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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

OS RETIROS

Uns partiram à busca de melhores vida por cá e lá para fora, outros ja haviam partido e mandavam cartas de chamada para as Américas; damos por nós na volta dos anos sessenta agarrados à rabiça do arado e à enxada, as armas dos que iam restando pois os braços mais rebustos iam pegar nas armas da guerra no ultramar, para defender o sonho de um louco.
Ficaram muitas mulheres (mais tarde viúvas), crianças (mais tarde orfâs), e uns quantos homens e mancebos na agonia da miséria e ansiedade pela sorte dos seus, vulneráveis a tudo o que lhes podia acudir. Queriam esperança para o dia seguinte, queriam notícias da carteira que esperavam à porta do pátio, sonhando com tudo menos o aerograma, pronúncio de morte.
A "mão divina", vem em auxílio desta gente desesperada, semeia nas sua homilias a mensagem de oração e reflexão, incentiva e fortalece associações sob a tutela do arciprestado, tal como a Juventude da Associação Católica que tantos teatros montou, pois crianças não faltavam e havia que as catequizar, mas e isto desconhecia, os homens tiveram direito à  Formação da Liga Eucarística dos Homens. O Salazar não era "burro" e pelo braço dos esbirros, entendeu que a vantagem das mulheres de nada valiam.
No meio de tantos interesses, era premente a aparição da "mão divina", os padres e o seu séquito que num instante e fruto da maldição dos pecados perdoados na confissão, mas não esquecidos, convencem esta gente nobre mas analfabeta a fazer um retiro espiritual, para acreditarem na Providência e no sentido do sacrifício.


Aqueles que foram de Forninhos, foram na maioria  durante três dias para o antigo seminário de Viseu (foto) e nem quero imaginar o modo com oali entraram e saíram, longe dos seus e hábitos diários.
Um dia na Casa do Retiro, começava ao levantar, oração, pregações e meditação, leituras, almoço, mais leituras, lanche depois do terço e outra vez a capela para a oração da noite e deitar.
Não perguntei se isto era pago ou por quem, afinal insondáveis são os mistérios do Senhor, mas no meio desta pesquisa ouvi alguns desabafos acerca das senhoras do JAC, eram o clube das solteironas e beatas.
Acerca dos homens fiquei a saber  que muitos davam catequese e que tinham uma Liga com o privilégio de uma vez por mês cantarem na missa dominical, no intitulado Dia da Liga:

"Homens alerta
À frente unidos
Com Cristo-Rei
Todos a marchar
Sejamos bravos
Lutar a vida
Nós faremos
Cristo-Rei reinar"   

Se era para aprenderem isto nos retiros, mais valia terem ficado em casa e não ficavam "agarrados".

domingo, 27 de janeiro de 2019

Forninhos no Séc. XIX

Já sabem que a freguesia é composta por duas povoações: Forninhos e Valagotes e que a povoação mais habitada da freguesia, que é Forninhos, divide-se em dois lugares: Lameira Lugar. Já aqui abordámos esta matéria em textos anteriores, mas somos "obrigados" a voltar a ela, na sequência do artigo de João Nunes no n.º 18 da Revista de História da Sociedade e da Cultura, em que "é possível entrever uma realidade que tem sido pouco estudada e por isso, ou talvez por isso, objecto de generalizações e simplificações que acabam por ser redutoras da realidade".
É sobre os espaços populacionais em meados do século XIX que falaremos hoje, "sendo o Lugar e a Lameira os mais densamente habitados...Lages e Outeiro eram igualmente espaços habitacionais, a despeito de serem habitados por um número inferior de habitantes quando comparados com os restantes". 

Lameira antiga


"Entre 1675 e 1864 a população duplicou (à entrada do último quartel do século XVII, contavam-se apenas 215 pessoas, sendo que em 1864 já eram 451 habitantes). 
Em inícios da década de 1860, o grosso da população ativa de Forninhos, vivia da prática agrícola: 70% dos individuos eram jornaleiros, lavradores, seareiros ou proprietários. Os restantes, cerca de 1/3 dedicavam-se a diversos ofícios profissões.
Os lavradores eram, maioritariamente, do género masculino e oriundos de famílias de lavradores.
O trabalho à jorna era exercitado, quer por homens, quer por mulheres. Também a categoria proprietários acabava por ser indistinta no que se refere ao género. José Fernandes de Figueiredo e Escolástica Moreira, que habitavam na Lameira, eram considerados proprietários.
Quanto aos ofícios alguns eram desempenhados por homens, caso dos carpinteiros, ferreiros, sapateiros ou alfaiates, sendo os ofícios ligados à fiação (fiadeiras e tecedeiras) ou à costura desempenhados exclusivamente por mulheres.
Algumas actividades eram desempenhadas indistintivamente por homens e mulheres, caso dos seareiros, moleiros e taberneiros. Por exemplo, num registo de batismo de 1862 refere-se que a Madrinha era Maria de Albuquerque, taberneira. 
Refira-se que as tabernas da localidade eram locais sombrios e pouco higiénicos. 
O maior etnógrafo e antropólogo português, Leite de Vasconcelos, que percorreu o país de uma ponta à outra, em 1896, descreve a "casa da venda" de Forninhos, como uma "escura espelunca onde ninguém veria nada". Era constituída pela venda e por uma "quintã pegada à casa, recinto descoberto correspondente exactamente aos páteos ou pátios da Extremadura" (Vasconcelos 1927: 132).

Os grupos sociais

Os grupos sociais estavam distribuídos pelos espaços habitacionais de forma particular. 
No Lugar: vivia um número considerável de jornaleiros (em treze indivíduos que habitavam este núcleo populacional, nove eram jornaleiros). 
Na Lameira:  estavam sediados, regra geral, as famílias de proprietários e lavradores (num grupo constituídos por seis pessoas que viviam no local, quatro pertenciam a estas categorias). 
Curiosamente ainda hoje é possível entrever a distribuição dos grupos sociais pela dimensão das casas tradicionais na localidade. As de maior dimensão estão sobretudo concentradas na Lameira, sendo as habitações do Lugar mais pobres.

Os proprietários estavam na cúspide da hierarquia. A forma como eram tratados, com particular deferência, espelha a importância que detinham no seio da comunidade. A utilização do epíteto "dona" estava reservada ao género feminimo desta categoria. Em inícios da década de 1860, a proprieária Escolástica Moreira era tratada desta forma (ADG, Paróquia de Forninhos, Baptismos, II-A-1.2 Cx 8, fl. 33v-34).

Os lavradores e os seareiros ocupavam os lugares intermédios da sociedade local. Pertenciam a diversas famílias, por exemplo, Marques, Almeida, Cardoso. O património que detinham era constituído por imóveis e propriedades fundiárias.

Os jornaleiros ocupavam os patamares inferiores da sociedade. Tratava-se de gente muito pobre. Sinal revelador de pobreza e marginalização social era o facto de as mães solteiras serem, por norma, jornaleiras. Dos cinco casos que foi possivel contabilizar, entre 1860 e 1862, quatro eram jornaleiras, sendo uma tecedeira. 

Uma nota muito pessoal
Aqui ficam os nossos parabéns por este maravilhoso artigo. A Publicação assume uma abordagem distinta relativamente às monografias locais, pois explana com profundidade as diferentes dimensões que marcaram a vida da freguesia: social, religiosa, cultural e etnográfica. É muito bom ler nomes de lugares, de pessoas e famílias que contribuiram decisivamente para a história de Forninhos.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Forninhos na Revista de História da Sociedade e da Cultura

Depois de "Forninhos na História da Diocese", João Nunes volta com este trabalho sobre Forninhos. "As fontes utilizadas são de tipologia variada: registos paroquiais; inventários; relatórios; censos... certas fontes do Arquivo Histórico Militar permitiram ainda sinalizar a existência de vias de comunicação relevantes, que atravessavam o planalto beirão, no séc. XIX, sendo que uma das principais passava precisamente por Forninhos"


Já conheciámos o itenerário que ligava Viseu a Trancoso: Viseu -Povilde-Roriz-Esmolfe-Sezures-Forninhos-Penaverde-Casaes do Monte-Venda do Cego-Trancoso (este era o itenerário que fazia o Correio entre Viseu e Trancoso); através deste artigo ficamos agora a conhecer uma importante via de comunicação interior/litoral que ligava Almeida a Coimbra, cujo percurso era o seguinte: 
"Almeida, Pinhel, Trancoso, Forninhos, Viseu, Sabugosa, Criz, Galhano, Coimbra (Eliot 1811:298)".
A Travessia do Dão junto a Forninhos, como já o escrevi, acabava por ser feita através da ponte de madeira mencionada na correspondência de António Joaquim de Morais, oficial da Secretaria de Estados dos Negócios Estrangeiros e de Guerra, datada de 14 de Dezembro de 1805.

A freguesia
É composta por duas povoações: Forninhos e Valagotes

Forninhos "Até ao Séc. XVI, a localidade chamava-se Fornos; em 1258, possuía esta designação, sendo que no ano de 1527 ainda se mantinha este topónimo. Na segunda metade do Séc. XVI, passa, contudo, a ser utilizado o diminuitivo para a designar. Em 1590, já aparece referenciada enquanto tal; num registo de batismo da vizinha paróquia das Antas, lê-se que os padrinhos eram oriundos de Forninhos (ADV, Paróquia das Antas, Mistos, Cx I, n.º l, fl. 3)".

Importante
Tínhamos recuado até ao processo dum membro do Clero, que era natural de Fornos de Algodres, mas morador em Santa Marinha de Forninhos, o qual foi acusado (concubinato) em 16 de Abril de 1617, portanto já nessa altura esta povoação era Forninhos. Mas agora temos um registo de batismo de 1590.

Valagotes "No século XVI ou alvores do séculos XVII, surgiu a povoação dos Valagotes; em inícios do século XVII, o local já era habitado sendo designado "quinta dos Valagotos". "Num baptizado ocorrido em 1634 foram madrinhas "Maria Vaz e Catarina Luiz mulher de Francisco Fernandes moradoras na Quinta dos Valagotos desta freguesia". 
"A designação "quinta" indicia  que se constituiu a partir de uma unidade de exploração agrícola".

Continua...
No próximo post serão abordados os grupos sociais de Forninhos a partir de diversos registos.

sábado, 12 de janeiro de 2019

Do cagadouro à retrete


O

Situavam-se por toda a aldeia, coexistiam com os homens e periodicamente matavam a torto e a direito. Na época contemporânea, a freguesia de Forninhos foi afectada por várias epidemias, por detrás das epidemias estava o estado deplorável de salubridade.
Mas, primeiro há que explicar o que eram os cagadouros. Eram autênticas estrumeiras públicas, onde as pessoas vazavam os penicos e onde principalmente "arreavam a calça", tudo normal para a época, até a ignorância do perigo que era ter uma estrumeira/lixeira a céu aberto, com a consequente difusão de bactérias, principalmente na época de chuvas. Em 1911, num relatório dirigido à Direcção das obras públicas do Distrito da Guarda, refere-se:
"São causas de insulabridade as estrumeiras nas lojas, pateos e nas ruas. A água do único chafariz que a povoação tem, em ocasião de chuvas fortes é de fácil inquinação por as enxurradas se misturarem com ella. A água provem de duas minas e a entrada para uma d´ellas em declive até serve de latrina da vizinhança como tive ocasião de ver!! De modo que, quando chove fortemente, a enxurrada lá arrasta para dentro da mina toda a inundice e porcarias depositadas à entrada da mesma. De tanta inundice, pois, e da inquinação das águas deverão provir por certo as graves doenças que de tempos a tempos afligem a população". (artigo de João Nunes, sobre Forninhos, Revista de História da Sociedade e da Cultura, n.º 18/2018). 
Eu, confesso que não fazia ideia de que na minha terra em 1911 houvesse apenas um chafariz! Quando era pequena havia vários.
Tinha-se de passar com cuidado, de noite é que era mais complicado, então no tempo chuvoso era mesmo uma lástima; mesmo de dia podia-se levar com uma penicada em cima.  Era assim em toda a parte. Ficou célebre o rei francês que levou com os dejetos que a mulher atirara para a rua. A fim de evitar que tal voltasse a acontecer, não proibiu aquele mau hábito, apenas impôs a obrigação de gritar "Água vai!" antes de lançar as porcarias pela janela, a fim de as pessoas terem tempo de se desviarem.



Depois nos anos 70 começaram a aparecer as retretes de madeira, construídas nos pátios das casas e quintais, com um buraco para os despejos. Havia uma na casa do meu avô Cavaca, outra na casa do tio Zé Saraiva, na casa do tio Augsto Marques também me lembro haver uma e no páteo da casa da tia Rosa/Zé Pego também lá estava uma retrete. As coisas foram melhorando, mas muito lentamente, até chegarmos ao final dessa década. Forninhos teve então rede de água e embora a rede de esgotos chegasse mais tarde, algumas pessoas começaram a ter quarto-de-banho e notou-se uma gradual diminuição da utilização dos cagadouros, pelo menos já não faziam fila indiana...