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segunda-feira, 10 de julho de 2017

O Sr. Padre Albano


Certamente todos os párocos tiveram influência na vida religiosa da nossa paróquia - Santa Marinha de Forninhos, mas o Senhor Padre Albano Martins de Sousa, natural da Ranhadinhos, S. Pedro do Sul, pela sua inteligência ou santidade, terá deixado mais vincada a sua passagem pela nossa terra. 
A título de curiosidade foi quem, com o auxílio do povo, nos anos 40 do séc. 20, mandou construir um novo cemitério, dando assim cumprimento à lei que exigia acabar com os enterramentos no adro da igreja, mas sem o povo saber (segundo consta) mandou aumentá-lo. Assim que se soube, toda a gente ficou "contra" o Sr. Padre e à despedida viu bem que não o desculparam por ter tomado a decisão sem ouvir o povo.
Também foi ele que em homenagem aos povos da freguesia de Sezures e Esmolfe, pela sua presença no dia do Espírito Santo, na Senhora dos Verdes, mandou construir o cruzeiro de Nossa Senhora de Fátima e o dos Centenários com a imagem de Nossa Senhora da Conceição, Padroeira de Portugal.
Podemos dizer que foi este sacerdote o que até ao seu tempo mais obras fez.
Tentou, no seu tempo, unir a Quinta da Ponte a Forninhos, uma vez que os seus habitantes estiverem sempre mais ligados a Forninhos (onde iam todos os domingos à missa) do que a Sezures, ficou tudo em "águas de bacalhau", mas que era um visionário, era!
Mas também teve, mais dissabores, já que no seu tempo não permitiu durante anos bailes em qualquer dia ou lugar da freguesia, ainda assim todos aqueles que com ele privaram, afirmam que o Padre Albano era um bom e santo padre, um exemplo de bondade e dedicação ao próximo.
Muito mais haveria a dizer sobre o Pe. Albano Martins de Sousa, mas por agora fica o essencial - o resto da descoberta ficará a cargo dos forninhenses.
Bem-haja Senhor Padre Albano!
Forninhos devia-lhe esta homenagem.

domingo, 2 de julho de 2017

Educar à antiga

Dantes no seio da família havia poucos afagos à vista, passar as mãos pela cara das pessoas queridas para acariciar ficava mal...havia amor, mas era um amor seco. O afecto era reflectido no facto dos pais garantirem aos seus filhos, condições de vida melhores ao já herdado dos seus pais (e para isso quantos suores e privações!), estudos...e respeito.
Vale a pena citar Aquilino Ribeiro:

minha família paterna

Eu sou de família em que as donas se assentavam em esteiras. 

Muito amor e poucos afagos. 
Nunca conheci as blandícias e a variadíssima bichinha-gata da ternura civilizada. 
Na aldeia, para acariciar, não passeiam as mãos pela cara das pessoas queridas. 
Semelhante ordem de meiguices são prerrogativas da gente urbanizada.
Para o camponês o rosto é sagrado; tabu; não se lhe toca.
Sempre assim foi, de resto, através das idades...

AQUILINO RIBEIRO (1948)
Cinco Reis de Gente, um livro sobre a memória dos primeiros anos de vida do autor até ao seminário, quando em pequeno, lhe prometeram o lugar como sacristão nas igrejas de Lisboa "...que, por modos eram cargos muito rendosos, pacíficos de todos...sem a mais pequena quebradeira de cabeça...".
Como sabem, o caminho para o seminário foi para muitos pequenos o fim da meninice, o fim da liberdade nas tardes dos dias grandes passadas pelos caminhos à lei da natureza. 
Os padres e a família achavam que podiam traçar um caminho diferente com a ida para o seminário. Se fizermos uma sondagem, quase todos, senão todos, os que foram para o seminário, recordarão que seguiam esse caminho por influência de um padre amigo da família. O meu pai, por exemplo, foi seminarista nesses moldes.

terça-feira, 27 de junho de 2017

As migas de alho

De seitouras em punho, bem firmes,  aos poucos e compassados, o rancho abria caminho pela seara imensa. Havia que aproveitar o fresco da madrugada... 



Iam ao raiar do sol, digamos que de madrugada pois a partir das dez, ninguém aguentaria, nem o gado, a não ser eles nas ceifas habituados; o estômago vinha tratado a preceito com o melhor que a casa tinha ao dispôr, desde a adega, e arca salgadeira, acompanhado pelo pão de ceveira (metade milho, metade centeio, mas ruim de estender...).
E a coisa lá ia indo com o calor a apertar mesmo tão cedo sendo, mas aquelas gargantas soltavam cantigas tão belas em desgarrada, que nem o suor apagava as notas.
Logo iriam aparecer os canastros recheados para a "piqueta", carregados na rodilha sobre a cabeça pela serra acima com o melhor queijo e presunto, sardinha frita, sei lá, tanta coisa acompanhada por sêmeas da tia Esperança (era o pão feito do farelo fininho do trigo que por norma era o da terceira peneira) e depois tudo girava com afoito, pois estas gentes vinham por amizade retribuir os favores de uns e outros.
O momento mais aguardado, além do descanso, era o almoço como se dizia e aqui entram as migas de alho obrigatórias!
Há quem diga que as migas são a parente pobre da açorda, depende da sua riqueza!
O preparo, é basicamente idêntico, partindo da base que é o refogado, a cebola, alho e azeite, mas onde reside o segredo?
No genuíno pão de centeio caseiro...o mesmo que para tal anda este rancho na ceifa.
Partiam o pão centeio duro para um alguidar e ficava com água a amolecer.
Ia o bacalhau a cozer, água da cozedura guardada e este depois desfiado, ia parar ao tacho no refogado com muito alho e o pão pouco aguado e salpicado com salsa.
Quem queria/podia, deitava por cima ovos batidos e deixava ferver um bocadinho, quando não, só a gema, sempre a mexer e deixar pategar (ferver) um bocadinho.
Na falta do bacalhau para quem tal não podia, misturavam o feijão verde cozido da horta e tudo sabia bem...
Tudo servia para o almoço e mais tarde e por costume, para a merenda eram acrescentados os chicharros chícharos cozidos.
Belos tempos estes...

domingo, 18 de junho de 2017

Predicados

Na vida social de uma aldeia como Forninhos havia há 50 anos palavras e expressões com um significado que ainda hoje têm o mesmo valor. Exemplo, as palavras "doutor" e "professor". 
Mesmo que não tivessem concluído uma qualquer licenciatura os "doutores e professores" eram boas pessoas, boa gente e isso valia-lhes o respeito da população. Já diz o povo "mais vale cair em graça do que ser engraçada". 
Sei que me entendem.
O exemplo do contrário, era judeu ou guinário. De cada vez que se queria dizer que fulano e sicrano era mau, bastava dizer:
- Aquilo é um Judeu!
E estava tudo dito. Pessoa que assim fosse rotulada estava marcada.
Mas para dizer que uma pessoa era mesmo muito má para a mulher e filhos, em geral as grandes vítimas, dizia-se:
- Aquilo é um Rei Herodes!
Se queriam ofender:
- Guinário.
Virá certamente de "sanguinário" e era uma palavra muito usada na minha meninice em Forninhos para designar pessoa que tinha mau íntimo. 


Rei Herodes - Rei da Judeia

Outras palavras muito usadas eram candaugua e corrécio.
A palavra candaugua é formada pelos sons do que devia ser "cão de água" e significa(va) vadio, um corrécio, que gosta muito de vadiar e pouco de trabalhar.
Quando um rapaz vinha tarde para casa ouvia logo essa do candaugua.
- Ah, candaugua, isto é que são horas?
- Seu corrécio!
Mas o que é que este cão algarvio, que segundo se lê na wikipédia até foi muito trabalhador tem a ver com vadiagem?
Não sei. Não encontro a lógica.
Outra:
- Aquilo é que é um valdevino!
Quer dizer também que a pessoa é um vadio, um estroina, que frequentava tabernas...
A palavra monarca também se ouvia como ofensa. Era alguém rude e armado que gostava de mandar, dominar. No feminino significava mulher muito gorda.
Depois vieram os vocábulos introduzidos pela mistura emigrante.
Quem não se lembra daquela célebre mãe a gritar "Michel, tu vas tomber" (Miguel, vais cair) e como o filho caiu: "Ai o filho da p*** que caiu mesmo".
O calão emigrante ouvia-se (e ainda se ouve) nas casas dos primeiros emigrantes regressados. 
Logo chegados de férias, falavam sem cessar das folhas de peia (feuille de paie), que significava o recibo relativo ao salário; dos papiês (papiers), os documentos de legalização como emigrantes; das pubelas (poubelles), os caixotes do lixo. Além dos vocábulos, demos connosco também a saber de cor os departamentos através das matrículas dos carros. O 75 era Paris, 92 ou 94 era dos arredores, 68 Colmar....
Apesar de serem cá apelidados depreciativamente de "avecs", é preciso não esquecer que naquela triste e apagada época dos "senhores doutores" em que, se tanto havia um ou dois em cada aldeia, a emigração trouxe dinheiro e conforto e construiu-se com a vinda dos avecs um linguajar diferente e mais colorido.
Longe vão os tempos em que se inventaram palavras como "guinários".

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Estamos de férias

Nesta altura do ano, fim de Primavera às portas do Verão, ao passar pelos caminhos rurais vê-se com abundância silvas floridas, uma espécie invasora que tantas dores de cabeça dá aos lavradores, mas que têm flores muito belas, donde sairão as amoras silvestres.


Logo à frente vimos um ramalhete de São João (erva-do-caril)


E surpresa...nos pequenos pomares domésticos, 


começam já a surgir amoras de cor vermelha.


Tocados pelo sol, ainda vimos pêssegos do S.João


+ maçãs do S.Tiago que até já apetece trincar...


E depois há a promessa das castanhas, 
pois não tardam a aparecer os pequenos ouriços. 

-/-
Repartimos as férias pelo campo e pela praia, primeiro fomos uma semana para Forninhos. Um dia em casa...e nova viagem.
De amanhã a oito estaremos de volta, desculpem a ausência.