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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

História da Festa de Natal da Comunidade


A história remonta há 9 anos atrás quando a Junta decidiu fazer um convívio e encontro, fornecendo uma Ceia de Natal a toda a população da aldeia. O objectivo primeiro era o de aproximar as pessoas, uma vez que após as eleições autárquicas de 2005,  havia algumas desavenças políticas e 'à mesa' é mais fácil a aproximação.
Nota: digo fornecendo e não oferecendo porque não foram os membros executivos, nem os deliberativos da Junta de Freguesia de Forninhos, que pagaram a ceia de Natal dos anos 2007 e 2008. Quem pagou foi a Junta que é a entidade que gere os dinheiros do povo de Forninhos. Portanto, a ceia foi paga pelo povo, com o dinheiro da sua Junta!
Novas eleições, Junta nova e no ano 2009 a Junta de Freguesia em colaboração com a Igreja (e catequese) decidiu realizar a ceia de Natal com toda a comunidade forninhense, pagando no acto da inscrição os adultos € 7,50 e as crianças nada pagavam. A receita reverteria a favor da Igreja e catequese. 
Pode tudo confirmar aqui (um dos primeiros post´s d'O Forninhenses).
Este são convívio fez-se no ano seguinte, mas a ceia de natal já não se fez/faz,  a Junta decidiu antes organizar um almoço para o seu povo e sem a colaboração da Igreja. Toda a aldeia é convidada a participar e os visitantes também são bem-vindos, mas cada um tem de pagar o seu, assim como nos anos consecutivos em que se realizou. Só os membros da Junta e os da Assembleia de Freguesia de Forninhos é que não pagam tal almoço!
- Porque é que essas pessoas que até recebem ordenado e por cada participação nas Assembleias, não pagam o seu almoço também? Pergunto eu.
- São mais que os outros?
- Será que os habitantes e visitantes da aldeia são quem pagam o almoço de 'S.Exas.': Presidentes, Tesoureiro, Secretário e de todas as pessoas que constituem a Assembleia de Freguesia de Forninhos?
- Se não acreditam, peçam à Junta que apresente as contas dos almoços ou perguntem àqueles que em anos anteriores puderam sentar-se à mesa sem pagar!
Concluindo: talvez em 2010 se tenha assistido ao encerramento de um ciclo...vamos esperar por 2017.
Apesar da desigualdade e injustiça, desejo a todos uma boa festa e melhor receita para a Junta de Freguesia.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Ia um Dezembro muito rijo

Sempre me deliciou a maneira com os nossos mais velhos falam e falavam. Umas vezes percebia, outras nem tanto, quando alguém dizia: 'vamos à ceia' ou 'vamos à deita' eu percebia, mas quando se dizia: 'o caldo de berças já está em cima da mesa' procurava perceber de onde vinham aquelas palavras que não estavam no 'meu' dicionário. 
É neste contexto que aqui deixo mais uma passagem de Aquilino Ribeiro, porventura o escritor português mais notável no que se refere à escrita regional:


Cearam essa noite, muito tristes, caldo de berças com pão de rala. Os filhos foram à deita e ela quedou ao borralho, estranguida de frio, a fiar. O inverno zurrava nos pinhais que parecia uma estropeada de mil demónios a caminho do inferno. A sineta, com os sacolões do vento, tocava dlam...dlam e mais dlam a um enterro que não tem fim. Sobre as telhas ia grande estreloiçada, chuva, vento, como se andassem por riba delas rebanhos de cabras, ou feiticeiras jogassem para lá com areias às mãos fartas, para tormentina das almas...
Ia um Dezembro muito rijo e custava já a passar nas pontes.

AQUILINO RIBEIRO, Terras do Demo.

caldo = sopa 
berças, são as chamadas couves galegas (que normalmente compram já migada para o caldo verde).

Foto retirada da página Forninhos Transparente que pode consultar através do facebook.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

PARTEIRAS DA NOSSA ALDEIA



Ainda pouco passou do meio século sobre o tempo em que as mulheres pariam em casa, entregues e confiantes nas mãos experientes de quem não sabia ler nem escrever, mas que "acanavam" os meninos na hora do parto.
Ainda hoje se diz que tinham um dom, eram jeitosas para salvar e trazer novas vidas ao mundo e sendo chamadas (curiosamente as pessoas mais idosas e vizinhas), céleres se deslocavam apeadas a casa da parturiente dando ordem de água quente na caldeira da lareira, panos lavados e uma tesoura para depois cortarem o cordão umbilical . 
Apenas isto...e a sabedoria, que ao que consta jamais deixaram perder no parto uma alma,não sendo a tia Luisa que morreu no parto, mas sem culpas, afinal médicos e hospitais, apenas ouviam falar numa terra sem estradas. Tudo ficava tão longe que a vida tinha de continuar nos seus modos ancestrais, afinal eram a prova cabal de sobrevivência e multiplicação.
Muitos dos partos eram feitos na cozinha  por terem as coisas ao dispôr e se o parto demorava, esfregavam uns pingos de azeite para apressar, mas o mais certo era esperar e depois ver se era menino ou menina pois as histórias da barriga para determinar o sexo, eram muito falíveis.  
O maior medo, era que a criança estivesse virada ao contrário, tal como aconteceu com a minha irmã mais velha que não trazia a cabeça bem direita e a vizinha chamada, a ajudar, a mulher do tio Luis Pego, ajudou a que tudo terminasse em bem.  
Houve muitas mulheres em Forninhos que tinham o "dom" e depois do bem sucedido parto, mais tarde a garotada exibia em defesa da sua parteira, o umbigo "bem curado" por ela.
O meu e das minhas irmãs, foi a minha avó Maria da Lameira, mas o meu irmão e com ela já falecida, foi a tia Maria Coelha, avó da Paula, Uma trabalheira, pois verificou-se que eram gémeos e a menina nasceu morta, sendo de louvar que salvou o outro. pela sua mestria e entrega.
Tinha eu dez anitos e recordo como se fosse hoje, chegar junto à porta da cozinha e ver toda aquela azáfama e muito fumo, afinal era Novembro e muito frio; lembro um petiz roxo a berrar, uma bacia e ele a ser enrolado em panos brancos...
Outras houve, tal como a tia Prazeres da Barbeira, mãe da tia Pincha, e a trisavó da Paula, a avó Dulce que segundo perdura nas coisas contadas, era a mestre de "acanar" os rebentos.
Também houve quem não tivesse parteira ao lado. 
A tia Correia que indo buscar o correio ao comboio de Fornos e tal trazia depois da Matança para Forninhos, lhe rebentaram as águas em plena serra, nas Lageiras e ali teve sozinha o rebento e ficou para contar...  

sábado, 19 de novembro de 2016

Cantigas de Embalar

Hoje trago mais umas cantigas da minha terra. Desta vez: as de embalar...
Uma cantiga ou canção de embalar é uma cantiga que as mães, avós, ou as amas canta(va)m aos bébés para os fazerem dormir mais depressa. A cantiga de embalar tem a particularidade de ser uma melodia calma e com ritmo lento que convida a adormecer. As que as mães e avós de Forninhos cantavam vezes sem conta são "dorme, dorme meu menino", "rouxinol de bico preto", "Ó papão vai-te embora...".



Aqui ficam para recordar:

Dorme dorme meu menino
Qu'a mãezinha logo vem
Foi lavar os teus coirinhos
À fontinha de Belém.

Rouxinol de bico preto
Deixa a baga do loureiro
Deixa dormir o menino
Que está no soninho primeiro

Ó papão vai-te embora
Vai p'ra cima do telhado
Deixa dormir o menino
Um soninho descansado.


As noites eram escuras como o breu, às vezes ruidosas pelas rajadas do vento que vinha dos lados de Trancoso, pelo piar das corujas, pelo latir dos cães, pelo ranger das portas das casas velhas que batiam com o vento, pela escuridão das entradas dos pátios...por isso a criançada acreditava mesmo no papão. Mas antes de nós os adultos já acreditavam. Não podemos esquecer que no pós-guerra, na nossa terra, o que predominava era a superstição e os mitos.

sábado, 12 de novembro de 2016

ECOS DO PASSADO...

Mais um ano gratificante de partilhas e registos para tantos que nos acompanham, duro, claro, nas pseudo indiferenças mordazes e crónicamente veladas, mas que não suplantam o reconhecimento dos ausentes aquando regressam à aldeia e recebemos aquele abraço de gratidão ou um bem-haja.  
Aqueles que aqui comentam, aqueles milhares que aqui procuram algo de diferente, um abraço a todos, um bem hajam e que venha mais um ano! 

Agora o resumo

Mimos: "A Rainha Santa Isabel, replicava ao esposo "são rosas, senhor...", as nossas gentes dizem na sua simplicidade que "são apenas uns miminhos...".
Mimos de Outono(...) pão de centeio que aguenta dias seguidos...marmelada caseira que no rasto ainda deixa a geleia para todo o ano...castanha sem marca, apenas a nossa castanha...míscaros que pouco aguentam, mal chegaram e já se foram..."

2
Filhóses de pão: "Pequenas bolas, mal amanhadas, mas que a canalha devorava pela gulosa prenda que as levava a lamber os restos de açúcar.
(...) até a cevada semeada para o gado depois de moída servia para fazer bolos deliciosos com o mesmo método: os bolégos, a que agora mais guarnecidos, chamam de sonhos."

3
O marrano: "Quando alguém precisava emprenhar uma das duas porcas parideiras, pedia a alguém da aldeia que tivesse um porco adulto não capado para alugar. Era um ciclo anual vindo de tantas gerações em que por vezes se fazia mais de meia légua a pé, conduzindo por caminhos escombrosos a porca que estava aluada a partir dos cinco meses e que por sinais da "serventia" inchada tal como as tetas, "pedia que a chegasem" ao marrano."



4
Ecos do Largo da Lameira: "Airoso o Largo, que acomodava almas na sombra da varanda velha, algumas mais do que ela...
Os jogos domingueiros batidos nas malhas pelos homens, a panelinha mais pelas mulheres...
Por detrás, na taberna eram batidas as cartas enquantos as mulheres faziam correr o tempo de conversa de regressar a casa a ter a ceia pronta.
Ainda hoje nestes bancos de pedra perdura nos mais velhos a saudade vivida ou contada."

5
O cardo: "Pergunto se ainda lembram o cheiro do cardo e ao menos a sua forma? Agora vê-se pouco, pelo que os mais novos soltam a indiferença num ombrear, desconhecem ser a sua flor a responsável pela coagulação do leite que dá origem ao famoso queijo da serra..."

6
Mães de peito: "Noutro tempo havia muitas mulheres paridas e muita gente mal nutrida, assim, apesar de seios avantajados, faltava nutriente para os rebentos. Havia muitos meninos e pouco leite. Recorriam então a quem lhes pudesse dar o peito para mamar por "esmola", sendo que eram considerados "filhos da esmola"."
E estas mães de peito, podendo, para se nutrirem a si, aos seus e dos outros, bebiam o segundo litro de leite cru de vaca, da ferrada da ordenha."

7
Caminhos bastardos: "Deixado para trás, por motivos políticos, demorou o caminho dos Moncões quase uma eternidade a ter a dignidade merecida. Condigno, agora se apresenta com saneamento e alcatroado, mas creio que os moradores do alto da Estrecada, pelo menos um casal, jamais irá esquecer o motivo de tal abandono."

8
Cantilenas de Maio e o trigo do sacho: "Colhido maduro por alturas de Julho e depois malhado a mangual para moer. Antes tinha de ser lavado, esfregado e colocado ao sol, antes de ir para o moinho dos moleiros que recebiam em dinheiro ou por maquia, naqueles tempos de fome."

9
Saudades dos cegos papelistas: "(...) traziam e cantavam histórias trágicas, verdadeiras ou inventadas que as aldeias tomavam como suas ou pelo menos parecidas e por tal revelavam nas suas cantorias...
Ainda hoje se ouve "Coitada da Maria Alice/Foi levada pela doidice/Para a casa da degraça/Seus pais à procurada dela/Lá a viram numa janela/A dar beijos a quem passa."

10
Forninhos: Festa do Espírito Santo: "Está a chegar o dia do Espírito Santo. Porventura uma das romarias mais singulares e veneradas pelas aldeias vizinhas que guardavam para na altura cumprir, promessas, numa intensidade de fé e caridade que ainda hoje subsistem.
Hoje fiquei triste ao ver o cartaz das festividades (...) pela ausente referência para com a Irmandade de Sezures/Esmolfe, a Irmandade mais antiga e ferverosa...".

11
Ao redor de Forninhos: "...) No curto passeio, searas de centeio que ondulavam por debaixo de uma algazarra de andorinhas que o vento levava. Pensava que tal tinha acabado, mas não.
Um homem com uma gadanha!
Ganhei o dia, gritei!"

12
A boina à espanhola: "Gosto imenso de coisas antigas e marcantes, coisas que nos tocam, tal como a boina conhecida por basca, mas em Forninhos por boina à espanhola.
A boina à espanhola, era preta com um espigo na corôa, forrada de seda ou coisa parecida, sendo que meio século atrás, na Feira Nova ou em Trancoso, o seu custo rondava os 5$00 (cinco escudos), dizem os mais antigos."