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sábado, 14 de março de 2015

Restaurar ou modificar?

Vários autores defendem que a capela foi erigida em louvor a Nossa Senhora dos Verdes - padroeira dos renovos agrícolas - com o objectivo de agradecer o milagre acontecido na Era de 1720, quando uma praga de gafanhotos se abateu sobre os campos da região, desaparecendo, somente, graças à intervenção de Nossa Senhora. Acho que estão enganados, pois tudo aponta para uma construção anterior ao século XVIII; sabe-se e há fotos que está gravada na parede da nave, lado direito, a Era de 1696 (com o reboco das paredes e pintura de cor branco, em 2009, foi tapada), sendo assim é hoje quase certo que a ermida já existia aquando do voto, ou seja, antes de 1720. Segundo a lenda a capela foi construída devido ao aparecimento de uma imagem de Nossa Senhora numa fonte ou nascente situada junto ao local.
Ao longo dos anos, várias obras foram mudando o exterior da capela, quem prestar atenção descobre as diferenças entre as três imagens que se publicam:

Antes, caiada
Depois, com a pedra à vista
Hoje, rebocada  e pintada
Capela N.S. Verdes: Era 1696

Havia ainda outra incrição na parede da nave, dtº, 1785; e na sacristia: 1809. Pena as terem coberto :((

quarta-feira, 11 de março de 2015

Memórias chamuscadas

Ali estavam os três com mais de oitenta anos, sentados na ladeira do ribeiro.
Tagarelavam coisas deles, claro, mas deviam ser genuínas.
Tão íntimas que nem conta deram que estava ao lado e mal pareceria não dar as boas vindas. 


- Santas tardes para vossemecês, disse eu.
 Nem tempo deu para escutar o murmurar do ribeiro...
- Olha, dirigindo os olhos para as duas, andas por cá... - quando vais embora.
- Visita de médico, digo eu, sabe como são as coisas.
- Estás com pressa, pergunta.
- Nada que não se componha, acrescento.
- Ainda bem, sabes. (queres comer ou beber alguma coisa, estás à vontade), estava aqui a falar com elas e a olhar para a Estrecada, tinha mais pinheiros e muitos lobos.
A vida que a gente viveu, ai meu Deus...os medos!
- Tens tempo para escutar, pergunta.
- Claro, por quem e...
- Sabes que por vezes as pessoas não acreditam, mas ouve lá...
Nós por aqui, tínhamos os nossos porcos de criação e da ceva para matar no inverno, senão morria-mos à fome. Estavam nos cortelhos, percebes, nas lojas por debaixo, mas...conta tu agora (olhando para uma das senhoras).
- Lembras claro dos cortelhos (para mim), havia umas pias ou gamelas metidas na parede, metade dentro, metade para fora e nesta se deitava a vianda para os animais, três vezes ao dia.
Dei por mim a pensar, porcos, mas bem tratados. Estava rendido com a narrativa, apesar de ainda recordar algumas coisas, mas o modo genuíno como falava, parecia uma pintura fabulosa.
- Quando chegava a altura do Natal, já eles (os porcos), tinham sido fidalgos um ou dois meses antes da matação, comendo do melhor, restos das batatas, milho , centeio, etc. Tinham era de medrar...
Aqui entra o senhor que ia anuindo com a cabeça a cada frase. A vida era parecida em tudo.
Para eles que quase me pareciam dizer que jamais se pode esquecer os trabalhos tidos por necessidade, mas ao mesmo tempo a honra deles.
A conversa ia alongada, mas aproveitando o recolher das galinhas pelas senhoras, insistiu num copo de vinho, do dele, teimava em dizer que era do melhor. E era, de tal modo que veio mais outro.
A casa aonde nasci, fica ao lado e talvez por isso seja mais fácil a comunhão emocional.
- Enquanto elas não chegam vou te falar dos lobos. Tu ainda os viste, pois vieram comer um cãozito nas vésperas da páscoa, que te tinham dado, lembras pois choraste tanto...
- Se lembro, para toda a vida, balbuciei quase menino...
- Olha, vou te ser franco, eles andavam na vida deles e também tinham filhos para criar.
Também me arrepiei um dia quando o nosso vizinho ia acomodar de noite as ovelhas e se saltaram ao caminho, ali, estas a ver, sim, entre aqueles pinheiros e os olhos reluziam, os teus pais também viram.
- Até contam que a tia Maria gritava, salvem o meu D...
Não contes a ninguém, mas não era apenas pela fome e vou te contar um segredo, vinham pelo cheiro do chamusco...
Mas eis que no entretanto as mulheres chegam (e eu devia estar de abalada...), com o avental cheio de ovos, sendo que uma galinha pedrês havia desaparecido por andar no choco.
Zangadas, como se a gente tivesse culpa, uma coisa assim...
- Falaram de que, perguntam.
- Lobos e porcos, respondo assumindo a responsabilidade.
O senhor não gostou e irado (chateado) disse que disso percebia ele.
Até bati palmas, que me iam custando os olhos da cara, mas e por tal  aqui vim escrever o sentir genuíno e verídico do pouco que nos vai restando.
Este Grande Senhor disse:
Olha Francisco, sei que escreves e eu não sei ler, mas eles, os lobos, tinham o passadiço deles, caminhos que poucos conheciam, vinham das lageiras, corriam os lameiros direitos ao carvalho da cruz, lombo velho e carriça . Eram lixados os gajos, deixa que te diga e quando cheirava a chamusco, valha-te Deus, as mulheres ficavam ainda piores que os homens e tinham razão.
Pergunta aqui à vizinha que ia morrendo para criar os porcos.
A porca parida, ficou meia maluca no parto, arreganhou os dentes e quase a comia, nao fora o homem dela ter aparecido, mas lá se criou e no dia da matação, parece bruxedo, desceram da serra e vieram cheirar...
O cheiro apelativo para eles era a palha queimada para chamuscar os porcos...e a fome.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Mentiras e mais mentiras...

Em Forninhos não há cesteiros. Na verdade, a arte popular da cestaria nunca se desenvolveu nesta terra, mas isso não constituiu qualquer problema para que os autores da "monografia" da freguesia de Forninhos escrevessem o contrário, incluindo "o cesteiro" na arte dos ofícios da terra. Se calhar para eles - ou para quem os informou - quem sabia fazer um cesto, era cesteiro! Mas se assim fosse podia existir cestaria em qualquer povoação rural desta ou outra zona!

canastros, cestos usados nos trabalhos agrícolas

Segundo o que foi avançado por esses autores, em Forninhos "As necessidades do quotidiano agrícola aguçavam o engenho e surgiam então as cestas de mão, arredondadas, com uma asa larga para facilitar o transporte de objectos e produtos pesados. Donde veio esta? Confesso que não sei. "Serviam um pouco para tudo, desde a sementeira, à apanha da fruta ou ovos ou o transporte do farnel para o campo. Os cestos maiores eram usados nos trabalhos agrícolas na apanha da uva ou do milho."
Tenho lido bastante sobre a arte popular da cestaria e sobre esta cesta, a tal com uma asa larga, descobri que se chama cesta de corra. É feita com corras de carvalho.

cesta de corra, com asa larga

"Construída com amor e muito engenho, a arte da cestaria começou a desaparecer com a generalização do plástico em meados da década de 60."
Mais:
Em Forninhos, "O cesteiro percorria os campos à procura da sua matéria-prima. Colhi-a e tratava-a, secando-a. Quando estava em condições para ser moldada, o artífice estruturava primeiro o esqueleto da peça, forrando-o de seguida com as fibras de madeira ou juncos".
"Só com uma faca, as mãos e dos dentes, o cesteiro entrelaçava a matéria-prima numa sequência repetitiva dando vida e forma à peça.".
Olhem que a cestaria foi de tal modo importante em Forninhos que ainda hoje "...já não há quem faça estes cestos, mas a lembrança perdura e ainda podemos encontrar pedaços de velhas memórias de outrora."!!!
De Forninhos tenho lembrança de ver uma senhora - D. Mimi -  fazer um cesto de vime, mas disso nunca fez negócio! Negócio faziam os artesãos que se deslocavam à nossa aldeia vender cestos, que os faziam na hora, bem como revestiam os garrafões com vime.


garrafão de vidro empalhado
Historiador e arqueólogos inventaram e conceberam cestos adequados às necessidades dos nossos agricultores e baseados na ideia de que "As necessidades do quotidiano agrícola aguçavam o engenho" existiram cesteiros em Forninhos! 



Nem sei como no brasão de Forninhos não está representada a cestaria. O brasão podia fazer uma referência ao junco, ao vime, à cesta de asa larga, sei lá...!

quarta-feira, 4 de março de 2015

Pastores em Festa

Um dia muito bem passado em autêntico ambiente serrano, este primeiro domingo de Março. Trouxe de volta além de memórias antigas da feira do Mosteiro, o honroso nome do pastor e do seu gado. Foram alguns milhares que acorreram ao evento, coisa que se não via há muitos anos, por estas bandas. Tendeiros com coisas antigas e modernas, a tradicional doçaria, uma verdadeira multidão,


 e um imponente carneiro:


Vaidosas e aperaltadas as ovelhas:



Era o dia das mais belas


Por mim, todas tinham ganho


Aqui comprei o verdadeiro doce Teixeira:


Coisas do antigamente que aqui se encontram. Raras...


Capela de S. Sebastião no lugar da feira


Por cá adoramos uma boa arruada de bombos


Tal como os autarcas parecem partilhar:


Carradas de queijo da serra para o povo:


E deste tacho de feijoada no Zé Pequeno, me regalei:


O homem dos sete instrumentos que toca pelo nariz


Além de realejo e castanholas


E alguma mocidade


Com o rancho folclórico, como manda a tradição:


Até pró ano!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

2.ª Festa do pastor e do queijo no Mosteiro


Faltam poucos dias, é já no próximo domingo!


Não haverá televisões, nem música pimba que arrebanham multidões, nem telemóveis frenéticos a ligar para os concursos, apenas as gentes dos arredores, genuínas e que ainda gostam de sentir o cheiro das "suas" ovelhas, recordando tempos em que os seus antepassados e ainda alguns deles para aqui chegavam com os rebanhos, uns a vender, outros a comprar. 
Serão elas as rainhas no lugar da tão antiga Feira Nova,  em que mostrarão mais uma vez a sua genuína raça. 


Tudo sob o olhar atento e vigilante dos pastor e do seu cão.
Contam também com a protecção divina para que tudo corra a preceito, como sempre foi apanágio destas gentes rudes apenas nas mãos calejadas, mas de uma alma forte como o granito em que foram talhados.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Erva-Relógio

O nome científico é: Erodium Moschatum

A erva-relógio é o nome popular dado em Portugal para esta plantinha de cor verde, mas que com o tempo vai tornar-se em castanho escuro. As crianças de Forninhos usavam-na como relógio, separando as várias pontas, fáceis de despegar, que rodavam lentamente como um ponteiro de relógio. 
Quem nunca brincou com a erva-relógio?
Da família das Geraciáneas, esta planta anual (por vezes bianual) cresce à beira dos caminhos e terrenos incultos, mas também nos terrenos cultivados e floresce entre o mês de Fevereiro e Abril.
Há umas horas atrás enquanto caminhava vi esta planta à beira de um caminho e florida, para mim, foi um espanto! As fotos que tirei não ficaram boas porque o tempo aqui está cinzento e chuvoso, pelo que agradeço a imagem que me apraz partilhar ao seu autor.