Este espaço nasceu para dar a conhecer a História, estórias e memórias duma aldeia chamada Forninhos (antigamente Fornos). Vem-lhe o nome certamente por lá ter havido fornos/fábrica de cozedura...assim rezam os livros de História, Lendas e Tradições de outros lugares.
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sexta-feira, 19 de abril de 2013
domingo, 14 de abril de 2013
O Linho
O linho dava muito trabalho, desde a semente até às toalhas
e panos branquinhos. Tudo começava pela sementeira, que acontecia
entre Março e Abril e três meses depois estava pronto para arrancar e começar
uma série de operações até obter o tecido do linho, que muitos leitores se calhar
nunca o viram a não ser já costurado…mas quem quiser pode ver o aspecto da semente e planta AQUI.
O linho era semeado em terrenos húmidos e com bastante água, pois o linho exige muita rega, muita água. Depois de arrancado (com raíz e tudo) era ripado no ripanço,
levado em molhos para a água do ribeiro do “Linha'do ribeiro” e poças das Androas, etc, para curtir, enterrado na água, e depois cerca de duas semanas iam estender os molhos nos lenteiros; enriquecida a fibra era levado para casa e aí começava outra série de tarefas até à fiação e à feitura das peças de uso doméstico, como camisas e lençóis e também religioso, como toalhas dos altares.
Era
preciso bater muito o linho e durante muito tempo, com um maço; esfrega-lo
sobre uma pedra para tirar-lhe a casca rija e fazer as “amuças”. Depois o linho
era tascado no cortiço com um instrumento chamado espatela ou espadela.
No cedeiro era separado o linho mais fino do mais grosseiro – a estopa. O linho
em “fêvera” fica na mão da tascadeira e a estopa cai no chão e depois destas
operações ficam as “estrias” ou “estrigas” como se dizia em Forninhos, que era a quantidade de
linho ainda em “rolo”, que depois passam à fiação, na roca, com o fuso.
E para que servia a estopa? Para fazer sacos que eram vendidos na Santa Eufêmia da Matança.
Da fiação ao tear vai ainda muito trabalho
O linho era então fiado com roca adequada. As mulheres
punham-no na roca para depois o puxarem com os dedos, molhando-o, lambendo os
dedos e dele fazerem fios, enrolando-os no fuso. Desta operação resultam as
maçarocas que são postas no sarilho para dar as “meadas”.
Barreladas em água a ferver com cinza numa panela de ferro, até o linho amolecer, passam depois à dobadoira para fazer os novelos que vão ao tear, donde sai o pano, que depois de corado alguns dias ao sol (tinham de ser regados permanentemente) serve para fazer utilidades para a casa e roupa de cama e outra.
Os teares são também peças-chave
do processo e eram indispensáveis a quem, tendo linho, queria então fazer
lençóis, toalhas, panos para tapar as cestas e tabuleiros, camisas. Quem tinha
linho e queria fazer peças procuravam as tecedeiras – tecelãs – de fora, mas parece
que há muitos anos atrás houve teares na nossa aldeia, uma oficina onde se
tecia o linho, nos fundos da casa que foi do tio Armando Castanheira, quem o
fazia era uma senhora chamada Leonor, irmã da tia Ana Castanheira.
Nos teares também se faziam as mantas e passadeiras de trapos, encomendadas aos farrapeiros de fora.
A vida era muito variada numa aldeia muito habitada, como o foi Forninhos. Hoje nada disto existe. Mas como o frio e chuva estão a ir embora e regressa a vida aos campos, preparei uma III peça sobre o cultivo e tratamento do linho, que até há 50/60 anos muita gente o cultivou. Era uma tarefa muito trabalhosa, durante 4/6 meses em cada ano, é certo, mas muito, muito interessante.
Nota:
Arquivemos ainda a nomenclatura das medidas do linho: 2 "amuças" eram uma estria. 12 estrias e uma amuça - era um afresal; 25 estrias - eram um adeito.
Arquivemos ainda a nomenclatura das medidas do linho: 2 "amuças" eram uma estria. 12 estrias e uma amuça - era um afresal; 25 estrias - eram um adeito.
terça-feira, 9 de abril de 2013
A sementeira das batatas
Com a chegada da Primavera, chega a época das sementeiras. A agricultura é uma das formas de subsistência das aldeias e uma das práticas agrícolas é plantar as batatas, dado ser um tubérculo, mas na gíria popular sempre se disse semear as batatas.
Nos terrenos maiores, antigamente a terra era lavrada com arado, puxado pelas vacas, agora mandam os tractores. Nas courelas pequenas, era a força dos braços que rasgava a terra, até ficar mole e solta, para deixar mais facilmente entrar a água. Este modo de cavar a terra sempre me atraiu, por ser mais ancestral e quase primitivo.
Nos terrenos maiores, antigamente a terra era lavrada com arado, puxado pelas vacas, agora mandam os tractores. Nas courelas pequenas, era a força dos braços que rasgava a terra, até ficar mole e solta, para deixar mais facilmente entrar a água. Este modo de cavar a terra sempre me atraiu, por ser mais ancestral e quase primitivo.
Primeiro levava-se o estrume proveniente da cama dos animais, em vez do actual adubo e espalhava-se pela terra. Depois é o som cavo das enxadas, com os homens em desafio, pingados de suor, a abrir as entranhas da terra.
No dia anterior as mulheres cortam as batatas de semente, já bem greladas e muitas vezes pagas a peso de ouro. Eram as de montalegre, a rambana e a rancónsul as qualidades mais usadas e mais produtivas e um saco destas semeado, dava depois quase o suficiente para abastecer uma casa todo o ano.
Conforme se iam cortando, deitavam-se em canastros de verga e cestos de vime e eram levadas para a courela. Eram então abertos os regos e os pedaços de batata colocados com cuidado pela mão das mulheres e crianças, em carreirinha, depois eram tapadas pela terra do rego seguinte e assim sucessivamente.
Terminado, faltava enfeitar a sementeira.
Era então ladeada com a plantação de pequenas couves e alfaces intercaladas e regadas de seguida para agarrarem à terra. Parecia um jardim, mas quando crescessem, que belo caldo verde e saladinha!
Este ano o tempo pregou a partida, chuva, frio e os terrenos impróprios para as sementeiras, estão alagados e ensopados e até apetece citar os provérbios populares do tempo:
"Em Abril queima a velha o carro e o carril e dá a filha por pão a quem lha pedir".
"Em Abril queima a velha o carro e o carril e deixa um tição para Maio para comer as cerejas ao borralho".
"Uma velha em Abril queimou o carro e o carril, uma camba que lhe sobrou para Maio a guardou e um bocado que lhe sobrou como um punho ainda o guardou para Junho.".
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Coisas de outros tempos!
Esta é uma escritura do arquivo pessoal de João Ferreira Albuquerque, feita em papel selado. Tem a data de quatorze de Maio de mil oito centos e noventa e nove, 1899, e diz que é vendida a José Ferreira e sua Justina de Mello do lugar e freguesia de Forninhos, concelho de Aguiar da Beira, uma velga de terra que produz milho e feijão no sítio dos Carregais com seis dias d'aguas de regar e limar cada 4 dias da semana são 2 que pertencem à dita velga. Havendo juntamente um quarto de uma laija que pertence à mesma propriedade; foi pelo preço e quantia certa de 13,500 reis dinheiro corrente neste Reino.
A figura mostra o carimbo com o escudo da Monarquia, o qual é rodeado pelas seguintes palavras "IMPOSTO DO SELLO ***100 RÉIS***".
Mantive a ortografia tal qual está!
Tudo mudou de então para cá. Dantes, na agricultura, as regas eram partidas, ou seja, havia dias e meios-dias a que tinham direito à água daquela poça d'abrir ou poço e esse direito era lavrado em escritura. Agora já não é assim e os antigos foram-se, mas ainda há em Forninhos pessoas (poucas) que conhecem o registo das várias águas das nascentes e que, na minha opinião, devíamos ouvir o quanto antes, de modo a que estes "sinais" fiquem gravados, porque quantos mais anos vão passando, mais pormenores se perdem.
Quem souber como era e conhecer estórias d'outros tempos relacionados com as partilhas das águas, deixe-nos aqui em comentário esse contributo. Agradecemos todos.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
terça-feira, 2 de abril de 2013
O bolo de azeite na tradição da Páscoa de Forninhos
Quem conhece as tradições da nossa terra sabe que a Páscoa não é Páscoa sem o bolo de azeite, por tal volto a falar desta preciosidade gastronómica e das mãos que calorosamente os fazem bem feitos. É um tema do meu especial agrado até porque quando penso e falo ou escrevo sobre alguma coisa típica da minha terra e que tende a acabar (infelizmente) é a feitura e qualidade dos bolos de azeite. A receita não tem segredo,
leva fermento e farinha do padeiro, ovos, sal, azeite e aguardente
e trabalho
quando a massa forma bolhas e as mãos saem limpas
estão bem amassados e ficam então a fintar cerca de 2h
De seguida, são tendidos
tudo feito com o carinho e mãos experientes
em forma de bola ficam a "descansar" uns minutos+ no tabuleiro
Também o forno é aquecido, por quem sabe,
pois não há termómetro para medir a temperatura
é tudo feito com conhecimentos adquiridos ao longo dos tempos.
Com uma Primavera muito molhada nesta época de Páscoa, ainda assim os caminhos são embelezados pelas "campaínhas" (narcisos) que resistem em mostrar a sua beleza.
A todos os leitores continuação de boa Páscoa, que se estende até à Pascoela!
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