Neste clima de confinamento, em que o nosso cérebro anseia por um depois, a fim de poder saborear de novo o gosto pela liberdade, revi-me profundamente num texto do Mestre Aquilino de Ribeiro.
"E eis que, divagando, pareceu-me ver cintilar em frente de mim.
O que quer que era tremeluzia e apagava-se, temeluzia-se e apagava-se como um fiapo de penugem branca boiando ao sopro do vento.
Sim, de quando em quando, sempre que depois de fechar os olhos os abria para varrer da retina a visão obsessa, reaparecia o ludibriante alvor.
E não me dominei: pus o Gasco no chão e fui direito, rastejando, ao sinal prodigioso.
Graças, minha boa Senhora da Lapa, era um fio de luz, delgado como retrós, que se filtrava entre a linha da abóboda e o cume do entulho!
Como podia ser não a haver eu encontrado antes?!
Sem me domorar grandes segundos a reflectir no enigma, para cuja decifração muito devia ter contribuído o Sol, alumiando daquele lado no seu discurso para o meio-dia, tratámos de nos safar dali.
Havia encontrado o meu símbolo.
Aquele luzinha, assim flébil e celestial, ficou-me com efeito de emblema na vida.
Nas horas de maior negrume, quando era para desesperar de todo, surgia-me imprevistamente no báratro dos meus cuidados.
Pequenina, bruxuleante, vinda de longe, crescia, e iluminava-me o caminho.
Filha da própria ralé, providência de infelizes e aflitos,nunca por nunca deixou de raiar.
Creio que ela existe igualmente para todos os humanos, e não deve ser outro o fanal que os guiou através das convulsões físicas e sociais do mundo.
A questão para o indivídio é ter olhos que a descubram".
- AQUILINO RIBEIRO, Uma Luz ao Longe, romance de 1948.

















