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terça-feira, 13 de maio de 2014

Fenos, erva dos lameiros e lenteiros

Estamos em Maio, altura de noutros tempos se pegar na gadanha e ceifar com desembaraço os fenos - erva criada nos lameiros e lenteiros - e preparar as terras para a sementeira dos milhos.


Para melhor descrever esta tarefa transcrevo um trecho do livro que melhor, até agora, descreve o que era a ruralidade das nossas aldeias:
"Os primeiros fenos em penachos a secar nas belgas ou nas eiras, ali por fim de Maio, vão deixando as terras livres para a sementeira dos milhos. Aqui e além, por lenteiros e quintais, o lavrador - "ou, ou!, ao rego ou!" - vai escrevendo e cantando o seu poema bucólico, num cenário de maravilha, a acompanhar a orquestra de pintassilgos, rouxinóis, maranteus, e pimpalhões, um melro, num salgueiro próximo e mesmo um cuco, no coruto de uma árvore, a despedir-lhe, em flauta, um intervalo de quarta."

In Penaverde, Sua Vila e Termo
Pe. Luís Ferreira de Lemos


Como o sacerdote refere, ali por fim de Maio os primeiros fenos eram colocados a secar em penachos, isto é, na vertical, com a espiga bem juntinha e atada, para a semente não se perder, ficando com o aspecto de "bonecas" dispostas no lameiro ou nas eiras, lages como se diz na nossa terra, para amarelecer e secar melhor. Dias depois a erva era bem sacudida para a semente cair, sem que fosse necessário usar o mangual. 
O feno/palha ficava estendido, traziam-se os bincelhos húmidos feitos da palha do centeio do ano anterior e então era enfaixado e carregado com as forquilhas no carro de bois, preparado com os fugueiros (fueiros ou estadulhos como são conhecidos em algumas localidades) para segurar bem a carrada e, no fim, apertava-se melhor com uma corda e lá seguia para a palheira para servir de alimento para o gado. A semente servia para futura germinação, sendo que uma boa quantidade era comercializada. 
Além deste feno ceifava-se também o feno pousio ou feno bravo. Este depois de ceifado ficava estendido no lenteiro uns dias e se ficasse basto era virado para secar bem dos dois lados. Quando seco era atado com os bincelhos e carrejado nos carros de bois, tal como descrito.
Em Maio, há décadas, atrás, a vida do campo era assim. Presentemente ainda se vê algumas "bonecas" nas lages ou espalhadas nos lameiros, mas os carros de bois é que já se não vêem, foram substituídos pelos tractores.


Usava-se o ancinho para gavelar o feno e para ajudar a remover as palhas; para limpar e juntar a semente, usava-se muito as vassouras de giesta. 



As três fotos antigas tiradas nas lages de Forninhos, foram já publicadas em Maio de 2011 aqui.

 Três notas:
1) Lameiros, são terras de cultivo mais húmidas, normalmente as localizadas nas margens dos ribeiros onde a erva cresce mais e dá tempo para se criar a semente, por serem lavradas mais tarde para as sementeiras dos milhos.
2) Lenteiros, são terras de pouso, tratadas com os cuidados da água, a chamada "água de limar"reservadas para este tipo de erva, que não é semeada como a dos lameiros.
3) Verificamos que na monografia de Forninhos, págs. 95, 96 e 97, esta erva de semente é associada ao nosso pão o que é de lamentar! Muitos jovens não conhecem a história e os usos e costumes dos nossos antepassados e os que a elaboraram confundem o centeio e trigo com o feno?! Santa ignorância! 
Cumpre ainda, no rigor das coisas, dizer que o nosso pão era semeado nas terras secas e da palha de centeio é que se faziam os bincelhos (vincelhos) e não os vancilhos como vem publicado! 
Muitas palavras são ditas de forma parecida, todos sabemos isso, mas se a obra é sobre a terra dos nossos avós, acho eu, deviam ter respeitado os seus "falares". 
O resultado fica aí para vergonha dos doutos que a elaboraram e dos que tal permitiram.

domingo, 11 de maio de 2014

Melros

O ninho deste pássaro já foi apresentado no ano passado neste blog, porém o meu irmão David ao encontrá-lo novamente não pôde deixar de acompanhar o seu ciclo de criação e fotografá-lo. Trata-se de um pássaro que vive junto do homem, adora as sombras das árvores e o primeiro assobio que se ouve pela manhã e ao final do dia é porventura o "ximximxim" do melro. 
Então como estamos na altura de homenagear as mães e os filhos, pois sem eles as mães não existiam, sabiam que estas aves ajudam os filhos e até dão a vida por eles, se necessário fôr, mas quando chega a altura de saírem do ninho, têm de governar-se sozinhos?


O melro faz um ninho caprichoso, seguro e confortável.

Clique nas fotografias para ampliar

Nas fotos seguintes o melro-pai leva-lhes o almoço no bico, mas não dá para ver bem porque desconfiado não quis fazer "pose" e virou-se de lado para a máquina fotográfica. 


Se calhar por o melro ser desconfiado é que quando alguém anda a "cheirar" o que não deve por determinados lugares se ouve, no sentido talvez depreciativo, "cuidado...anda aí o melro!". 
É bonito o melro, na sua escura penugem.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Doenças e Maleitas

Hoje vou falar de doenças e maleitas, sobretudo das que ainda estão na memória de muita gente da aldeia. Como sabem, dantes as nossas aldeias eram dez vezes mais populosas (força de expressão), afinal nasciam muito mais crianças que hoje, mas também havia muita mortalidade infantil, morriam muitos dos bebés por causa de febres muito perigosas, daí que as mães quando alguma febre apertava lá iam ao "médico" da terra: Sr. José Bernardo, que em matéria de doenças era quem lhes valia. Era o "médico popular" da aldeia, salvou muita gente e poupou a muitos dinheiro com consultas e com medicamentos.
Nós já o referimos aqui.

crianças com sarampo

Que doenças assolavam a aldeia?
A tuberculose, que felizmente não matou ninguém, mas nos anos 40 apareceram casos de tifo, alguns deles fatais, a febre tifóide; a difteria, conhecida por garrotilho, vitimou também muitas crianças - não confundir, com uma doença nas ventas dos animais a que se dava o mesmo nome - tem se calhar este nome por ser doença de garotos. Mas das maleitas dos miúdos, do que me lembro melhor é do sarampo e da varicela; tesorelho ou trazorelho e febre de malta, porque dores de garganta, constipações e estados febris que davam uns tremores, isso era todos os Invernos. Amigdalites (anginas) também. Mas houve outras doenças a ameaçar a saúde da miudagem como, por exemplo, a coqueluche, tosse convulsa, a meningite e otites. A asma também um ou dois tinham e lembro-me de ouvir falar, na adolescência, da vacina da rubéola, como sendo uma doença que ameaçava as grávidas, sendo que o embrião pode sofrer malformações.
Havia muitas doenças que nos chateavam os dias. 
Na minha aldeia muitos adultos tinham úlceras, de estômago, principalmente. Hoje duvido que algumas não fossem cancros, mas cancros e cirroses também havia, como aliás em toda a parte. Não esquecendo a pneumonia e a hepatite, como sendo doenças perigosas. Gripes, catarros, carbúnculo, comichões (algumas por causa dos piolhos) e diarreias de vária ordem povoavam o dia a dia da aldeia nos anos 50 e 60. 
Em 1957 a gripe asiática atacou muita gente, em Forninhos chamavam-lhe "andaço".
Já agora, registo, a respeito, a informação datada de 2 de Abril de 1850, do jornal Ilustração Brasileira, constante do "livro" de Forninhos, a pág. 72: "...o jornal Ilustração Brasileira, na sua edição de sábado, na secção História da Actualidade, referia que «Na freguesia de Forninhos grassa actualmente uma febre de caracter maligno», não dando mais explicações sobre esta epidemia.". 
Pena que aqueles que se dedicaram  à investigação tenham escrito um livro  para historiadores, porque aos netos desta terra igualmente não foi dada qualquer explicação, nem o assunto "nosografia" foi abordado. Quando uma febre assim tem carácter maligno tem certamente um nome, uma causa...
Até consultei os censos da época e, curiosamente, entre 1849 e 1862 a população não sofreu uma evolução negativa.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O Brasão da Freguesia de Forninhos


Este é o brasão da freguesia de Forninhos e como pouco sei de brasões e significados, na última semana li e aprendi umas coisas...
A Lei é de Abril de 1930. E, por parecer da Secção de Heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses, a Direcção Geral da Administração Pública obrigou as comissões administrativas das Câmaras Municipais a legalizar os brasões dos municípios que já existiam, mas que careciam de ser sistematizados e oficializados, ou mesmo actualizados, dada a disparidade entre a data da sua criação (alguns com centenas de anos) e a evolução que a região sofrera entretanto.
Actualmente, a heráldica das autarquias portuguesas é regulamentada pela Lei n.º 53 de 1991, que, com algumas alterações, manteve as regras básicas que já haviam sido definidas por diploma do Ministério do Interior, de 14 de Abril de 1930.
A regra em vigor é de que freguesias urbanas ou povoações simples sejam representadas por uma coroa mural de três torres. Quatro torres indicam uma vila, o que não é o caso de Forninhos, que nunca foi concelho (vide fig.). As cidades pela sua grandeza, são representadas com cinco torres na sua coroa mural que será de prata ou, no caso da capital do país, de ouro. De resto, tudo tem significado: cor, forma, partição do fundo, elementos colocados...
Por exemplo, o de Forninhos, que é recente, encimando o escudo de vermelho tem as três torres que a freguesia tem direito; e entre uma flor-de-lis em prata, estão o pão e o vinho representados pela espiga e um cacho de uvas, ambos de ouro e folhados de prata, significando talvez a nossa riqueza e antiguidade ou significando o nosso património/tradição, embora a representação do lírio esteja associado aos brasões e escudos da realeza francesa, em especial ao rei Luís VIII, daí que de sobrolho franzido e com ar intrigado, pergunto o que significa o elemento flor-de-lis no nosso brasão?
faixa murada de prata, apresenta quatro frestas abertas com chamas de sua cor. Duvido que não sejam fornos de cozer pão. Porquê? Já explico porquê a seguir.
Os ondeados de prata e azul penso que representam o nosso rio - o Dão.
O fundo interior do escudo é vermelho talvez por ser a cor da nossa Irmandade. 
Se cada freguesia procurar o significado do seu brasão, poderá encontrar boas surpresas para a História da sua terra. Mas pretendo com a publicação deste 'post' que os forninhenses tenham uma noção clara do que é o brasão da freguesia de Forninhos, pois há assuntos que nos acompanham a vida toda e nem sabemos porquê; e já agora se questionem, se o brasão que foi editado, há umas cinco legislaturas atrás, representa perfeitamente o nosso património/tradição, riqueza e antiguidade.
No meu entender, quando se avançou com o projecto, quem "desenhou" pensou aqui também representar os fornilhos na murada, designação por que são conhecidos os pequenos fornos utilizados pelo povo e porque havia a versão de que o topónimo Forninhos podia ter origem no vocábulo fornilhos, mas posso estar errada. Achou bem colocar também o símbolo do lírio, pois em heráldica (ciência dos brasões) representa uma das quatro figuras mais populares, juntamente com a águia, a cruz e o leão. 
Gosto do nosso brasão. Gosto do listel branco com a legenda em negro, em maiúsculas "FORNINHOS", mas gostava de ver o azeite representado. Uma árvore/oliveira secular ficava lá muito bem. O azeite há 50 anos mal chegava para os gastos, mas sempre foi considerado por nós uma riqueza e as oliveiras ainda hoje têm valor. Até o pinhal, envolvente florestal de Forninhos, podia representar melhor que a flor-de-lis- a nossa aldeia.
O debate está aberto.
Obrigada,
Saudações forninhenses.

Nota final: O Edital do brasão da Freguesia de Forninhos encontra-se publicado no Diário da República n.º 44, de 21 de Fevereiro de 1997, III Série: aqui (página 3245, fl. 47).

domingo, 4 de maio de 2014

Procissão e Visita Pascal

Como ainda não tinha publicado as fotos da Procissão de Domingo de Páscoa, porque preteridas em relação a outras, com duas semanas de atraso, mas numa antevisão de outras que nos esperam, aqui fica o registo de como a aldeia viveu a Celebração da Ressurreição de Jesus Cristo:



Ao contrário do que prometia a meteorologia, o dia esteve agradavelmente bom e convidava a desfrutar a rua.


Sente-se no ar alegria e os cheiros da época, das flores naturais



Passamos à visita pascal, que se fez na 2.ª F de Páscoa:



Foi a reportagem possível e ao vê-la vimos que há muito não se via tão pouca gente a acompanhar o "compasso" e também, diga-se, a abrir a porta para receber Jesus Ressuscitado. Por tal, a todos os que tornaram possível e deram corpo a este evento pascal o nosso agradecido reconhecimento.

Manter vivas as tradições que são a nossa referência é um BEM CULTURAL.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Maio, o mês das trovoadas

Eram de mais respeito e medos, as trovoadas algumas décadas atrás. Então Maio era terrível, o mês delas. 


Guardados por detrás da porta da cozinha, os ramos de oliveira, alecrim e loureiro benzidos no Dia de Ramos, iriam em situação de forte trovoada e no arreigar da fé e crença das tradições das pessoas, servir de protecção.  
A árvore da foto é uma oliveira situada num pequeno quintal da minha mãe frente à sua casa. Foi esventrada há muitos anos por um malvado raio que num ziguezaguear mortífero a atingiu e rasgou. Tinha eu sete anos de idade e em conversa pensamos aqui trazer a história deste dia que me marcou.
Curiosamente num dia em finais de Maio e de calor abafado, o tempo na sabedoria popular previa que "ela" nesse dia viesse, tal como veio, quase transformando o dia em noite. Em casa estava a minha avó Maria, a minha mãe Augusta e eu que sempre tapava a cabeça quando ouvia os trovões, se calhar por a minha mãe me contar que quando tinha a minha idade se metia dentro de uma saca de serapilheira e pedia à sua mãe para a levar para uma terra aonde não houvesse trovoadas.
Seguindo um ritual antigo, depressa se acendeu uma pequena fogueira e a minha avó ordenou à minha mãe que tapasse a aliança de casamento, já que os dedos com o trabalho do campo não eram fidalgos e o anel não iria sair. Podia atrair um raio. De detrás da porta tiraram um ramo benzido e pouco a pouco a minha avó ia deitando pedaços na fogueira enquanto rezava invocando a santa protectora:


 Santa Bárbara bendita
 Que no céu estais escrita
E na terra assinalada
Nosso Senhor te reme para bem longe
Lá para Castro Marinho
Onde não haja pão nem vinho
Nem mulher que páre menino
Livrai-nos desta trovoada

Ao lado desta oliveira, tinha o meu pai (que na altura do sucedido estava ausente) umas rimas de troncos de pinheiros e ramagens dos mesmos. Num repente imprevisto pela sua violência, o raio e trovão caem em simultâneo, "ela" estava ali mesmo por cima de nós e num ápice a casa começa a ser invadida por um fumo intenso, quase palpável de espesso que era. A madeira havia pegado fogo e apesar de molhada com tal intensidade que pensamos a casa estar a arder. Entre o esconder e sair para a rua, a minha avó de idade avançada, a minha mãe aflita e eu quase criança, alguém ouviu os nossos gritos, o Lúcio, não me esqueço, que acorreu e lá nos conseguimos arrastar para o páteo exterior da casa, enquanto gritava "acudam que há fogo"Tocou a rebate o sino e o povo acudiu em massa com o que tinha à mão, como era apanágio da entreajuda do povo de Forninhos.
Na semana passada estive lá e olhei para ela, a oliveira, começava a deitar flor e estava bonita. Gosto dela, apesar de aborrecido por não ter devolvido a relha metálica do arado que segundo a superstição tradicional, seria o que ia na ponta do raio e se enterrava na terra, mas que passados sete anos voltava à superfície.