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quinta-feira, 9 de março de 2017

A festa do pastor na Feira Nova

Trazem as ovelhas mais dotadas para o concurso, engalanadas a preceito, tal como eles ainda carregam nos ombros a antiga manta ou samarra e nas mãos o eterno cajado e a boina ou chapéu enterrados na cabeça...



Faltam apenas três dias para esta festa familiar ser convivida a preceito, longe dos holofotes televisivos, mas no pouco que ainda vai sobrevivendo no seu modo ancestral em que os prémios são simbólicos - tal como as inscrições - mas haverá muito queijo autêntico para quem quiser comprar e convívio, enquanto a barriga e as gargantas puderem, à moda das nossas gentes.
É de facto a festa do pastor, no modo genuíno como aqui se apresentam com os seus rebanhos...
Que seja uma bela Festa!

sábado, 4 de março de 2017

As cores da aldeia

Depois dos sons da aldeia que ficaram até hoje e dos cheiros, vou agora recordar as cores de Forninhos para aí nos anos 70 e 80.
Havia cores bonitas por todos os lados. 
Alguns exemplos:
- O verde dos campos de erva e dos nabais; dos pinheiros e da folhagem das oliveiras.
- O branco da neve e da geada e das giestas brancas (no tempo delas), da escola, da igreja, da capela e das poucas casas caiadas, pois a maioria das habitações tinham o granito à mostra.
- O amarelo das mimosas que existiam na Eira e no Passal; das flores das giestas (as maias) e também do milho nas lages e o amarelo dos fenos e centeio secos da Primavera/Verão. 

mimosas em flor

Mas havia mais cores:
- As miríades flores do campo: brancas, amarelas, azuis e rosa.
- O violeta dos rosmaninhos.
- O avermelhado das vinhas no Outono
- A cor dos frutos maduros das cerejeiras, macieiras, figueiras, videiras, oliveiras...
- O próprio arco-íris em dias de sol e de pouca chuva.

P.S: Agradeço reconhecidamente a fotografia à amiga Gracinha do blogue: 
https://crocheteandomomentos.blogspot.pt/

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

À fala com os animais...

Não eram assim tantos os animais que as pessoas tinham em casa, ainda assim quero evocar a maneira como as pessoas chamavam cada espécie dos animais da casa.
Então que animais havia nas casas de Forninhos? Havia o cão e o gato e, claro, os inevitáveis (e indesejáveis) ratos. Num galinheiro no pátio da casa ou no espaço por baixo do balcão, patim das escadas, havia as galinhas e o galo. Ocasionalmente uns perus e uns patos. De vez em quando também havia uns coelhitos numa coelheira. No cortelho ficava o marrano que havia de dar para todo o ano. Nos baixos da casa, havia as vacas e o burro ou burra. Se a família vivia melhorzinho podia ter um cavalo. Perto de casa, no curral havia as ovelhas e as cabras. 
Mas vamos então às formas de chamamento de cada animal.



Os gatos
Havia uma relação próxima com os gatos. No meu tempo alguns já tinham nome, mas quando era para virem comer algumas espinhas chamavam-nos sempre assim:
-biiichiiinhooo, bsbsbsbsbs...
E lá vinham os gatos ter com quem lhe dava comer ou queria acarinhar e consolar.

Os cães
Chamavam-se pelo nome, não havia cão sem nome:
- Mondego! Anda cá.
Para dar ordens assobiava-se. Cada assobio, uma ordem.

As galinhas
Não tinham nome. Quando se lhes punham milho ou couves no chão o chamamento era assim:
-quenina, quenina...quenina...
- piu...piu...piu...
E não é que elas vinham mesmo?
Às vezes também metiam um molhinho de couves preso com uma pedra e as galinhas ali depinicavam. Havia também a pia de pedra, onde bebiam.
Para as enxotar:
- xô...xô...xô...

O porco
O porco era dos animais mais queridos das famílias. Não por amor ao animal, mas porque com a matação a família tinha carne para todo o ano e daí, claro,o grande amor e amizade ao marrano. E como é que chamavam os porcos?
- Reco-reco-reco!

As vacas
Como falavam com elas?
As vacas tinham nomes, como os cães. Havia a Bonita, Amarela, a Castanha, a Malhada, etc...e falavam-lhes com autoridade:
- Volta cá Bonita (ou outro nome que dessem ao animal, ele entendia!), vem cá ao rego! E aquele típico "eia,ou, ao rego ou!". Os animais gostavam.

O burro e a burra
Quando se zangavam com estes animais, não os tratavam mal, os donos até eram pacientes:
- Arreda! Chega!
- Arre! 

As cabras e as ovelhas
Para se falar com os caprinos era assim:
-Chiiiiba! Chiiiba! Oh, tchibinha!
Para comer:
- Mé-mé-mé...
Com os ovinos, era mais berrar a imitar a sua própria voz.

Os coelhos
Nada de especial, não tinham nome, nem havia conversa com eles.Gostavam deles, mas não eram muito acarinhados com palavras...

Foto, Galinhas: cortesia da Natália Cavaca.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Os ensaiados

Andavam endiabrados
Por ser este aquele dia,
Tão felizes e contentes
Recuando no passado
Carregados de alegria,
Eles e as nossas gentes
Os tantos que assistia,
Voltavam a ser crianças
E podiam fazer tudo,
Felizes nestas andanças
Não fora dia de Entrudo!


Trago desta forma singela o Entrudo de Forninhos, como tributo aos que teimaram manter o espírito deste evento, à nossa maneira. 
Uns partiram tal como a tia Céu (a Rainha) e o meu tio António a tocar o bombo, quem diria, mas afinal tinha sido bombeiro toda a vida.
- Este ano, vais-te ensaiar de quê?
E moita carrasco...seja surdo e mudo se vou dizer, e por aqui se quedava a coisa, que afinal nada tinha de segredo, as calças do pai, o avental da mãe, as meias da irmã enfiadas cara abaixo, mais o chapéu velho do avô.
E falando, eles contavam eufóricos as traquinices matreiras dos seus tempos de juventude, de como pensavam enganar primeiro os vizinhos e depois o povo todo, quase sempre com a ajuda das mães mais  festivaleiras e cúmplices, como foi comigo.
Quanto aos mascarados, aí, alto e pára o baile...
Medo metia a carranca do tio Zé Carau, medonha!
Era um corropio de gente a fugir do largo da Lameira afora, aquela coisa ia connosco para a cama e durante dias não deixava dormir. Era o momento de terror que quase todos temiam, mas não queriam perder e pelo meio tantas coisas...
Diabruras do tio Abel peleira, a burra do tio Carlos melias, os alacraus do Luis mudo e o espalha brasas do Zé Coelho que com a pá limpava a Lameira com terra para quem apanhava pela frente, antes de estar calcetada.
Mas e deixem que diga, a tradição não está perdida pois o saudoso tio Zé Carau deixou muitos netos teimosos nestas coisas...

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Ditos de Fevereiro

Dizem na nossa terra que "a neve que em Fevereiro cai nas serras poupa um carro de estrume às terras", mas de um modo geral, em Portugal, Fevereiro não é um mês muito apreciado, porque em Fevereiro o sol já aquece um pouco e é portador de doenças, daí os provérbios "Fevereiro matou a mãe ao soalheiro" ou "Fevereiro quente traz o diabo no ventre".
Também as velhas do soalheiro depreciavam Fevereiro ao dizer que "Fevereiro trocou dois dias por uma tigela de papas", referindo-se às papas gordas que se comiam pelo Entrudo, feitas na água onde se coziam as carnes e uma choiriça dos boches.
E a maioria dos nossos agricultores acreditam que Fevereiro não é um mês bom para a agricultura, devido às condições atmosféricas (conhecidas pela sua irregularidade), se calhar por isso depara-mo-nos com provérbios antagónicos, exemplo: "vai-te embora Fevereiro que não me deixaste nenhum cordeiro" ou "vai-te embora Fevereiro de vinte e oito, que deixaste os meus bezerrinhos todos, oito".
Mas o calendário agrícola diz-nos que é no mês de Fevereiro que se deve começar a enxertia "em dia de S. Matias começam as enxertias", utilizando castas apropriadas, nos locais abrigados. Isto porque São Matias era comemorado no dia 24 de Fevereiro (actualmente a sua comemoração litúrgica ocorre no dia 14 de Maio). 
Para além dos trabalhos na vinha, também há que fazer na adega, estrafegar o vinho.
Ficamos por aqui e aguardamos a vossa participação, se aceitarem o desafio de complementar, com outros provérbios que se relacionem com o mês em curso.



A foto foi tirada pelo XicoAlmeida que a oferece ao blog  ゚・。.。Céus e palavras...゚・。.。... da Chica✿ .

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

E lá no alto a Matela...

Hoje deu-me para falar da sentinela de Forninhos, a amiga e camarada ao longo dos tempos. Até há pouco tempo freguesia da Matela.
Cá de baixo, olhamos por de cima dos pinhais e serranias para ver o tempo nela. 


Lá ao cimo, naquela montanha, porventura a última muralha da serra da Estrela, ela se situa. Forninhos fica num vale, logo por debaixo e olhando a seu redor as aldeias circundantes do rio Dão, estas estão ocultas, pois por arriba fica a serra de São Pedro que esconde Penaverde e. à esquerda. matas e mais matas que não deixam vislumbrar nem Dornelas ou Colheirinhas, embora pertençam ao mesmo concelho e distrito.
Enfim, somos filhos adoptivos da lei...
A gente pouco se incomoda, pois por norma vai às compras para baixo, em direcção a Viseu que mais tem a ver connosco e até o avaliar do tempo para o dia seguinte, sempre se olha para as bandas de Penalva, para aquelas manchas vermelhas e, assim, se acautela o que aprouver no cultivo.
Mas olhamos para a Matela no tempo frio, naquela chuva miudinha quando acordamos e se ela não estiver branca de neve, não vai ser hoje que a gente mata saudades de tantas coisas...
Nem falo de faltar à escola que há muito fechou, nem do barulho dos caçadores exímios, os da Matela que desciam pelas Androas e Castiçal, nem dos lobos sobejos, isso são recordações...tais como o campo da bola, o deles, com balizas de varas de pinheiro, lá no alto circundado de carqueja - era o que havia - cujo final seria um milagre se tal acontecesse, mas depois havia sempre um petisco.
Gente boa esta, embora sempre tenha havido desavenças entre nós, mas mais pelas festas cujos tocadores lutavam pela primazia. A Matela tinha dos bons guitarristas e Forninhos não se ficava e volta não volta, lá se juntavam a cantar serenatas perto da meia noite pelas suas terras, a troco de uns copos de vinho e umas chouriças.
Era tempo de alegria por vezes mal medida tal como na festa da Sra. dos Verdes em que um pouco tocados pelo tinto, durante a missa começaram a tocar e cantar; foi o fim do mundo com muitas cabeças partidas e gritos na fuga pelas encostas. A vida tinha outra alegria...
Mas tinha gentes artistas: o tio Chantre comprava, vendia, matava e esfolava pelas alturas festivas; o Zé Barbado, casado com a sua irmã; o amigo Vasco, latoeiro  e mestre da sua arte, ainda vivo. E, porventura dos maiores e sem desprimor, o tio Valentim sapateiro. Era sagrada a sua presença nos dias de domingo, descendo apeado com a famosa saca às costas, carregada de encomendas resolvidas e outras para levar pinhal acima, sempre a subir para a Matela. Encoirava tamancos, remendava botas e sapatos, fazia calçado novo; um artista renomado e respeitado. Bom homem o tio Valentim!
Mas se ainda agora morre um de baixo, aparecem os de cima, de igual modo acontece com o contrário.
Uma coisa é certa e não foi por acaso que apelidei esta aldeia de sentinela, pois fui testemunha no último verão aquando se iniciou um incêndio em Forninhos no lugar do moinho da Carvalheira junto aos Cuvos e em direcção a S. Pedro. As gentes da Matela, lá do alto, deram o alerta e sabe Deus o que salvaram.
Bem Hajam!