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quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Postal de Natal

"Até ao noitecer era um dia igual aos outros, vinha a gente enregelada da apanha da azeitona durante o dia e pela frente havia que ordenhar as vacas, acomodar o porco e só depois de tudo isto, começar a preparar a ceia - especial pois claro - era o dia antes do Natal e havia que cumprir com a tradição: couves, batatas e bacalhau, mas este para quem o tinha...!".

Contado de viva voz  de quem ainda era criança ao tempo 
(por volta dos anos quarenta)


Quem me fez tal narrativa, que agradeço, tem ainda a memória da escassez do bacalhau no pós guerra e do tempo da candonga em que houve por parentesco e amizade ir à estação de Fornos buscar as peixotas de bacalhau e o mais que podia compor uma boa consoada. Tinha um bom cargo no depósito de fardamento da Boa Hora em Lisboa e que não esquecia os seus, correndo os riscos inerentes. 
Louvo esse senhor cujo nome fica comigo.
Mas havia quem bem se aviasse no racionamento da guerra, não fossem eles orientados em parte pela igreja, especialmente um padre de má memória para a terra, através de senhas, de manhã para os pobres e da parte da tarde para os ricos e seus familiares...comer, fechar os olhos e calar!
Voltando à ceia...
"A gente tinha guardado um pouco de leite de ovelha (que valia dinheiro, mas dias não eram dias) e fazíamos as fritas e arroz doce e claro, as filhoses de pão e depois quem quisesse ia pela meia noite à missa do galo. Das coisas mais bonitas o cantar ao Menino".
E à minha pergunta: os sinos tocavam? 
"Pouco, um bocadito, pois os padres viviam ao lado e não queriam ser incomodados...".
Dia a seguir, o Natal!
Borrego temperado de véspera, tudo o que a matança do porco havia dado, frutos secos do que a terra dava e se partilhavam por quem não tinha, tal como o que quase parece um conto real que me fizeram chegar por no dia anterior lhe faltar a pequenez da abundância. 
"Na noite de consoada fui ver como estava aquela senhora idosa cujo nome já te disse. Estava em volta à fogueira com uma panela de ferro a ferver batatas e couves, mas bacalhau, nem vê-lo. Arranjei três rações de bacalhau e consoei com ela, trazendo na volta uma malga de figos secos, foi um belo Natal".
Assim o espero para todos vós!  

23 comentários:

  1. Gosto sempre de ler estas histórias que se sabe serem reais.
    Na minha casa faltava muita coisa, mas o bacalhau na noite de Natal nunca faltou. Meus pais trabalhavam na Seca da Azinheira, e lá sempre houve o hábito pelo Natal dos trabalhadores comprarem o bacalhau que queriam. Depois na altura de receber a semanada,(não se recebia ao mês naquela época na Seca), éra-lhes descontado o valor do bacalhau.

    Amanhã vou para Lagos. As histórias de Natal no Sexta continuarão a sair porque estão programadas.
    Porque em Lagos só terei o Smartphone, e não sei andar pelos blogues nele, despeço-me desejando um Santo e feliz Natal, com saúde e muito amor.
    Abraço

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    1. Bem haja,falaremos antes.
      E quiçá e embora na distância, a gente comemore o " nosso"
      Natal...

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  2. Uma narração de um Natal feliz. Sim, o amor, a simplicidade e a celebração precisam estar presentes para que a felicidade seja perfeita.
    O meu abraço p vocês

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    1. Outros tempos Anete, pelo que ainda me contam e me delicio a ouvir.
      Pessoas desprovidas de vaidade, na singela partilha com o próximo.
      Grande abraço.

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  3. Na nossa consoada, o costume é o bacalhau com batatas, a couve...e o nosso bom azeite. Sempre pensei que devido aquela expressão "para quem é bacalhau basta", alusão a que o bacalhau era um produto barato e de pobres o havia em todas as casas! Mas, claro, no tempo da II Guerra, não havia comida com fartura, por isso tinha de ser racionada, mesmo que alguém tivesse muito dinheiro, não podia comprar o que quisesse. Isso eu sei.
    Eu também já tive a oportunidade de recolher junto de uma minha tia (criança ao tempo), alguma informação de como era o Natal antigo de Forninhos e obtive um relato saudoso de uma consoada especial, principalmente para os mais novos, porque ao contrário do resto do ano, eles tinham nesse dia a liberdade de sair à noite, até à hora da missa do Galo. Porque segundo a crença popular, nessa noite nada de mau lhes acontecia, porque era o dia do Menino Jesus.
    Na doçaria acho que foi esquecido o pão-leve (pão de ló) e havendo pão-leve e fritas era natural que as filhoses fossem feitas somente com a massa do pão. Que pena que esta tradição gastronómica se perdeu, pois em muitas regiões do país ainda hoje fazem filhoses da massa do pão.
    Agora o que me perturba saber é que enquanto esse padre de má memória enchia a barriga do bom e do melhor, alguns paroquianos passavam fome. Acho que ninguém no seu perfeito juízo tem saudades desse padre e desses tempos!
    Que toquem os sinos e se cante o "Gloria in Excelsis Deo"!

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    1. Lembranças e cá por mim, são enfeites de Natal...
      Na consoada três coisas, o bacalhau (que o Antoninho Bernardo havia vendido a quem levasse petróleo e tripas para as farinheiras e chouriças), missa do galo e depois o cêpo.
      Havia quem proveito tivesse, tal como o padre que falas e o nome digo: Vírgilio (Grilo).
      Hoje os tempos vão idos, já não cai a neve que nos remetia para junto da fogueira, lenhas e galinhas roubadas para nos sufragar a noite, nem concertinas e bebedeiras que nem os sinos a rebate em desafio à guarda chamada pelos padres, tal paravam...
      Vá lá que vai sobrando o que é doce, pois de tantas coisas diz quem manda que é proíbido...
      Feliz Natal.

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    2. Não tenho qualquer recordação vivida de racionamentos nem do Pe. Virgílio que então quando veio para ainda vigorava o racionamento!!
      Nas cédulas de nascimentos de muitos forninhenses ainda deve aparecer na contracapa o carimbo oficial da Intendência Geral dos Abastecimentos e o nº do Posto de Racionamento. Será que alguém desse tempo guarda a cédula pessoal?
      O que lá vai lá vai e ainda bem que o Natal continua doce e, pode dizer-se, a ser marcado por manifestações populares que mantém tradições do agrado da população, como o Cepo na Lameira.

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    3. O padre, o diabo que o carregue para o infinito dos infernos...
      Andei com ele na visita pascal pelas aldeias das redondezas e vim para Lisboa muitos anos passados, recomendado aos seus ofícios, a ele que sendo ainda família, nem sequer me recebeu, mas fiz pela vida...
      Se coisas não se acanham na lembrança por as não querer enterrar, subsiste em mim a parte debaixo da casa dos padres. Latas enormes de leite em pó da Cáritas, acho, barras de queijo similares ao sabão azul e branco no formato. E como ainda hoje, uns levavam mais que os outros na trafulhíce das senhas, mas era um mero gaiato que ia fazer que os meus pais não podiam por andar na labuta dos campos...
      "gente" houve que se governou nesse tempo de miséria em que uma criança nascida se ia registar havendo tempo e dinheiro, nem que um ano se passa-se, mentira?
      E partiram, carregados de terra em vez de sacadas de dinheiro, frios como sempre foram enquanto nós, também comuns mortais, fazemos na continuidade a fogueira de Natal e encostados a ela comemoramos mais um Natal!

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  4. A magia do Natal não se apaga ....por muitos desgostos da
    Vida, por muitas chatices , burrices , birras e vinganças,
    por divórcios, hipotecas e penhoras , trânsito por vias
    entupidas de stress, cidades, infernos , doenças e corruptos,
    ....nada apaga a MAGIA DO NATAL ...
    Do tempo do nossos Avós, da Familia integrada, unida e fiel
    ao principio : todos por um , Um por todos....
    Todos contribuindo ,ora com licores doces e bolos de laranja
    e mel , ora com carne de porco, galinha velha e boa pomada.
    A Noite era de preparos , a Missa do Galo , e o Dia do
    Menino , da Boa Nova. Do renovar da Esperança....
    Pena foi que a " porra" da Vida me tivesse levado minhã Mãe
    nesse dia Especial de 2004....
    Se cá estivesse sentar-se-ia a meu lado e ajudar-me-ia
    a perceber a lógica deste caminho .....
    Mas a Magia não se Apaga....
    Esteja onde estiver orgulho-me de reconhecer que o Natal
    de Maria minha Mãe , era doce , quente , farto e limpo...
    E que...por ela procuro recrear como os Meus ...o Natal..
    De Esperança !!!

    Abr
    MG

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    1. Permita caro António que comece pelo fim: "...De Esperança...!!!
      A tal Magia, não terá e porventura, cobertores que cheguem para mitigar saudades e dores de vida sentida.
      Claro que o compreendo...
      Euforia de momentos, abrandam o não esquecimento, mas ferem pela falta da partilha comungada, mas e como bem diz: "A Magia nao se Apaga".
      Feliz Natal, António, doce, quente e farto...
      Abraço.

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    2. Amigo , Xico

      A Vida não tem a exactidão da Matemática, nem os
      sabores da Poesia, nem muito menos os cheiros
      dos perfumes que nos atropelam nos Shopings do
      consumismo.
      Mas o Natal ,a sua Magia serve de teste de aferição
      uma especie de revisão dos nossos motores, de confissão e, claro , um teste á Esperança ,um apelo
      á continuidade, á resistência . A Magia de Natal é
      ajoalharmo-nos perante o Divino e dizer : Obrigado !
      Obrigado pela Vida ,que ,mas peso menos peso ainda
      nos permite abraçar um doente , um sem-abrigo , dar
      um beijo á vizinha na solidão ,ao colega que perdeu
      um filho ou até levar uma garrafinha especial a quem
      nos ajudou outrora na aflição...

      É que , caramba , sejamos sinceros , a Vida correu
      desta maneira , mas podia ter corrido de outra bem
      pior....O por isso: Menino de Belém ( obrigado !! )

      Abraço a todos os Forninhenses e BOM NATAL
      MG

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    3. Bem-haja.
      Tenho o meu postal de natal...

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    1. Já tive a primeira prenda: mudei de nome por ti!
      Mas o Xico deseja para vós o melhor do mundo.
      Beijos.

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  6. Oi Xico, lembranças de natal...quem não tem? Como diz o Antonio Gouveia, nada apaga a magia do natal, concordo, parece que nos transportamos pra algo mais especial, e tudo fica com uma carga maior de sentimento e emoção.
    Adorei sua narrativa, gosto do jeito que você escreve, tem sempre um modo só seu de contar as coisas, e falar de natal ainda fica mais emocionante de ler.
    Beijos.

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    1. Amiga Fátima:
      Que a tal Magia, mitigue a dor e esse sentimento de esperança, nao deixe que a fogueira se apague.
      Um coração quente é das melhores coisas do mundo e deixe que confesse por não ser segredo, passei alguns só. Duro!
      Mas e sempre com a minha ceia, o meu presépio e a Esperança no futuro.
      Do tanto que a vida nos ensina, sinto que tenho de agradecer, assim a vida fosse infinita.
      O poder partilhar é o mínimo, o recordar gentes e estórias, o mínimo, o ter agora a liberdade de escrever e a todos desejar Boas Fests...uma benção!
      Felicidades, amigos.

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  7. O Natal é mágico e não perde a sua magia ao longo dos anos.
    Aproveito para desejar aos meus amigos um Santo e Feliz Natal.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

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    1. Pode parecer frase desgastada, mas é real a cada ano que passa.
      A gente lê a validade e está sempre dentro do prazo.
      Um abraço e feliz Natal!

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  8. Lembro bem esses Natais Xico.
    Nasci numa família pobre mas na noite e no dia de Natal sempre se comia qualquer coisinha melhor.Que saudades da minha avó ,das minhas tias e da minha mãe,todas na casa do forno a fazer as filhoses.
    Feliz Natal Xico.
    Beijinhos.

    Natália...Porque faço anos na noite de Natal *-*

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    1. OH, OH, OH...
      Talvez na noite de Natal, assim lhe cante os parabéns e eu o acompanhe à distância.
      Pobres ou ricos, em comum havia sempre o calor...humano.
      Os pobres os mais ricos por milagrarem do pouco uma abundância repartida que na hora da ação de graças, todos eram recordados...
      Feliz Natal, para ti e os teus, Natália.

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  9. Boa tarde Xico,
    Magnífico artigo.
    Natais simples, mas que se viviam com o coração repleto de afectos.
    São essas as minhas memórias da infância.
    Calor humano e da lareira onde a minha avó materna ia fazendo as filhoses de boa memória e nós (eu e as minhas irmãs) de roda a comê-las ainda quentinhas.
    Tempos idos, mas que também gosto de recordar.
    Beijinhos e santo Natal para si e Paula.
    Ailime

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    1. Ailime, amiga...
      Curiosamente, nestes dias de alegria, vem sempre um sopro de nostalgia que nos toca. A lareira era diferente, aquele o cantinho da ti Ana que não arredava da fogueira, tudo enquanto os cheiros misturados das carnes temperadas de vésperas, se misturavam com os das doçarias...
      Quem estorvava e sem mais o que fazer...cantava e alegrava.
      Raios das velhas, as primeiras a provar e aprovar...
      Beijinho grande nosso, Ailime.

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  10. Natais de outrora com sabor a doce recordação!!!
    Um SANTO Natal para todos os forninhenses!!!

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