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sexta-feira, 28 de abril de 2017

Nomes de Família

Hoje é assim: "A escolha do nome próprio e dos apelidos do filho menor pertence aos pais; na falta de acordo decidirá o juíz, de harmonia com o interesse do filho" - artigo 1875.º, n.º 2, do Código Civil".
Mas noutros tempos como era?


Forninhos: meu baptismo

Ao que apurei, outra gente se metia nesse assunto, pelo menos os padrinhos de baptismo, o pároco e o delegado da Conservatória do Registo Civil. Por exemplo, o delegado chegava a impor que o filho mais velho levava o nome próprio igual ao do pai. Dou um exemplo bem real da minha família, pela via materna:

Pai
António Rodrigues
Filho mais velho
António Augusto Rodrigues (o nome real do meu avô era António Augusto Rodrigues, mas desde pequeno que era conhecido por "Antoninho Matela").
Mãe
Maria dos Santos

Os filhos por vezes só levavam o apelido do pai e não tinham direito a qualquer apelido por parte da mãe. 

Pela via paterna:
Pai
Eduardo Albuquerque
Mãe 
Teresa de Jesus
Filhos:
António Albuquerque
Maria dos Prazeres (uma pessoa podia receber apenas dois nomes próprios comuns e nenhum nome de família).
José dos Santos Albuquerque
Clementina Albuquerque
Rita Albuquerque
Ilídio Albuquerque

Eu também herdei o "Rodrigues" pela linha materna e o "Albuquerque" pela via paterna, mas gostava de ter herdado o nome de família da minha avó paterna, que já vem desde pelo menos os meus trisavós: "José Dias de Andrade" e "Carolina de Andrade". 
Gosto da combinação "de Andrade Albuquerque", que o meu pai, José Samuel, herdou. Mas o meu pai podia ter-se chamado "José Samuel Coelho Albuquerque" pois "Coelho" era o último nome de família da minha avó Maria, que não aparece no nome de ninguém lá de casa...Neste caso a minha avó Maria, Maria de Andrade Coelho, conhecida por "Maria Coelha" não herdou o Albuquerque do pai "António Coelho de Albuquerque" e note-se que à excepção do tio Zé Carau, todos os seus irmãos tiveram direito ao "Albuquerque". Mas a geração dos meus avós não foi a última "marcada" por estas anomalias. Acho que só a partir da minha geração as coisas entraram mais nos eixos.




Outra disparidade e irregularidade, que podiam bem ter-se evitado, se o tal delegado não se metesse no assunto, é o do registo da data do nascimento. O meu registo é um bom exemplo. O meu documento oficial diz que nasci a 4 de Janeiro, embora tenha nascido a 29 de Dezembro e não foi porque houve atraso no meu registo de nascimento. Contam-me os meus familiares que o Sr. da Conservatória do Registo Civil achou que a menina (eu) devia ficar registada no ano novo novo e assim foi. Fiquei registada num dia, mês e ano diferentes!
Sempre festejei o meu aniversário a 29 de Dezembro e só uso o nome próprio e o último apelido, que é o Albuquerque que herdei por via paterna, mas o meu avô paterno, José dos Santos Albuquerque, o meu pai e o seus irmãos nunca foram conhecidos pelo apelido Albuquerque, mas sim pelo apelido que a aldeia os rotulou - "Cavaca", sem que eles se importassem com isso. Isto é igual em todas as aldeias...as pessoas são conhecidas pelas alcunhas...
Curioso é que o nome de família do avô e bisavô maternos do meu pai era também Albuquerque.



Nota: as fotos que publicam são do meu baptizado, porque antes do delegado da Conservatória do Registo Civil, eram os padres quem registava os nomes.

terça-feira, 25 de abril de 2017

1974-2017 - 43 Anos de Liberdade

«Um abraço para todos neste dia ESPECIAL.
Sobretudo para todos os que usam a Liberdade com Saber e muita Coragem, com inteligência e Respeito.
Um abraço para todos os que nos últimos 43 anos perceberam que a Liberdade é um bem adquirido e que tem regras, limites e fronteiras. A Liberdade não foi criada para roubar, para ultrajar o outro.O vizinho, o familiar ou o amigo.
O empregado ou a empregada, o assalariado.
O pai, a mãe, o avô ou o filho.
A Liberdade chegou há 43 anos e que para tal acontecesse muitos sofreram nas mãos do Absolutismo e da Ditadura.
Muitos morreram e nem o corpo(s) foi encontrado(s)...
Um abraço Especial para este Espaço que permite que uma Terra e um Povo sejam recordados na sua História e Raízes.
Onde também se contam estórias de arrepiar de pobreza e miséria, muita resistência!!
Pena que o 25 de Abril de HOJE não honre muitas vezes os nossos antepassados e muitos prefiram mandar pedras e esconder as mãos. Daí os muros que todos os dias nascem.
Dai as ameaças bélicas e os navios de guerra a cruzarem os Oceanos.
Para quem não sabe usar a Liberdade o sono de logo à noite vai ser muito pesado.
Para quem respeitou e quis a Liberdade sem sofrimento eis um sono leve que se aproxima.»



O blog dos forninhenses escolheu esta música do Pedro Abrunhosa para acompanhar esta passagem do amigo António Gouveia que dá assim este belo contributo para a nossa etiqueta de "Escritos".

sábado, 8 de abril de 2017

O interior das casas antigas

As pessoas com mais de 50 anos, de certeza que todas se lembram do interior das nossas casas. É óbvio que todos estão agora mesmo à espera que eu fale da típica casa beirã, de altos e baixos, em cantaria, com sótão para arrumos, sacada e balcão exterior e com lojas para animais e para a lenha, despensa para produtos agrícolas, vinho, etc..., no rés-do-chão e alçapão, quando o havia, para abreviar caminho entre um piso e outro. Mas não...não vou falar do interior da casa dos abastados, o texto que vai ler, é sobre a casinha rasteira e encontrei-o no Livro de Penaverde, do Sr. Pe. Luís Ferreira de Lemos.



«A casinha rasteira, geralmente de pequenas dimensões no comprimento e largura, não ultrapassa, talvez não atinja, os três metros de altura. Tem uma só porta, é sem janelas, tem, quando muito; um janêlo, na cozinha, para dar luz e deixar sair o fumo, raramente terá outro que não se abre, ali junto da cama, porque está calafetado de farrapos velhos, e, onde a par de percevejos, se guarda o cordão de ouro e umas escassas moedas. Também pode servir de guarda-jóias e mealheiro um buraco da parede muito bem disfarçado com uma pedra movediça.
Estas casinhas costumam ser de telha vã; e divisões se as há são para separar as gentes dos animais que vivem frontal a meio. Por isso, ao lado da cama ou por baixo dela, quando esta é de bancos, o monte das batatas; junto das paredes a arca do centeio, dos feijões e do bragal, braços de cebolas, alfaias agrícolas, e atrás do banco da lareira, o montículo da lenha. Tem para dizer o ditado "casa em que caibas e terra que não saibas"».
A este encontro foi também o melhor interpretador beirão da vida rural dessa geração, Aquilino Ribeiro sobre a casa beirã escreveu: "A aldeia, mal o sol pula detrás dos montes, esvazia-se para os campos. É lá que estão os tesouros".
Desta vez nem perguntei nada a ninguém, mas  penso que o texto do Pe. Lemos está um pouco exagerado. Aquilo que baila dentro de mim desde a meninice, é que quando se vivia nestas casinhas os animais estavam afastados. 
Eram residências pequenas, é certo, tinham uma salinha, com mesa e armário para guardar o pão e o queijo, por via dos ratos; cozinha, com lareira abaixo do nível do soalho com pilheira, mas sem chaminé; quarto próprio com a cama apoiada em barras de ferro, dividido da sala e cozinha por um taipal de falheira ou tábuas lisas. 
Para arrumar as coisas de mais valor, acho que, havia uma prateleira e a roupa domingueira era dependurada num prego ou numa sovina pregado nas tábuas. 

Dias de limpeza geral
Nas casas, era sagrado, na semana antes da Páscoa, era feita uma limpeza geral. Tudo bem lavado, tudo bem sacudido. Roupas que estavam na arca do bragal eram retiradas e arejadas nessa semana. No tanque ou no ribeiro, a roupa era lavada e posta a corar.  
Na igreja também era tudo lavado, para depois, no sábado de Aleluia, tudo se encher de flores e de vida. Pode ler como era seguindo por aqui.
Espero que passem bem a Páscoa.
Boa Semana Santa para si e sua família.

Foto de Henrique Lopes que também usa Santos Lopes

sábado, 1 de abril de 2017

Em Abril, águas mil...

Saudamos o mês de Abril que hoje começa...


Mês da chuva, de "águas mil...". 
Mas isto não garante que este ano vá chover no mês de Abril, garante que já aconteceu muitas vezes.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Quando atiram pedras aos mortos...

Que os seus se ergam em honra da sua memória!


Nesta foto muito antiga, os meus avós paternos, 
Ana e Francisco e a minha tia Augusta.


Nas fotos recentes, quase tudo continua igual: a janela à nossa direita, era o quarto dos avós, e por detrás do corredor um quarto de visitas.
A outra janela era a da sala, sendo que ao fundo ficava o quarto da tia Augusta.
Descendo uns degraus, a ampla cozinha com forno embutido ao lado da lareira.
A zona de convívio... 


Partiram todos, mas ao lado o marmeleiro dos vizinhos, continua medrado e o portão que guarda a porta da entrada, ainda vigoroso, como que desafiando o tempo e seus fantasmas.


Quantas dornas de cachos se tombaram aqui, nos medos de as vacas se espantarem na portada deste lagar, um dos melhores de Forninhos, e daí vir uma desgraça que nunca felizmente aconteceu, mas sustos não faltaram... era a vida...
Trabalhos que entre estes e tantos, esta casa dos meus avós, muita gente ajudou.
Agora atiram pedras e a casa tem de vir abaixo por ser uma ameaça à saúde pública...!
Quem dera o Forninhos de outrora, sem "cunhas" para interesses pessoais, pois vendo bem, quantas casas na freguesia estão muito piores que esta...tomaram muitos tal ter. Em tempos de barriga cheia, esquecem os tempos de uma malga dada por caridade, mas um apelo à Câmara  de Aguiar da Beira:
Em tempo de eleições, nesta freguesia e todo o município, tenham a coragem de tomarem a mesma metodologia no que concerne e sem preconceitos à obrigação de as casas em menor estado de conservação,  de os potenciais herdeiros arcarem com as responsabilidades, pois as requalificações também constam na Constituição Portuguesa por parte das autarquias.
Tal não sendo, iremos continuar a penar entre dois mundos...um de uns e outros dos outros!

sábado, 25 de março de 2017

Projectos dos nossos dias

Em muitas aldeias do nosso país ouvem-se pessoas que se queixam dos problemas causados pelos projectos de melhoramentos sem harmonizar o passado com o presente, nem o antigo com o moderno. Projectos mal elaborados que poucos melhoramentos trazem às aldeias despovoadas, à região onde foram elaborados e que acabam sempre por enriquecer uns e criar problemas às populações.
Não há aldeia que não se queixe de um ou mais problemas...

Futuro Parque Infantil (um dos...)
Eleições autárquicas 2005 (Projecto do Lugar)
Em Forninhos muita gente se queixa duma rotunda que foi feita há alguns anos. A rotunda do Lugar deve ser uma obra única, pois não creio que no país haja outra igual. Mudaram um fontanário antigo para o meio da rotunda com um poste por trás e com quatro passadeiras a convergirem para o centro. É no mínimo original.
Ah! E uma paragem a que chamamos "gare do oriente", que foi feita só para inglês ver, já que não abriga nem acolhe ninguém!

Eleições autárquicas 2013 (Projecto da Lameira)
Acima do Lugar  encontra-se a Lameira, com postes de electricidade novos e o piso refeito a novo; aqui não há uma rotunda, há um triângulo??? (mal ajardinado), com uma espécie de bancos a circundá-lo. Apesar destes trabalhos, por vezes (e muitas) a quem circula por ali acima tem provocado alguns sustos. 
Começou a obra em Julho/2013, em vésperas de eleições autárquicas; e o que é certo é que os trabalhos ainda estão inacabados, pelo menos o parque infantil que dá uma péssima imagem (vide foto).
Já agora e uma vez que os trabalhos ainda estão em curso (ou deviam estar), como praticamente não há crianças, façam antes um parque sénior e não acabem sem tirar a cobertura da fonte da Lameira também! 
Também foi em 2013 que o projecto "Forninhos, a terra dos nossos avós" viu a luz do dia e quem tem olhos para ver (e ler) vê uma obra muito mal elaborada, cheia de erros, mas claro para os responsáveis desse projecto são apenas falsos erros e tudo está muito bem sem razões para queixas. Um orgulho!

Eleições de 2009
Vem a novela do projecto do Santuário de Nossa Senhora dos Verdes. Um projecto mégalomeno que acabou com uma capela rebocada e um recinto verde cheio de pedra granito. Que alguém explique o que tanta pedra ali faz. 
Outros melhoramentos seriam talvez mais necessários...
Não é do desconhecimento de ninguém também o projecto parque de lazer nos terrenos da Freguesia de Forninhos, no Barreiro, que incluía algumas infraestruturas de lazer e até a possibilidade de uma praia fluvial. O projecto apresentado em 2009 foi aprovado em Assembleia de Freguesia, mas até hoje «nada». Ficou na gaveta, porque não havia dinheiro...!

Eleições de 2001
Projecto "Parque das Merendas". Começado no ano 2000 no "Alto dos Valagotes" o Parque de Merendas "Nossa Senhora de Fátima" é hoje um local de lazer, para crianças, jovens e adultos de qualquer idade. Inserido no meio da natureza tem um miradouro, obstáculos naturais, um parque infantil, telheiro com churrasqueira, Wc, etc...
Ficaria mais completo se fizessem ali um mini campo de futebol, ainda assim dizem que é dos melhores parques das redondezas!?!
Mas a ânsia de querer fazer...leva as pessoas que têm o poder decisão, como são os políticos que ocupam os lugares nas autarquias, a querer mais projectos! 

Eleições de 2017
Este ano é ano de eleições e como não podia deixar de ser surge um novo projecto para Forninhos, que pouco difere do de 1999 e 2013, pois tem previstas iguais estruturas de lazer e apoio às famílias, desde os mais pequenos aos séniores. Inclui um parque infantil (já vamos para o 5,º parque infantil), equipamentos de geriatria, campos de jogos, zona de merendas, telheiro com churrasqueira.
Mas pergunto eu:
Se já há tudo isto, é preciso fazer tudo igual dentro do povoado, porquê, para quê e para quem?
Deve ser promessa eleitoral ou então é porque há dinheiro em abundância, pois se para tal até compraram terrenos a particulares!!, mas se o há de algum lado veio e a concretizar-se tudo (o que eu duvido), não me admirava nada ver lá o que em Forninhos já virou moda, ou seja, uma placa benemérita, porque "Contributos são bem vindos"!

quinta-feira, 23 de março de 2017

QUE SAUDADES DAS MORUGENS...

"Parecem agriões ao microscópio, mas tão saborosos e tenros.
Apenas existem no estado selvagem.
Quando o tempo assume o seu ar primaveril e as aguas cristalinas dos ribeiros, se escoam pelas bordas dos lameiros, parecem ervas daninhas a medrar, mas tão preciosas...
Bem lavadinhas em agua corrente e temperadas, a acompanhar com uns peixinhos do rio Dão e um naco de broa, escoa-se uma pipa de tinto!".

(assim comentei aqui meia dúzia de anos atrás...)


Nós, gentes da aldeia, somos um tolos quando lembrámos uma coisa e ficamos a cismar ,num misto de ternura e vergonha das agruras da vida. Ai se a vida era boa e saudável nesses tempos!! Agora e de quem de tais ainda se lembra "parece mal" dizerem que comeram isto que vos trago, como se fossem miseráveis famintos de outrora...
Nada disso, agora iguarias pagas a peso de ouro, tal como as azedas, baldroegas e agrião selvagem, num mundo "moderno" que lambe a "beiça" regalados pelo que era deitado ao "vivo".
A foto faz-me percorrer caminhos quase do antanho. Traz com ela, o ribeiro dos Moncões, a ribeira de Cabreira e por tantos lugares, os Carregais. Lados em que houvesse água corrente das poças, os regos eram salpicados pelas morugens. Nas Andrôas, as repesas eram fartas em agrião, pequeno de folha, mas o mais saboroso. Bastava arregaçar as calças na água fria apesar do sol e apanhar os mais apetecíveis. Curioso era o silêncio quebrado pelo nosso chapinhar, o salto das rãs e a passarada louca em fazer os ninhos. 
Tempo depois e tratada, a salada era a rainha da mesa, fosse ela de carne ou peixe.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Ali por Março ou Abril...

Nos últimos dias estive a reler umas páginas do livro Penaverde, sua Vila e Termo, do Pe. Luís Ferreira de Lemos e encontrei um trecho que sublinhei 'há muito'...e que hoje trago aqui. Espero que apreciem:
"Ali por Março ou Abril, consoante, começa a faina agrícola. Pouco a pouco, o manto verde que a terra foi cobrindo depois dos 'codos do inverno', agora marchetado de boinas, malmequeres e miríades de flores sem nome, começa a virar-se do avesso, para albergar, no seio criador, as primeiras sementes das batatas temporãs".


Foto de Forninhos, do albúm de memórias de Luís Pires, filho da ti Ilda e ti Zé Cardoso.

quinta-feira, 9 de março de 2017

A festa do pastor na Feira Nova

Trazem as ovelhas mais dotadas para o concurso, engalanadas a preceito, tal como eles ainda carregam nos ombros a antiga manta ou samarra e nas mãos o eterno cajado e a boina ou chapéu enterrados na cabeça...



Faltam apenas três dias para esta festa familiar ser convivida a preceito, longe dos holofotes televisivos, mas no pouco que ainda vai sobrevivendo no seu modo ancestral em que os prémios são simbólicos - tal como as inscrições - mas haverá muito queijo autêntico para quem quiser comprar e convívio, enquanto a barriga e as gargantas puderem, à moda das nossas gentes.
É de facto a festa do pastor, no modo genuíno como aqui se apresentam com os seus rebanhos...
Que seja uma bela Festa!

sábado, 4 de março de 2017

As cores da aldeia

Depois dos sons da aldeia que ficaram até hoje e dos cheiros, vou agora recordar as cores de Forninhos para aí nos anos 70 e 80.
Havia cores bonitas por todos os lados. 
Alguns exemplos:
- O verde dos campos de erva e dos nabais; dos pinheiros e da folhagem das oliveiras.
- O branco da neve e da geada; das giestas brancas (no tempo delas), da escola, da igreja, da capela e das poucas casas caiadas, pois a maioria das habitações tinham o granito à mostra.
- O amarelo das mimosas que existiam na Eira e no Passal; das flores das giestas (as maias)  e também do milho nas lages e o sol descorado de fim de verão.


mimosas em flor

Mas havia mais amarelos:
- o dos fenos e centeio secos da Primavera/Verão.
- As miríades flores do campo: brancas, amarelas, azuis e rosa.
- O violeta dos rosmaninhos.
- O avermelhado das vinhas no Outono
- A cor dos frutos maduros das cerejeiras, macieiras, figueiras, videiras, oliveiras...
- O próprio arco-íris em dias de sol e de pouca chuva.

P.S: Agradeço reconhecidamente a fotografia à amiga Gracinha do blogue: 
https://crocheteandomomentos.blogspot.pt/

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

À fala com os animais...

Não eram assim tantos os animais que as pessoas tinham em casa, ainda assim quero evocar a maneira como as pessoas chamavam cada espécie dos animais da casa.
Então que animais havia nas casas de Forninhos? Havia o cão e o gato e, claro, os inevitáveis (e indesejáveis) ratos. Num galinheiro no pátio da casa ou no espaço por baixo do balcão, patim das escadas, havia as galinhas e o galo. Ocasionalmente uns perus e uns patos. De vez em quando também havia uns coelhitos numa coelheira. No cortelho ficava o marrano que havia de dar para todo o ano. Nos baixos da casa, havia as vacas e o burro ou burra. Se a família vivia melhorzinho podia ter um cavalo. Perto de casa, no curral havia as ovelhas e as cabras. 
Mas vamos então às formas de chamamento de cada animal.



Os gatos
Havia uma relação próxima com os gatos. No meu tempo alguns já tinham nome, mas quando era para virem comer algumas espinhas chamavam-nos sempre assim:
-biiichiiinhooo, bsbsbsbsbs...
E lá vinham os gatos ter com quem lhe dava comer ou queria acarinhar e consolar.

Os cães
Chamavam-se pelo nome, não havia cão sem nome:
- Mondego! Anda cá.
Para dar ordens assobiava-se. Cada assobio, uma ordem.

As galinhas
Não tinham nome. Quando se lhes punham milho ou couves no chão o chamamento era assim:
-quenina, quenina...quenina...
- piu...piu...piu...
E não é que elas vinham mesmo?
Às vezes também metiam um molhinho de couves preso com uma pedra e as galinhas ali depinicavam. Havia também a pia de pedra, onde bebiam.
Para as enxotar:
- xô...xô...xô...

O porco
O porco era dos animais mais queridos das famílias. Não por amor ao animal, mas porque com a matação a família tinha carne para todo o ano e daí, claro,o grande amor e amizade ao marrano. E como é que chamavam os porcos?
- Reco-reco-reco!

As vacas
Como falavam com elas?
As vacas tinham nomes, como os cães. Havia a Bonita, Amarela, a Castanha, a Malhada, etc...e falavam-lhes com autoridade:
- Volta cá Bonita (ou outro nome que dessem ao animal, ele entendia!), vem cá ao rego! E aquele típico "eia,ou, ao rego ou!". Os animais gostavam.

O burro e a burra
Quando se zangavam com estes animais, não os tratavam mal, os donos até eram pacientes:
- Arreda! Chega!
- Arre! 

As cabras e as ovelhas
Para se falar com os caprinos era assim:
-Chiiiiba! Chiiiba! Oh, tchibinha!
Para comer:
- Mé-mé-mé...
Com os ovinos, era mais berrar a imitar a sua própria voz.

Os coelhos
Nada de especial, não tinham nome, nem havia conversa com eles.Gostavam deles, mas não eram muito acarinhados com palavras...

Foto, Galinhas: cortesia da Natália Cavaca.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Os ensaiados

Andavam endiabrados
Por ser este aquele dia,
Tão felizes e contentes
Recuando no passado
Carregados de alegria,
Eles e as nossas gentes
Os tantos que assistia,
Voltavam a ser crianças
E podiam fazer tudo,
Felizes nestas andanças
Não fora dia de Entrudo!


Trago desta forma singela o Entrudo de Forninhos, como tributo aos que teimaram manter o espírito deste evento, à nossa maneira. 
Uns partiram tal como a tia Céu (a Rainha) e o meu tio António a tocar o bombo, quem diria, mas afinal tinha sido bombeiro toda a vida.
- Este ano, vais-te ensaiar de quê?
E moita carrasco...seja surdo e mudo se vou dizer, e por aqui se quedava a coisa, que afinal nada tinha de segredo, as calças do pai, o avental da mãe, as meias da irmã enfiadas cara abaixo, mais o chapéu velho do avô.
E falando, eles contavam eufóricos as traquinices matreiras dos seus tempos de juventude, de como pensavam enganar primeiro os vizinhos e depois o povo todo, quase sempre com a ajuda das mães mais  festivaleiras e cúmplices, como foi comigo.
Quanto aos mascarados, aí, alto e pára o baile...
Medo metia a carranca do tio Zé Carau, medonha!
Era um corropio de gente a fugir do largo da Lameira afora, aquela coisa ia connosco para a cama e durante dias não deixava dormir. Era o momento de terror que quase todos temiam, mas não queriam perder e pelo meio tantas coisas...
Diabruras do tio Abel peleira, a burra do tio Carlos melias, os alacraus do Luis mudo e o espalha brasas do Zé Coelho que com a pá limpava a Lameira com terra para quem apanhava pela frente, antes de estar calcetada.
Mas e deixem que diga, a tradição não está perdida pois o saudoso tio Zé Carau deixou muitos netos teimosos nestas coisas...

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Ditos de Fevereiro

Dizem na nossa terra que "a neve que em Fevereiro cai nas serras poupa um carro de estrume às terras", mas de um modo geral, em Portugal, Fevereiro não é um mês muito apreciado, porque em Fevereiro o sol já aquece um pouco e é portador de doenças, daí os provérbios "Fevereiro matou a mãe ao soalheiro" ou "Fevereiro quente traz o diabo no ventre".
Também as velhas do soalheiro depreciavam Fevereiro ao dizer que "Fevereiro trocou dois dias por uma tigela de papas", referindo-se às papas gordas que se comiam pelo Entrudo, feitas na água onde se coziam as carnes e uma choiriça dos boches.
E a maioria dos nossos agricultores acreditam que Fevereiro não é um mês bom para a agricultura, devido às condições atmosféricas (conhecidas pela sua irregularidade), se calhar por isso depara-mo-nos com provérbios antagónicos, exemplo: "vai-te embora Fevereiro que não me deixaste nenhum cordeiro" ou "vai-te embora Fevereiro de vinte e oito, que deixaste os meus bezerrinhos todos, oito".
Mas o calendário agrícola diz-nos que é no mês de Fevereiro que se deve começar a enxertia "em dia de S. Matias começam as enxertias", utilizando castas apropriadas, nos locais abrigados. Isto porque São Matias era comemorado no dia 24 de Fevereiro (actualmente a sua comemoração litúrgica ocorre no dia 14 de Maio). 
Para além dos trabalhos na vinha, também há que fazer na adega, estrafegar o vinho.
Ficamos por aqui e aguardamos a vossa participação, se aceitarem o desafio de complementar, com outros provérbios que se relacionem com o mês em curso.



A foto foi tirada pelo XicoAlmeida que a oferece ao blog  ゚・。.。Céus e palavras...゚・。.。... da Chica✿ .

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

E lá no alto a Matela...

Hoje deu-me para falar da sentinela de Forninhos, a amiga e camarada ao longo dos tempos. Até há pouco tempo freguesia da Matela.
Cá de baixo, olhamos por de cima dos pinhais e serranias para ver o tempo nela. 


Lá ao cimo, naquela montanha, porventura a última muralha da serra da Estrela, ela se situa. Forninhos fica num vale, logo por debaixo e olhando a seu redor as aldeias circundantes do rio Dão, estas estão ocultas, pois por arriba fica a serra de São Pedro que esconde Penaverde e. à esquerda. matas e mais matas que não deixam vislumbrar nem Dornelas ou Colheirinhas, embora pertençam ao mesmo concelho e distrito.
Enfim, somos filhos adoptivos da lei...
A gente pouco se incomoda, pois por norma vai às compras para baixo, em direcção a Viseu que mais tem a ver connosco e até o avaliar do tempo para o dia seguinte, sempre se olha para as bandas de Penalva, para aquelas manchas vermelhas e, assim, se acautela o que aprouver no cultivo.
Mas olhamos para a Matela no tempo frio, naquela chuva miudinha quando acordamos e se ela não estiver branca de neve, não vai ser hoje que a gente mata saudades de tantas coisas...
Nem falo de faltar à escola que há muito fechou, nem do barulho dos caçadores exímios, os da Matela que desciam pelas Androas e Castiçal, nem dos lobos sobejos, isso são recordações...tais como o campo da bola, o deles, com balizas de varas de pinheiro, lá no alto circundado de carqueja - era o que havia - cujo final seria um milagre se tal acontecesse, mas depois havia sempre um petisco.
Gente boa esta, embora sempre tenha havido desavenças entre nós, mas mais pelas festas cujos tocadores lutavam pela primazia. A Matela tinha dos bons guitarristas e Forninhos não se ficava e volta não volta, lá se juntavam a cantar serenatas perto da meia noite pelas suas terras, a troco de uns copos de vinho e umas chouriças.
Era tempo de alegria por vezes mal medida tal como na festa da Sra. dos Verdes em que um pouco tocados pelo tinto, durante a missa começaram a tocar e cantar; foi o fim do mundo com muitas cabeças partidas e gritos na fuga pelas encostas. A vida tinha outra alegria...
Mas tinha gentes artistas: o tio Chantre comprava, vendia, matava e esfolava pelas alturas festivas; o Zé Barbado, casado com a sua irmã; o amigo Vasco, latoeiro  e mestre da sua arte, ainda vivo. E, porventura dos maiores e sem desprimor, o tio Valentim sapateiro. Era sagrada a sua presença nos dias de domingo, descendo apeado com a famosa saca às costas, carregada de encomendas resolvidas e outras para levar pinhal acima, sempre a subir para a Matela. Encoirava tamancos, remendava botas e sapatos, fazia calçado novo; um artista renomado e respeitado. Bom homem o tio Valentim!
Mas se ainda agora morre um de baixo, aparecem os de cima, de igual modo acontece com o contrário.
Uma coisa é certa e não foi por acaso que apelidei esta aldeia de sentinela, pois fui testemunha no último verão aquando se iniciou um incêndio em Forninhos no lugar do moinho da Carvalheira junto aos Cuvos e em direcção a S. Pedro. As gentes da Matela, lá do alto, deram o alerta e sabe Deus o que salvaram.
Bem Hajam!

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Dominus Vobiscum

Há 50 anos e tal anos a língua da Igreja ainda era o latim. Em latim se celebravam todos os ofícios, as Escrituras do Antigo e Novo Testamento eram em latim, em latim eram entoados os cânticos e, no entanto, 99% da população não fora iniciada na sua aprendizagem. Sequer o clero dominava aquela língua!

sermão 'berrado' do púlpito no dia de festa da padroeira

Não sou do tempo da liturgia em latim, mas a maioria das pessoas nascidas e criadas em Forninhos, ainda assistiram à 'missa antiga' em que o Sacerdote iniciava a celebração com In nomine Patris et Filii et Spitirtus Sancti virado para o Sacrário ou para Deus, de costas para o povo, só vindo à frente para conduzir os fiéis a responder em latim, língua Católica Apostólica Romana, usada ao longo da celebração. 
Em dia de festa subia ao púlpito para a homilia/sermão.
O povo estava ali a ouvir missa, mas a maior parte das vezes sem entender, pois sequer as leituras eram lidas em vernáculo (língua própria de cada país ou comunidade), só a homilia, mas todos gostavam do latim, mesmo que não o entendessem. Muitos fiéis, não sabiam ler, ainda assim muniam-se dum missal com as orações em latim (à direita) e em português (à esquerda).
Os cânticos também eram entoados em latim. 
Hoje a missa já não é em latim e de costas' para os fieis e eu nunca o vi um padre subir ao púlpito.
O púlpito já não é usado nos dias de hoje...

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Santuário de Nossa Senhora dos Verdes: O Projecto

Vou deixar aqui o projecto de arquitectura de recuperação do Santuário de Nossa Senhora dos Verdes, classificado como imóvel de interesse público (decreto n.º 8 de 24 de Janeiro de 1983). Tinha por fim a recuperação e construção de 4 estruturas. 
Certamente alguns forninhenses já o conheciam, mas muitos desconhecerão, mas agora podem ficar a conhecer porque já remonta a 2003 e a apresentação primeira (pública) foi feita no ano de 2004. Tive alguns amargos de boca por me opôr a alguns pontos, por ter a ousadia de ao tempo apresentar os 'prós e contras', mas já lá vai...



O ponto 1 pretendia eliminar, e bem, algumas alterações incorrectas que foram feitas nos últimos anos e outras intervenções, a saber:

1.1. alteração do alpendre: retirar o pavimento de mosaico verde e aplicar blocos de granito e retirar a estrutura que suportava o alpendre em cimento e colocar madeira (o forro do alpendre dantes era em azul com pinturas).
Hoje o alpendre já tem no chão -direcção entrada da capela - uma passadeira em granito em forma de cruz e no nicho o S. Matias em granito. 
Antes do mosaico verde o chão era em saibro e parece que quando foi colocado o betão os pilares do alpendre eram mais grossos, mas na altura foram tiradas pedras para fazer de marcos em terrenos da igreja??!!! Enfim...estas coisas têm valor e hoje o valor da nossa capela seria muito superior! 

1.2. Impermeabilizaçao total do edifício com a colocação de um novo telhado e dotar a estrutura de escoamento de águas;
Foi colocado o telhado que estava muito degradado e com infiltrações constantes.

1.3. colocação de electricidade na capela;
Foi bom, pois os candeeiros laterais apontam para os tectos e, assim, iluminam os caixotões decorados com elementos florais e não só.

1.4. caiar as paredes exteriores e interiores da capela;
A meu ver as paredes não foram caiadas, foram antes rebocadas de forma a "endireitá-las" e pintadas de branco.

1.5. colocação de um passeio de paralelos de granito à volta da capela;
Um trabalho e gasto, a meu ver, desnecessário. Se a ideia era impermeabizar o edifício, de modo a salvaguardar a talha interior, os anos vieram provar que os cubos de granito não evitam quaisquer humidades!

1.6. colocação de 2 cruzes que faltam no calvário junto à capela, o que foi feito e ficou bonito.

Os pontos seguintes já tinham mais a ver com a envolvente e melhor execução das festas por parte das comissões de festa vindouras, assim:

Do ponto 2 - quem se lembra? 
Construção de um bar fixo!
Estava, portanto, previsto no projecto a construção de um bar fixo em granito, acho que no mesmo local onde a comissão de festas costuma fazê-lo. Segundo o projecto terá tomadas de electricidade.
Ah pois! Está agora - 2017 - a ser construído!

Ponto3delimitação de uma zona de estacionamento.
Era para delimitar uma zona em paralelo que ligava a estrada municipal ao alpendre da capela.
Quando fiz parte da comissão de festas - 2013 - sugeri colocar novamente as pedras que nos idos anos 60, 70 e 80 existiam, unidas por correntes, de modo a impedir o acesso de viaturas ao terreiro, que é o que fazem em muitos lugares para salvaguardar os monumentos de interesse público, a maioria não quis e o terreiro continua à mercê de toda a maquinaria com rodas!

O ponto 4 inclui a construção de um palco para eventos com casas de banho e uma sala de arrumos.
Inicialmente eram só casas de banho, mas depois decidiu-se (decidiram!!) que era necessário um palco para os ranchos e outros espectáculos. O palco era para ficar num sítio junto à mata da Sra. Mariana Vaz, que afirmaram -ao tempo- gentilmente cedeu à Fábrica da Igreja de Forninhos uma parte do seu terreno para essa construção. 
Tudo isto ainda está por fazer e afinal veio a saber-se que a Sra. Mariana Vaz não cedeu à Fábrica da Igreja Paroquial da Freguesia de Forninhos, parte de terreno nenhum, pelo menos, em 2013 ainda não tinha cedido a mata ou parte!


Graças ao esforço pessoal e financeiro de muita comissão de festas e muitíssimos devotos e também da Câmara Municipal de Aguiar da Beira,dig-se, à excepção da talha interior pode dizer-se que a capela levou uma volta completa: desde armação, telhado, barra de suporte, candeeiros e tomadas de luz e som no interior, colocação de um novo tecto no alpendre sacristia, paredes rebocadas e pintadas de branco, envernizamento dos bancos, portas e móvel da sacristia, imagens restauradas; na zona envolvente, a tal colocação de cubos de granito amarelo, muros exteriores arranjados e limpos, etc...


Ficam só a faltar as casas de banho exterior, palco e sala de arrumos constante do ponto 4 e ainda a delimitação constante do ponto 3.
Mas, neste momento, no Santuário já há outras coisas novas, alheias ao projecto: um chafariz e para aí uma dúzia de mesas e bancos, com que licença e autorização de quem? 
Responda quem souber!

sábado, 28 de janeiro de 2017

Comidas do arco da velha

No tempo dos nossos avós havia comidas do arco da velha. É impossível aqui falar de tudo, mas deixo algumas só para recordar e quicá aguçar a gula...
Torresmos de carne gorda, que hoje se despreza e envia para o lixo, por criar ou agravar doenças. O bucho cozido e o redanho frito. Muito bom!

redanho frito

Ainda do cevado, assim era designado o porco destinado à matação, duas especialidades muito apreciadas na nossa terra: a morcela, feitas com a sangria e gorduras do animal desfeitas, pão de trigo, cominhos, salsa picada e cebola estrugida em azeite; e a sopa da matação a cheirar a cominhos, feita com água da cozedura das carnes do porco salgadas, couve de cortar, temperos e pão de trigo. 
O toque de Midas, são os cominhos!
Do outro mundo, ainda as papas laberças, feitas com couve galega e temperos, farinha de milho e por esta altura regadas com molho de vinha d'alhos e as papas gordas que se comiam pelo Entrudo, feitas na água onde se coziam as carnes e sobretudo uma chouriça dos boches que lhe dava um sabor especial. 
Delícia também era a carne da caluva, carne da cabeça e do pescoço do bicho, com feijão.
Depois do Entrudo, termo que tem origem no latim "introitu" e que significa entrada no período pascal em que se diz adeus à carne, comia-se requeijão e queijo curado de apeguilhar com o pão. Ovos fritos com salsa e cebola (omelete) e batatas albardadas com azeitonas curtidas. Lá de vez em quando bacalhau albardado e bolos de bacalhau. Na Páscoa queijo da serra com bolo de azeite.
O caldo de ovo, ainda nos lembra de vez em quando, feito sem artifícios: água, sal, um bocadinho de azeite, pão de trigo esfarelado e no fim ovos batidos.
Mas e o caldo de castanhas secas, piladas, quem ainda se lembra? Uma coisa castanha, bem doce, com as castanhas a boiar?
E as sopas de cavalo cansado?
Comiam-se no campo e consistia em deitar num alguidar pão centeio, vinho, açúcar e água fresca do poço, mexia-se e toca a comer.
E os petiscos selvagens de Outono/Inverno, senhor!!!
Tortulhos, temperados com um pitada de sal e assados na grelha bem quente. Que maravilha!
Míscaros guisados com batata aferventada à racha ou misturados com trigo ou com arroz "carolino", para mim o melhor para se trabalhar.
Bom apetite, sempre com o cuidado de só comer os que são de confiança, essa que nós aprendemos com os nossos avós, que aprenderam com os avós deles a conhecerem os "cogumelos" comestíveis.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Na rota dos almocreves...


Desde garoto que sempre me fascinou o porquê da denominação destes mercadores de ar faminto e meio desmazelado que aquando chegavam a Forninhos, tão depressa vinham como partiam, passavam simplesmente não havendo negócio. Vinham dos restos das feiras das vilas vizinhas e aproveitavam para escoar os seus produtos pelos lugarejos circundantes. Mais tarde vim a saber que tal actividade vinha pelo menos antes dos tempos da idade média, a diaspora que perseguem  até aos dias de hoje. Serem negociantes sagazes e ardilosos,  cada qual aos modos adaptados aos tempo em que viviam.
Ainda hoje em Forninhos se vai recordando o antigo pregão que os de Coruche,  montados em burros e com as mulas carregadas conduzidas pela arreata, faziam ouvir o "trocam-se farrapos à loiça", sendo que os farrapos eram restos de lã pura ou burel e a loiça umas simples tigelas e uns pratinhos para o dia a dia. Burros eram as bestas que montavam, pois de tais os donos de nada, nada tinham...
Do mesmo local e do mesmo modo, vinha a padeira conhecida por tia Beatriz, com o carrego do pão apreciado e que fazia "mossa" à padaria local da tia Esperança.
Convenhamos que era uma animação na aldeia quando estas gentes apareciam com uma panóplia de utensílios, alguns indispensáveis, mas que no modo de fala-barato, iam fazendo negócio por ali e acolá. Tantas vezes iam por ali fora, rumo à Matança,  apeados ou nuns burritos, directos à laige da Maria Fernanda, serra acima, fosse verão ou inverno, tal como os moleiros, uns mártires que com a mula pela rédea, percorriam quilómetros pelo lucro da farinha dos outros, pois deles e havendo algo mais, era pago pelo suar do verão e o inferno das geadas.
Apareciam, volta não volta uns cesteiros que traziam para vender ou fazer por encomenda, sobretudo canastros para as vindimas, alfaiates apeados de chapéu preto descaído na testa, com fita métrica para as medições da largura e da altura, tudo anotado por um lápis que molhavam na boca para depois escrever.
Também alguns dos nossos foram almocreves, por exemplo as sardinheiras que batiam as terras mais próximas e que na falta de dinheiro recebiam em troco um negociado punhado de ovos, nossos afamados mestres pedreiros que passavam temporadas longe dos seus, por lugares distantes se renderem à sua categoria e encomendarem obras de igrejas e capelas ainda hoje veneradas, andando de terra em terra.
Outros havia que não sendo da terra, por esta eram recebidos como seus.
Permitam, o Vasco da Matela, finalmente reconhecido como o Mestre Vasco, latoeiro, um amigo de sempre e requisitado para expor a sua arte em tudo o que  é artesanato. Forninhos era a sua segunda casa, tal como porventura outras por onde deambulava para remendar ou fazer coisas novas. E fez tantas...poucas casas das mais antigas terão um bocadinho da sua arte, nem que seja uma panela remendada com um cú novo, uma panela ou funil, enfim!
O Vasco é "V", assim a gente brincava com ele e  sempre gostou .   
As memórias vão-se esbatendo com o tempo, pois nele se entranham e fenecem na veracidade da vida, tais como outro tipo de almocreves, aqueles que apareciam para remendar a loiçaria, pratos, travessas, as melhores coisinhas que se podiam colocar na mesa em dias de festa, mesmo que presas por arames por debaixo da solenidade.  
Todos cavalgavam a vida conforme as marés que esta ditava e a tal tiveram de se acostumar, como quando aparecia uma camioneta com porcos para criar, coisa estranha por estarem habituadas a andar com eles a pé, quando iam ou vinham das feiras, de um senhor chamado Aníbal dos lados do Eirado.
Outros houve que reconhecidos pelas suas artes, deambulavam de terra em terra, os amoladores, capadores e esfoladores, sendo que destes destaco o tio Chantre da Matela que era quem na Páscoa esfolava lá em casa sempre o cabrito.
Por vezes e podendo, voltavam a casa ou então por necessidade ou trabalho, se acomodavam no melhor que oferecido lhes aprouvesse, tal como os ciganos, não os que agora deambulam pelas feiras, mas aqueles que assentavam arraiais durante dias ou semanas, quase a troco de nada, os da minha meninice...
Há pouco tempo, duas semanas, tive o privilégio de estar com os que por aqui vão restando, amáveis, honestos, trabalhadores e trouxe um lindo cesto de verga por eles feito.
Pena mesmo, é de já não se ouvir o pregão de alguns almocreves "quem tem lenticão para vender", nem a gaita do amola-tesouras "...amola tesouras, facas, navalhas..."  a anunciar o tempo!
Mas e pelos vistos, a rota ainda continua aberta...