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domingo, 8 de maio de 2016

Forninhos - Construção da Igreja

No século XIV não existia, pois no documento do tempo de D. Dinis que enumera as igrejas em 1320, não há qualquer referência à Igreja de Forninhos (aparece, sim, a igreja de S. Pedro de Penaverde, que penso era a capela de S. Pedro do actual território de Forninhos).


Mas já existia em 1634, já que o primeiro registo de baptismo de que há conhecimento é desse ano e os primeiros casamentos e óbitos são registados em 1635 (vide Doc. acima).
E, em 1675, um relatório diocesano (Arquivo Distrital de Viseu, Avulsos, cx.6, doc. 2, fl. 11) refere o seguinte: 
“Igreja de Forninhos, invocação de Santa Marinha curato anual filial da Igreja de Penaverde tem sacrário 2 altares collateraes invocações de Jesus e de N. Sª Pessoas maiores 171, menores 44. Está suficientemente ornada com o que se proveo em visita.”
Nota: De referir que na época, Igreja era muitas vezes sinónimo de Paróquia e Forninhos era paróquia, com uma particularidade, era anexa (curato) de Penaverde e competia ao pároco de Penaverde nomear o pároco de Forninhos.
Como podem ver, a fonte de 1675 revela que à época a igreja estava suficientemente ornada e servia perfeitamente a população (constituída por 215 pessoas), uma vez que o visitador nada diz sobre a circunstância de a igreja ser pequena. No entanto, em documento de 1734,  que podem visualizar aqui, já outro visitador anotou que "He cousa pouca não convem estar ali igreja pode ir a Ornelas, ou a Matança - Dandose algua cousa pelos currãres, mas não a Ornelas por serem Abbas anexas a Pena Verde."
A população cresceu, pois em 1758, nas memórias paroquiais já se contavam 270 pessoas, e o cura de Forninhos respondia: "A paróquia está próxima ao povo. Hé orago de Santa Marinha, tem o Altar mor e dous colaterais.".
E em 1801 (censo de 1801), o número de habitantes ascendia a 356 pessoas e então percebe-se porque se tornou necessário dotar a paróquia de um templo que se adequasse à demografia da localidade. Isto foi em 1797, como se pode ler no documento de registo dos requerimentos e licença que se passou para se benzer a Igreja e a Capellamor do lugar e freguezia de Forninhos, que hoje n'O Forninhenses se publica na íntegra:


No entanto, os autores da "Monografia de Forninhos", em 2013, referem a páginas. 121-122: "A construção da Igreja deve remontar a 1731 se atendermos à inscrição patente no cocheado que compõe o portal do templo, que se define arquitetonicamente como um edifício de nobres proporções refletindo influências estilísticas de transição entre o barroco e o rococó."
Pergunta-se: a data que encima a porta é 1731 ou 1797? 
Afinal donde é que veio esta data?
Para mim, o 1731 pode ter vindo do folheto distribuído aquando da caminhada da natureza, de 8 de Agosto de 2010; é que nos "Pontos de Interesse" a Junta de Freguesia escreveu isto: "IGREJA MATRIZ DE SANTA MARINHA - A data provável do actual imóvel é de 1731, do estilo barroco e rococó".
É fácil confundir o 9 com o 3, basta um pouco de erosão da pedra na 'bolinha' do nove para se confundir os dois números; quanto ao 7 e ao 1, por vezes é difícil distingui-los, uma vez que apresentam formas gráficas semelhantes no séc. XVIII. 
Os de Forninhos, se quiserem, que vão lá ver ou vejam a foto inserida na pág. 123 e digam o que leram!
Mas ainda que achem que inscrição do concheado seja 1731, como é que historiadores e arqueológos que dizem ser de "alto gabarito" não se guiaram pelos factos, pelos documentos existentes? 
Como é possível que a paginas 121-122 digam que a construção da igreja de Forninhos deve remontar a 1731, se  o único documento que testemunha a construção da igreja (a actual) é este, de 1797?!
Existiu um templo em Forninhos anterior a 1797, disso não temos dúvidas, mas não há qualquer prova que remonte a 1731.

Contributo documental importante de João Nunes.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Os bailaricos

Na primeira metade do século passado, o bailarico era a principal atracção nas tardes de domingo (excepto na quaresma), onde todos dançavam ao toque duma concertina ou uma gaita de beiços (realejo), com modas da tradição musical e popular: fandangos, contradanças, viras e corridinhos, em que o próprio tocador não perdia uma. A mocidade chamava o tocador  de fora para a função: as raparigas confeccionavam o comer e os rapazes faziam uma colecta para arranjar uns cobres para o compensar.

Largo da Fonte

Imaginem o Largo da Fonte repleto com a sua gente que, de roupa domingueira, se apresentava para a única distracção a que tinham direito depois duma intensa semana de labuta. 
A tia Cecília com um pau na mão, junto ao baile, a correr com os miúdos para irem para a igreja rezar o terço.
Imaginem também o povo que não dançava, as mães sentadas em volta da fonte e no muro do pátio da tia 'Pincha' a ver como as filhas se comportavam.
Encontrões, piscadelas, uma saia rodada que mostrava mais do que devia...as filhas não podiam dar 'cabaço' a um rapaz, caso o fizessem para dançar com outro, armava-se logo ali uma algazarra.
Na segunda metade do século começaram a surgir os rádios e os gira-discos e os bailes domingueiros já se faziam junto ao Café do Sr. Virgílio, que tinha um altifalante por cima da porta d'entrada; só nos dias de festa da aldeia era hábito 'falar' a um tocador de fora.
Depois vieram os conjuntos musicais, mas isso já exigia maior preparação para o baile e cartazes a anunciar o baile pelas aldeias vizinhas, algumas vezes, estabelecendo entradas pagas.
Com o correr dos tempos os bailes foram perdendo terreno para outras manifestações mais cosmopolitas e, com isso, começou a ser mais rara a iniciativa popular, hoje, quase só por iniciativa das comissões de festas e autarquia ainda se consegue trazer à memória e à saudade do povo, o antigo baile popular.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Cantilenas de maio e o trigo de sacho

Confesso que me meti por caminhos mal explorados, mas valeu a pena.
O tema veio simplesmente por respeito a costumes antigos, como em tantas aldeias, para "defender a nossa". Mesmo em coisas parecidas , sabe bem sentir que as nossas gentes tais tinham, mais...



Procurei saber. Pelo que tinha pesquisado era quase tudo parecido naquelas lenga lengas bonitas, floridas por serranias com amores madastros com cheiros de maias, umas brancas outras amareladas.
E os nossos contos, claro, que acarretam cantigas de outrora, cantadas pelas ceifas, desde os "dois namorados", as "putigas" e tanto de tantas coisas...
Mas o Maio?
Tive respostas.
Gentes antigas que deste tempo me falaram, alem das tradicionais trovoadas do campo e suas actividades, que era o que me interessava.
Das sachas da batata e milho e daquelas coisas que tenho de aprender do serôdio ao temporão e qual deles tem de ser semeado mais cedo. depois alguém me diz que semeavam o centenico nas terras mais secas. Conto como apanhei o relato de uma garganta de quase noventa, mas acredito, sobretudo aquando me fala no trigo do sacho. O trigo tremês...
Colhido maduro por alturas de Julho e depois malhado a mangual para moer. Antes tinha de ser lavado, esfregado e colocado ao sol, antes de ir para o moinho dos moleiros que recebiam em dinheiro ou por maquia, naqueles tempos de fome.
Senti o saborear das palavras pausadas, degustando cada silaba, vivendo momentos.
Dali vinha a farinha mais fina, para uma doença ou para cozer os bolos de azeite pela Páscoa.

Quem em Abril não varre a eira e em Maio não racha a lareira , anda todo o ano em canseira.

sábado, 23 de abril de 2016

Mestres-Pedreiros de Forninhos no séc. XVIII

Há já algum tempo escrevi um artigo que intitulei Forninhos: Terra de Pedreiros, mas não sei se todos os forninhenses ficaram conscientes de que fomos mesmo uma terra de mestres-pedreiros, por isso hoje trago-lhes um documento que testemunha quão importantes eles foram para esta região no século XVIII:


António Ferreira do lugar de Forninhos comarqua de Linhares bem assim António Esteves do mesmo logar de Forninhos comarqua de Linhares...eles oficiais de pedreyros tabaliam em fazerem a obra da capella de sam Miguel sita em o termo desta mesma villa ao cimo do povo (...).


Capela de S. Miguel da Matança; esta obra foi feita por mestres-pedreiros de Forninhos! Uma capela bem mais bonita do que a de Santa Eufémia (mais acima) que gostamos de visitar em dia de romaria, mas estou convencida que depois deste 'post' quem é forninhense vai querer visitar esta capelinha na primeira oportunidade.

Contributo: João Nunes.

terça-feira, 19 de abril de 2016

A verdade da mentira


Sobre Forninhos, directa ou indirectamente, em 02-v-931 o arqueólogo viseense José Coelho, no seu caderno de notas, sua fl. 57, em resumo, escreveu que "Numa grande área existem abundantes ruínas de construções, cujos alicerces são bem evidentes..."
"Vêem-se a meio do povoado ainda ruínas da cap. medieval de S. Pedro..."
"Ver na folha sgte ara de sacrifícios?"
Estas notas inequivocamente datadas de 1931 referem-se ao Castelo dos Mouros, do sítio medieval de S. Pedro, em Forninhos; a ara de sacrifícios é o que nós forninhenses popularmente chamamos de a forca.
Agora como é que se explica isto?

imagem inserida na pág. 30 da monografia
Como se explica a data de 2-V-932 inserida na fl. 58 do Caderno de Notas de José Coelho?
Afinal José Coelho visitou este local a 2-v-931 ou 2-v-932?
Talvez  alguns números e letras estivessem tão claras que deu jeito as reescrever de forma legível. De facto, basta observar atentamente a imagem da pág. 30 da monografia de Forninhos, a terra dos nossos avós, para ver que alguém manipulou o escrito do Dr. José Coelho e ainda acrescentou um ponto de interrogação (?).
Por debaixo do "Penedo de sacrifícios?" está escrito, a maior, "Penedo de sacrifícios" sem qualquer pontuação. A interrogação existe na fl. 57, mas na fl. 58, a existir, seria +ou- por baixo do 8 e não do 5.
Cliquem na imagem, observem bem e digam-me afinal o que a EON&Cp.ª ganharam com isto?
Eu digo: ganharam mais um peso na consciência se é que a têm. 

Forca, com o Castelo dos Mouros ao fundo

Por se assemelhar a uma lagareta, definiram este penedo como sendo um lagar rupestre destinado ao fabrico do vinho e azeite, mas se o é...porque então o povo chama a este monumento medieval a forca e não lagarinho ou lagariço como chamam a outros lagares encontrados por perto?

Quem era José Coelho?
Professor, historiador e arqueólogo, José Coelho notabilizou-se pelos seus estudos de história e arqueologia regional.
Ao longo da sua vida foi recolhendo e juntando na sua Casa da Via Sacra um interessante espólio arqueológico. Após a sua morte (7 de Abril de 1977), os seus filhos, ofereceram, em 1979, a coleção de peças e apontamentos (Cadernos de notas Arqueológicas) à Câmara Municipal de Viseu, que se comprometeu a expô-los. Esta coleção esteve patente em várias exposições temporárias desde essa altura, encontrando-se expostas desde 1980 na Casa do Miradouro.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

SAUDADES DOS CEGOS PAPELISTAS

Para que nao morra definitivamente no esquecimento. 
Ainda vive na nossa aldeia quem se lembre dos folhetos vendidos e cantados por feiras e romarias. Eram os cegos que acompanhados por bandolim ou concertina, traziam e contavam histórias trágicas, verdadeiras ou inventadas que as aldeias tomavam como suas ou pelo menos parecidas e por tal relevavam nas suas cantorias... 


Ainda hoje se ouve, tal como ouvi na Páscoa a "Coitada da Maria Alice" cantada e como que chorada entre amigos numa romaria ou feira quase deserta, como que revivendo aqueles tempos do nosso triste fado.

"Coitada da Maria Alice
 Foi levada pela doidice
 Para a casa da desgraça
 Seus pais à procura dela
 Lá a viram numa janela
 A dar beijos a quem passa

 Um homem que era seu tio
 Nunca teve tal desvio
 De naquela casa entrar
 Ao ver a sua sobrinha
 No meio de tanta menina
 Nem um beijo lhe quis dar

 Sobrinha rica sobrinha
 Tão amada como eras
 Abandonaste os teus pais
 Mais te valeria a morte
 Do que andar pelos jornais

 Que fizeste aos teus vestidos
 Tão bonitos e compridos
 Um bocado lhe cortastes
 Foste viver para a viela
 Com tuas pernas à vela
 E teus pais abandonaste".

Curiosamente, cada terra guarda ainda estas cantorias a preceito conforme lhe convém aquela com que mais se identificavam e cantavam pelos campos, não sendo raro adaptarem letras de desvarios locais.
Estes cegos cancioneiros, acompanhados normalmente por mulher, e por vezes crianças...ou cão, não passavam pelas aldeias, por estas passavam os pobres pedintes.
Por tal, as gentes de Forninhos e outras como iguais, aquando iam vender os seus queijos, porcos e mais haveres às feiras circundantes de Aguiar, Fornos, Feira Nova, Castendo e  a extinta feira da Parola de Dornelas, tal como agora com o Seringador, não esqueciam esta literatura de cordel, os folhetos dos cegos.
Sem rádio nem televisão, o mundo vinha ali escrito numa desgraça infinita que depois cantados em ceifas ou vindimas, ficava virado ao avesso.
Mas com muito mais desgraças...