhas e cortava-se a sola, faziam-se os saltos ou tacões. Montava-se tudo, colava-se, cosia-se e faziam-se os acabamentos.
Um mestre experiente fazia um par de sapatos por dia. Era um trabalho árduo, sem higiene, sem horário, que exigia muita habilidade e capacidade para manusear os diferentes materiais.".
Estará o historiador/investigador a referir-se a um mestre sapateiro da aldeia vizinha da Matela - tio Valentim - que trabalhava por encomenda e em dias específicos (domingos) se deslocava a Forninhos para entregar as encomendas?
É possível.

As imagens são meramente simbólicas, embora parecidas com as da época. 

terça-feira, 7 de abril de 2015

Jogo da Panelinha

Espero que tenham passado bem a Páscoa. Nesta aldeia como é de tradição, na 2.ª Feira de Páscoa (e no domingo de Pascoela) joga-se à panelinha. A tradição cumpriu-se e na tarde de ontem, depois do regresso da romaria de Santa Eufémia e terminada a Visita Pascal, percorrendo as ruas de Forninhos jogamos à panelinha. Para se perceber do que falo, vejam as fotografias que seguem:


Para este jogo é necessário panelas de barro.
Bem-hajam: tia Agostinha, Amélia e Joana 
pelas panelas cedidas para a brincadeira!


Depois...uns atrás dos outros, o primeiro da fila lança para trás por cima da cabeça a panela de barro que é apanhada pelo outro

que corre logo para a retaguarda para tomar a mesma posição

O segundo faz o mesmo 

e assim sucessivamente

Cuidado Xico...é que uma distracção ou uma maroteira

 é o suficiente para a panela ficar em cacos!


Já agora e não estranhem, mas não resisto a chamar a atenção dos leitores forninhenses para o descrito na pág. 114 da "monografia de Forninhos": "Jogo da panelinha. Neste jogo participam rapazes e raparigas e, por vezes, gente de mais idade. Era geralmente jogado na Quaresma." (sublinhado nosso). Donde veio mais esta?

Continuação de boa Páscoa, pois dizem que vai até à Pascoela, no próximo domingo. Bom resto de semana (e de ano) também.

sábado, 28 de março de 2015

Limpar a casa pela Páscoa

Não era só limpar - era uma limpeza geral. A Páscoa era a altura em que tudo em casa tinha de ficar a brilhar. O balcão (escadas) de madeira ou de pedra, o soalho da casa toda, bancos, cadeiras, a loiça, a roupa, as cortinas...nada escapava. Era uma lavagem geral e que durava quase toda a semana.
Com água e sabão amarelo e escova na mão esfregava-se com força o soalho de madeira todo e o balcão se fosse de madeira. Aquela mistura de água, sabão e madeira molhada, era um odor inesquecivelmente bom. 
Eram tarefas feitas exclusivamente por mulheres e que as deixava exaustas, mas ao mesmo tempo satisfeitas por poderem usufruir daquele cheirinho e limpeza únicos!
Aqui, lembro que certas mulheres usavam por baixo dos joelhos um objecto feito de madeira chamado "tacoila", para que não se molhassem os joelhos, quando se lavava o soalho de madeira da casa.

Tacoila

Apresentavam-se os trapos todos a limpeza geral também. Lá diz o rifão popular: na semana dos Ramos lava os teus panos que na da Paixão lavarás ou não. Era preciso lavar tudo, cortinas, rendas e linhos, pôr tudo ao sol a corar, as colchas de dias de procissão também eram retiradas das arcas/malas e arejadas nessa semana. 

colchas em dia de procissão

No que toca aos homens, havia sempre uma preocupação especial nesta altura do ano que era caiar as paredes da casa, principalmente as da sala do folar. No dia do folar o padre entrava em casa com a sua comitiva, benzia a casa e na sala do folar desejava as Boas Festas, Aleluia, Aleluia.
Essa divisão tinha de ser especialmente preparada, com todos os pormenores. A última coisa que passava pela cabeça de uma dona de casa de Forninhos era receber o padre sem ter tudo limpo e sem ter preparado o folar (oferta da casa ao pároco). Antes do meu tempo, ofertavam queijo, ovos, bolos de azeite, pão-leve, pão-trigo.
Eram tempos bem diferentes dos de hoje.
Na igreja matriz também: limpava-se chão, escadas, altares. Areavam-se castiçais, lanternas, o turíbulo, etc. para no sábado da Aleluia, tudo brilhar e se encher de flores e de vida, pois durante a quaresma tudo devia estar despido e pobre nos altares da igreja.

Para si e para a sua Família votos sinceros de que passem bem a Páscoa. 

domingo, 22 de março de 2015

Retalhos da vida de uma aldeia

Acho o modelo desta salgadeira - arca em madeira que se enche de sal - muito interessante! Com compartimentos; um, para salgar as carnes e conservar os untos; outro, para a panela de barro com azeite usado para conservar alguns enchidos depois de retirados do fumeiro.
Porque estamos na quaresma não resisto a repetir um post que fiz há tempos e que nestes dias faz sentido reviver a situação. 


Sabiam que durante muitos anos era prática nos quarenta dias de preparação para a Páscoa, algumas famílias forninhenses pregarem a arca salgadeira? 
Não se tocava na carne da salgadeira, desde o dia de Entrudo/Carnaval, aonde se não ia enquanto não amanhecesse a Ressurreição do Senhor.
Presentemente sacrifícios como esse já se não fazem, mas em Forninhos ainda se vai usando  a "arca frigorifica " dos nossos avós e eu acho muito saborosa a carne que nela é conservada.
O(s) unto(s), gordura amassada, enrolada e moldada em bolo, acreditam que até ver esta fotografia não sabia sequer o que era, nem qual a sua função!
Pelo que entendi servia para temperar as sopas, principalmente o caldo verde. Também servia como creme ou pomada, usado para "desembaçar". Sei que a minha bisavó Emilia que "desembaçava" crianças doentes o fazia, rezando uma oração e aquecendo nas brasas um pouco de unto esfregava-o sobre a barriga do doente.
O sal era para todo o ano, com ele temperavam os alimentos e também as viandas dos animais. 
Trago hoje duas ou três situações de outros tempos, porque somos nós que hoje temos a incumbência de contar como foi a vida dos nossos avós, amanhã serão os nossos descendentes ou os descendentes deles, mas até lá que haja saúde e coza o forno, na Páscoa, os tradicionais bolos de azeite, os "folares" da nossa terra.


Estes nossos bolos, ao contrário de outras terras portuguesas, não são doces, são para ser comidos com queijo da serra, presunto e chouriça.

sexta-feira, 20 de março de 2015

As andorinhas

Uma andorinha não faz a primavera e por morrer uma andorinha não acaba a primavera, são dois provérbios que nos fazem relacionar andorinha com primavera. Elas estão quase a chegar, pois começa hoje, 20 de Março, às 22h45 a primavera.
A chegada das andorinhas é sempre bem recebida pelas pessoas, pois isso significa que o tempo está a ficar mais ameno. No campo, sempre foram aves cuja protecção as pessoas se encarregavam de assegurar, ninguém as caçava nos custilos, ninguém estragava os seus ninhos. Dizia-se que as andorinhas eram sagradas, sabe-se lá porquê.
Nas áreas mais urbanas, fazem os ninhos nas partes de baixo dos beirais dos telhados e são feitos à base de lama que depois de seca confere uma consistência que lhe permitem segurarem-se. Os ninhos são totalmente tapados, apenas possuindo uma entrada do tamanho da ave.
Nas áreas rurais, as andorinhas fazem os ninhos à base de palhas/pauzinhos e lama, muitas vezes nas paredes, numa qualquer reentrância entre pedras.
Achamos este ninho de andorinha na parede duma casa, não habitada, de Forninhos:


A sua alimentação é quase exclusivamente efectuada à base de insectos que apanham em pleno voo. Quando se estão a alimentar voam com o bico aberto fazendo com que os insectos entrem naturalmente com o movimento. Também para beberem água o fazem, muitas vezes, com o bico aberto, fazendo voos rasantes às superfícies dos rios.
Diz-se que as andorinhas "advinham" quando vai chover, i.é., diz-se que quando as andorinhas voam baixo, ou seja, perto do chão, vai chover. Mas não é por as andorinhas possuírem qualquer característica meteorológica, o que se passa na verdade é que quando o ar fica mais húmido os insectos concentram-se junto ao solo e às andorinhas só lhes resta voar junto ao chão para, assim, facilmente apanharem os insectos.
Claro que as pessoas vêem mais facilmente as andorinhas do que os insectos, daí dizerem que estas "adivinham" a chuva, mas afinal "os meteorologistas" são os insectos!
Bem vistas as coisas, ajudam a proteger as colheitas dos insectos, pois cada andorinha come milhares de insectos por dia.
O seu canto, se de canto se pode falar, não é musicalmente rico, nem melodioso. 
Ouça o seu chilrear:

quinta-feira, 19 de março de 2015

19 de Março, dia do pai

O dia do pai, aliado à celebração da festa litúrgica de S. José, comemora-se hoje, dia 19 de Março.


Ausente, mas tão presente...

Partia cedo, noite escura
Que a noite também dormia, 
Mais um pouco.
Tal como nós, pequeninos
Como algo que procura
P' ra cima puxava a manta
Com brio,
Não fosse a pequenada ter frio
E olhava com enlevo
E sorria
Sussurrando aos seus anjinhos
Dormi bem, não tenhais medo.
Mas quase noite, quando voltava
Pelo trabalho quebrado
Dava tudo o que podia 
Naquele regaço suado.
Num colo cheio de amor
Que depois dele partir
La para "cima", distante,
Continuamos a sentir
O tanto que ele nos ama,
Uma estrela cintilante.

(Inédito Xicoalmeida)

Dedico este meu poema, a todos os pais, com consideração e estima.