Durante uma conversação, apercebi-me que do tempo em que os pobres batiam às portas da aldeia, a maioria de nós ainda não tínhamos nascido. “Mas expliquem-me lá melhor isso dos pobres”, pedi eu.
Os pobres eram homens que passavam por Forninhos anos a fio, três ou quatro vezes por ano, pouco se sabia sobre eles, vinham sem pedir mais do que as pessoas estavam dispostas a dar-lhe e dormiam em palheiras e pátios. Apresentavam-se sujos e andrajosos e ficavam o tempo que queriam, sem que os mandassem embora. Um dia acordavam e seguiam viagem para a próxima aldeia que os acolhia.
“De onde vinham, se tinham família, se alguém os procurava ou esperava”. Perguntei-lhes.
- O “Toninho das Palhoças” era de Maceira. Carregava farrapos e sempre que lhe falavam na Guarda (G.N.R.) fugia.
- O “Luís da Ablosa” era da Ablosa e porque tinha corpo que dava para trabalhar, fugia a sete pés quando lhe falavam em trabalho.
- O “Funfas” escolheu uma casita na Pardamaia para viver. Foi sapateiro e sabia o nome de todos da aldeia. Forninhos adoptou-o e parecia sentir-se bem, mas um dia desapareceu.
- O “Volver” não me souberam dizer de que terra era, apenas que carregava paus e era muito assustadiço e medroso.
- O “Paulo”, a aldeia conhecia-o assim, já velhinho morreu em Forninhos e aí foi sepultado.
"E mulheres pedintes não passavam em Forninhos?"
Apenas a recordação de uma conhecida por “a Ana das Courelas”, porque era dessa aldeia para os lados da Serra do Pisco, Trancoso.
É assim que pode nascer um artigo...e dei comigo a reflectir sobre a recência destas vidas de pobreza nestes anos, no tempo em que não havia o Banco Alimentar, IPSS ou subsídios.