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sexta-feira, 23 de maio de 2014

Jogos de cartas

forninhenses a jogar ao burro


No ano passado, no começo do Outono, falei aqui que os serões antigamente, no tempo em que as pessoas não tinham televisão, eram passados nas casas de familiares e vizinhos. As raparigas faziam renda, dobavam novelos, contavam advinhas e anedotas, jogavam às cartas ou simplesmente passavam o serão a conversar de dois assuntos: de tudo e de nada. Mas como esta forma de viver e conviver perdeu-se na voragem dos tempos e hoje tudo é diferente decidi publicar esta foto tirada num domingo ou dia santo e arquivar o nome e técnica dum jogo de cartas - o jogo do burro - um dos jogos de cartas tradicionais que pelo conjunto limitado de regras e as estratégias de jogo simples, era especialmente jogado pelas crianças, mas geralmente os pais, mães e avós também se entretinham a jogar com os filhos e netos, pois podem jogar entre 2 e 6 jogadores, assim como rapazes e raparigas. A foto foi cortesia da Natália 'Cavaca', mas se alguém de Forninhos reconhecer os elementos ou reconhecer-se que identifique ou identifique-se. Não dói nada.

***
No início cada jogador recebe 4 cartas, sendo as restantes (o burro) colocadas no centro da mesa, iniciando o jogo o jogador à direita de quem distribui as cartas. 
As regras são simples:
É obrigatório assistir, isto é, jogar uma carta do mesmo naipe;
Ganha o direito a iniciar a próxima jogada o jogador que colocar a carta mais alta;
Se não tiver para assistir o jogador vai ao baralho - retirar cartas até sair uma do mesmo naipe - no caso de acabar o baralho, passa a vez ao jogador seguinte;
O jogo termina quando um jogador fica sem cartas;
O número de cartas na mão dos restantes jogadores, que são o número de anos de burro, é registado e pode dar-se início a um novo jogo, após baralhar as cartas e distribui-se novo jogo; 
Os resultados são mantidos ao longo de vários jogos.

***
Jogava-se também muito à bisca dos 7 ou dos 9; a sueca e o chincalhão (ou truque/truco) jogavam mais os homens nas tabernas. Ainda hoje são jogos populares praticados por homens nos cafés de Forninhos. O jogo da sueca, dizem, foi inventado por 4 mudos, ao contrário o chincalhão é um jogo "falado" e de "bluf" com truques e sinais. A origem é incerta; especula-se que tenha surgido dos mouros, porém não há consenso a esse respeito. Se calhar na noite que um ataque surpresa dos cristãos, incendiou, destruiu e expulsou o povo da mourama o rei e a sua corte jogavam ao chincalhão (ou truque/truco). Para melhor entender vale a pena ver aqui: A Lenda da Cadeira do Rei.

40 comentários:

  1. Conheço três dos jogadores, mas quem quiser que procure saber...
    Atrevidote, gostava de ir espreitar o que os "namorados" andavam a fazer, nem imaginando que rapazes e raparigas podiam andar juntos, mas era assim...
    O jogo do burro, era como diria agora um grande da comédia, "coisa de meninas" e eles tinham de aprender a aguentar. Mas um jogo de alto gabarito social ou então estes "burros" não se tinham para tal aperaltado, mas que ficaram bem na fotografia, ficaram. Falta saber quantos anos, os que perderam, ficaram burros, pois findo cada jogo, os gritinhos adolescentes: "conta, conta lá, quantos, quantos?" e olhavam de soslaio para a catraia como que dizendo que não era assim tão burra, era jogo de azar, talvez aprendido com o cuco ramalheiro: "quantos anos estou solteira".
    Jogo, jogo, era o dos homens já com barba rija e de poucas falas: sueca e chincalhão. Metia medo e respeito, pois ali se jogava fama e nome e ai de quem abrisse a boca da parte dos que viam. Se quisessem e soubessem que amochassem no banco.
    Nós, os putos, às escondidas, era o montinho, sete e meio mais a lerpa.
    Mais fortes que os homens que jogavam a copos de vinho. Não senhor, a gente era a doer, a sério: com rebuçados!

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    1. No meu tempo era mais aos gelados "perna-de-pau" e "super-maxi", naquela altura custavam 7$50, cada.
      Jogávamos muito à bisca e ao keips nas escadas, patim, da tia Adélia e a equipa que perdia pagava os gelados :-) que se compravam na venda do José Matela.
      Digo equipa, mas os jogos eram jogados com 4 jogadores. Os jogadores sentados frente a frente jogam como uma equipa.
      Mas também joguei muito ao burro (comum e em pé). No burro em pé as cartas tiravam-se do baralho em pirâmide, sem a derrubar. Jogava-se muito essa variante também. Lembras-te?

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    2. Claro que lembro, mas era mais para meninas, a nao ser que osmiudos fossem obrigados a jogar pelas irmas mais velhas para fazer numero.
      E ficavamos amuados e a vinganca vinha em abanar a mesa para o baralho cair.
      Era o boicote do jogo...

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  2. Que legal esse jogos em família.Aproximam mais ainda! Aqui jogava-se burro e quem perdia, era marcado com um carimbo de rolha. Ao final todos estavam sujinhos,rs beijos,lindo fds! chica

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    1. Muito interessante essa "praxe" que como disse deixava quem perdia sujinhos. Noutros tempos faziam-se coisas fantásticas para divertimento de todos nós. :-)
      Um bom fim de semana, beijos**

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  3. Gostei muito de ler este texto sobre a maneira como as pessoas passavam os seus tempos livres. No fundo a televisão veio, em alguns casos retirar esse convívio.
    Embora já com televisão, também eu me lembro de dobar lã com a minha mãe e fazer renda, sim, porque a minha mãe queria que nós aprendessemos de tudo um pouco, e eu lá tive de fazer uns quantos naperons e uns quantos entremeios para lençóis, do que não estou nada arrependida porque hoje tenho alguns lençóis muito bonitos...:-)
    E também joguei muito burro e muita bisca, por influência da minha avó que era uma jogadora de cartas exímia. Sueca e chincalhão nunca joguei, nem faço ideia como se joga. Curioso que o jogo de cartas caiu muito em desuso à excepção de algumas pessoas mais velhas, sobretudo homens. Há anos que não jogo, costumava jogar com a minha filha quando ela era pequena, mas hoje ela já não está para aí virada...:-)
    Bom fim de semana, Paula.
    xx

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    1. Também dobei e fiz crochet em lã, mas jogar cartas era quase todas as noites, no Inverno; tardes, hora da sesta, no Verão.
      Com a minha avó paterna também joguei muito ao burro, na casa dos meus pais e também na casa de uma tia minha, irmã do meu pai, onde passei alguns serões na minha meninice.
      Até aprendi a jogar sueca e chincalhão, mas eram jogos de homens, como disse o Xico, nem as nossas avós achavam bem as suas netas jogar ao chincalhão ou sueca. Se vissem diriam assim: "Que pouca vergonha".
      Bom fim de semana também, Laura.

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  4. Fotografia curiosa, a lembrar bem esses tempos... anos 60???
    Nessa altura, lá em casa, em Ponta Delgada, jogava-se o bridge, o king, a sueca e, só com dois, o crapô. A nossa sala grande, cheia de amigos, parecia um casino, tal era a fumarada que pairava no ar, enquanto os rapazes jogavam. Era nessa sala que havia duas grandes colunas opostas, de som estereofónico que saía da aparelhagem Blaupunkt de topo de gama!... Enquanto se jogava, ouviam-se grandes nomes, Ray Charles, Gilbert Bécaud, Charles Aznavour, Simone de Oliveira, Jacques Brel... e também jazz. Claro que a música clássica, óperas e sinfonias, era ouvida fora do bulício e da fumarada, então já na presença dos pais.
    E foi a jogar crapô que o "menino" Correia (aquele rapaz do Continente, a fazer a recruta no 18!!!) foi conquistando a menina Teresinha!
    Lá em casa foi assim porque, por acaso, não nasci numa aldeia.
    Se tivesse nascido, em Forninhos... provavelmente também teria jogado ao burro e , quem sabe, talvez aparecesse nessa foto!
    Também não estaria aqui... ainda ao lado do belo transmontano!!!
    Beijinho

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    1. Penso que foi tirada ali por 1966, Teresinha. Nela está a minha madrinha e tia que nessa altura a ver pelo penteado já trabalhava na função pública.
      Por acaso a foto não foi tirada na casa dos meus avós, mas podia ter sido, pois era uma casa que também se enchia de amigos, mas sendo Forninhos uma aldeia do interior, a juventude entretinha-se com 'coisas' mais simples, mas naquela casa também os rapazes procuravam estar junto das suas pretendentes ;) mas à vista de todos, inclusive do meu avô que, no seu tempo, dava-se muito bem com os jovens.
      Gostei muito do que comentou e muitas felicidades para si e para o "menino" Correia. Já agora, procure umas fotos antigas suas, quem sabe não encontra algumas descontraídas entre amigos...e publique ;)
      Beijinho e bom fim de semana.

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  5. Olá Paula!
    Um passatempo bom e construtivo! Une e diverte demais...
    O meu carinho e o desejo de que tenha um feliz final de semana...
    Muita paz...

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    1. Infelizmente estes jogos "passaram à história". Como outra comentadora disse, à excepção de algumas pessoas mais velhas, sobretudo homens, o jogo de cartas caiu muito em desuso.
      Um bom fim de semana, Anete, e obrigada pelo carinho.
      Beijos**

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  6. Oi Paula!
    É, antes da televisão as pessoas se reuniam mais e tinham muitas maneiras de interagir, o jogo de cartas, eram sem dúvida, muito praticado, e durou ainda por algum tempo mesmo com a televisão, pois o jogo tem algo viciante, esse do burro cheguei a jogar com meus filhos, nas férias, sempre na praia, quando não se levava a tv, rsrs,era bem divertido.
    Adorei o post, e a fotografia.
    Beijos!

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    1. É verdade, também me lembro jogar cartas na praia, mas eu era mais com amigos, na década de 90, altura que vim para Lisboa, pois em Forninhos não temos praia ;)
      Se a contagem dos anos de burro se fazia de viva voz, tínhamos cem ou duzentos olhos de espectadores sobre nós!
      Bjs.

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  7. Boa noite Paula, que ideia interessante trazer à memória os jogos de cartas ao serão!
    É bem verdade e do que me lembro os mais antigos que eu (que já vou avançando na idade;)) jogavam nas tabernas e coletividades (que já as havia e algumas em segredo como na minha terra, onde também se falava de politica)!
    Mais tarde e como diz Fátima Oliveira mesmo com televisão havia esse hábito na família e recordo-me de jogar com os meus filhos nas férias de verão!
    Está a dar-me uma ótima ideia para fazer uso de dois baralhos que ainda ali temos nem que seja para um jogo a dois;))! Beijinhos e bom fim de semana para si e Xico. Ailime
    (O Xico não aprecia aquela espécie de jogos florais, mas é apenas para exercitar a memória;)) que coitadita agora só com os trabalhos domésticos bem necessita de ser esticada;))

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    1. Em Forninhos existiam várias tabernas típicas e era normal ver os homens a jogar por lá às cartas. Colectividade, ainda tivemos uma, há coisa de meia dúzia de anos atrás, mas foi "sol de pouca dura". Mas os jogos de cartas ainda são das opções de diversão e que proporcionam horas de entretenimento entre os homens, aos domingos e "dias santos", pelo menos, nos cafés da aldeia ou numa Colectividade, sita na terra vizinha e anexa de Forninhos.
      A Ailime também está a dar-me uma ideia, a de consultar as páginas da monografia da minha terra e ver se sobre as tabernas e lugares de convivência falam dos jogos de cartas. Sei que a técnica do chincalhão vem publicada, não sei se bem ou mal, mas quer parecer-me que a respeito não é dito que era costume jogar às cartas nas tabernas. Vou ver ;)
      Beijinhos e bom fim de semana para si também.

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  8. Muito interessante sua postagem. Bons os tempos em que não existia televisão em todas as casas. Na minha só qd já era adolescente. Boa noite e um lindo final de semana. Bjsss

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    1. A televisão trouxe outro entretimento, para melhor ou pior, não sei. Há coisas boas e outras menos boas como será o facto de, dificilmente hoje se juntarem jovens de ambos os sexos em convívio, como vemos nesta fotografia.
      Obrigada Nal pela visita comentada. Bjos**

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  9. Olá, Paula! Lembro-me de, em criança, jogar esses jogos. Grandes disputas!
    Bom fim de semana.
    Beijo

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    1. Quantos às disputas, “nem me lo digas”, Nina, como dizia Vasco Santana no filme “Canção de Lisboa”.
      Bom fim de semana tb.
      Beijo.

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  10. Eran otros tiempos en los cuales la Familia estaba más conectada y hablaba más que lo que lo hace ahora por culpa de medios tecnológicos.
    Me encanta el burro, la brisca, el tute, la escoba...etc... Son juegos divertidos y en los que puedes disfrutar de la Familia.
    Abraços e Beijos.

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    1. Bom dia, Pedro.
      Quando as famílias eram numerosas, acho que não havia casa onde não se jogasse às cartas. Na minha meninice, no Inverno, era na cozinha e à volta da lareira que jogávamos às cartas e também às adivinhas, mas agora os serões em família são a ver televisão ou na Internet.
      Tudo muda...
      Um abraço e tudo de bom.

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  11. Havia jogos diferentes, como que dividindo para um lado os homens, para o outro as mulheres.
    Convenhamos que o do burro, era para as avos, maes e criancas. Enquanto os homens, ja era sueca e chincalhao, mas em casa, mais a sueca e nao havia matacao que enquanto se aguardava o jantar e mesmo depois deste, a ceia, os participantes, homens, nao cumprissem o ritual de as bater. Ate mesmo em casa num dia normal desde que viessem uns amigos, entre uma jarra de vinho se puxava por elas, durante parte da noite, pois havia que acordar cedo...
    Depois, anos mais tarde, jogos de cartas havia para todos os gostos por influencia dos media, sobretudo a televisao e a informatica.
    Curiosamente a mesma televisao que nao existia e deixava as familias se divertir, agora proporcionava novos modos de jogar, inventando cartas e jogos de herois de filmes e sagas.
    Mas mesmo assim, nada como chegar a aldeia e sendo em casa ou num ou outro cafe, se ouvir a paixao do jogo do chincalhao entre gritos desmedidos e risadas de bom humor!

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    1. Pois, como era tradição na nossa terra, o dia da matação ser considerado como um "dia santo", havia o costume dos homens, depois dependurado o porco, além de beber uns copos, jogar às cartas.
      Falas que o jogo do burro era mais para as avós, mães e crianças e a sueca e chincalhão era jogo de homens. Concordo. Mas recordo, uma vez mais, a Etelvina de Forninhos, a mulher-homem, uma figura quase lendária que ainda hoje perdura na memória das pessoas. Apesar de vestir saia, usava um chapéu de homem na cabeça e comportava-se tal como um homem: frequentava as tabernas e junto aos homens, servia-se de meio quartilho de vinho, puxava do seu cigarro e jogava às cartas com eles, com certeza, sueca e chincalhão "e esta, hein?!".

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    2. Queria conhecer essa uma mulher que viveu afrente do seu tempo. Fiquei curiosa quanto ao jogo sueca e chincalhão. Que bom ver vocês relembrar de momentos especiais vividos em Forninhos.

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    3. A Etelvina, em Forninhos, era rotulada de mulher-homem, mas os do seu tempo talvez nunca tenham percebido que viveu muito à frente do seu tempo!
      Não tive o prazer de a conhecer e se não fosse este blog nada conhecia sobre esta mulher da nossa terra. Nem tenho uma foto dela, mas estou a tentar encontrar um autodidacta que desenhe a figura da Etelvina, a fazer carvão e na taberna, de cigarro na boca e a jogar cartas: sueca ou chincalhão tanto faz, o mais importante é mostrar como foi a vida desta mulher!

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  12. Que vivam os jodadores do burro. Devia estar a chover para estarmos dentro de casa, pois quando estava o tempo bom era passear da lameira ate ao carvalho da cruz. Estavamos todos bonitos, pode calhar que neste verao veja essa malta ds meu tempo. Os nomes sao Natalia, Lurdes Irma do chico Luis Carvalho e Ilidio Grilo equem tirou a foto devia ser a Darcilia ou o Viriato. Um beijao de saudade para os jogadores do burro. Natalia.

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    1. Obrigada, madrinha!
      De certeza que os da tua geração, inclusive, a Lurdes e o Luís Carvalho se reconheceram (o Ilídio não sei se é assíduo do blog), mas como vês nem o teu beijão de saudade serviu para marcar a viragem na apatia e no comodismo dos leitores, no que diz respeito à participação no blog dos forninhenses, claro está.
      Um grande beijo para ti.

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  13. Paula, que interessante o seu texto! O jogo do burro é conhecido por aqui e o truco muito jogado em especial nas cidades do interior. Bjs e boa semana,

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    1. Sim já reparei que o truco é muito jogado aí; especula-se que tenha surgido dos mouros, porém não há consenso a esse respeito. Se clicar na "Lenda da Cadeira do Rei" vê que o rei mouro responde à filha princesa “truca, retruca, torna a retrucar.".
      As lendas são uma fantasia que alimentou a imaginação ao longo dos séculos, mas poderá haver aqui algo de real.

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  14. Hoje em dia , é só na frente do computador , como as coisas
    mudaram , era uma bom tempo me lembro , de quando criança
    meu pai e vizinho jogando cartas , muito bom.
    beijinhos tenha uma boa semana.
    http://eueminhasplantinhas.blogspot.com.br/

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    1. Pois. Por cá só os mais velhos ainda jogam cartas, nos cafés, colectividades, jardins públicos; os mais novos só na frente do computador!

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  15. Belas tradições...Espectacular....
    Cumprimentos

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  16. Pego numa referencia acima da Paula acerca da mitica Etelvina, a nossa lendaria mulher homem. Recuando muitos anos, como bem se enquadra neste tema das cartas. Dela ja aqui falamos no post do ferro de engomar.
    Mulher brava e dura, de tal modo destemida perante qualquer eventual desvario de desejo dos homens, que bastava o seu modo de vestir, saia comprida, chapeu rufia descaido sobre a testa e cigarro ao canto da boca, que logo imperava o silencio.
    Nao punha respeito, mas sim medo e entao, quando na taverna arrastava um banco de madeira e se encostava aos homens que joagavam a sua suecada da noite, o seu olhar gelido para o naipe de cartas de cada um, os deixava com as temporas banhadas de gotas de suor
    Seria que ela ia fazer sinal a algum amigo jogador do naipe de cartas que eles tinham e por tal o beneficiar...
    Dela todos eram amigos ou por medos ou outras coisas mais intimas, mas entre eles cada um seu inimigo.
    Ela gostava destes soturnos e lugrubeslugares onde era rainha, observando, julgando enquanto despachava mais uma mortalha de cigarro, meio tinto e no limpar da boca o sinal da sua profissao de carvoeira, ou seja o rosto mais negro e feroz.
    Dizem que um chegou mal disposta por coisas dela, ia a noite alongada e jogava se forte, a dinheiro.
    Puxa de uma cadeira meia partida, estica as pernas arqueadas por sobre o tampo de marmore todo rachado, manchado de vinho e sem olhar para ninguem, comeca a falar sozinha, baixinho.
    O temor comeca a tomar conta dos jogadores nervosos por ja de si o jogo ser a doer. Ficam parados e ansiosos do que poderia acontecer vindo daquela mulher, afinal mais alta que qualquer um.
    Minutos tenebroso ate que ela grita, solta o chapeu para as costa e diz, desafio qualquer um, melhor, todos e daqui ninguem sai, ate o jogo acabar, doa a quem doer. Depois as vossas mulheres que vos ...nem deu para acabar, por cima de mesas e cadeiras, todos tinham asas e desarvoraram, ate o homem da tasca, que fugiu a sete pes.
    No outro dia foram espreitar com todas as cautelas e a Etelvina descansava adormecida sobre a sua mesa, dona e senhora da taberna durante o resto da noite. Mas nao tocou no dinheiro do jogo dos que fugiram. Apenas na torneira do pipo do vinho.
    Jogava bem a Etelvina!

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    1. És um bom contador de estórias Chico! Mas a Etelvina e o estilo da sua personagem bem o merece.
      Falamos aqui do jogo do burro e, nem de propósito, diz o povo que Maio é o mês dos burros…mas, pergunto eu, quantas pessoas têm verdadeiro conhecimento do porquê do mês de Maio ser o mês dos burros e quantas pessoas sabem que esta mulher fazia carvão para vender para fora da povoação?
      É, pois, preferível dar destaque aos latoeiros e cesteiros que Forninhos não teve!
      Pensava eu que dantes é que a discriminação era a sério. Afinal a Etelvina nas ceifas e resina ganhava tal qual um homem (as mulheres ganhavam, por dia, para aí metade). Ainda hoje em Forninhos, discriminam as mulheres.

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  17. Quando criança, jogava baralho e era muito divertido. Já adolescente, meu pai nos ensinou a jogar buraco e passávamos a tarde de domingo entregues a esse prazer. Pena que o hábito se perdeu no tempo e hoje cada um joga em seu próprio celular, desprezando essa convivência harmoniosa.

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    1. De facto por vezes temos a sensação que hoje só o pc ou telemóvel (celular) contam!
      Obrigada pelas suas palavras e...seja sempre bem vinda!
      Abraço.

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  18. Que postagem linda e nostálgica. Como filha de portugueses esse era nosso passa tempo preferido, jogar cartas. A irmã mais velha de meu pai,a solteirona tia Aliça, era fã desse jogo. Mas detestava pois sempre ficavam com as mãos cheias de cartas. Ela se negava a contar, jogava para o alto braba, mas logo mudava de ideia e queria jogar de novo. Que saudade dos velhos tempo, em que não existia televisão. Esse aparelhinho deixou nos burro de contato com a família. Fez as famílias se afastarem. Tu sabe que em Solidão nós ainda jogamos cartas, reunimos os filhos e passamos a noite, brigando, rindo e comendo muita pipoca. Lá não temos televisão é proibido TV e qualquer outras coisas que roubem os momentos familiares.
    Bjos tenha um ótimo dia.

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    1. Olá Anajá, gostei muito do seu comentário. São raras as famílias que hoje prescindem da tv!
      Desse passatempo tenho boas lembranças, mas há anos que não jogo cartas com a família!
      O que conta sobre a sua tia Aliça fez-me lembrar de alguns jogos com os meus irmãos. Porque nenhum de nós gostava de perder, a minha mãe desejou muitas vezes deitar o baralho para a lareira e se algumas vez fingiu que o deitou, escondendo-o; uma ou duas vezes, acho que chegou a queimar um ou dois;)
      A sua tia Aliça também já estava muito à frente...já jogava ao "40 apanha" hehehe.
      Beijinhos e bom fs.

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  19. Tempos foram em que jogar as cartas, pouca gente tinha acesso.
    O jogo do burro, comum a muitas casas entre mais novos e mais velhas.
    Ou entao no findar da tarde entre a outra classe, a mesma que pouco sabendo ler, se abanava de leque para marcar posicao, na companhia do padre, degustando um cha ingles, com o aroma do estrume que vinha dos baixos da casa. Era fino, esquecendo por vezes aonde andaria o mariola do marido.
    Outros havia mais pobres e na verdade, sem lhes puxar para o trabalho que do jogo faziam vida, nao para comer mas para beber. Jogavam ao quartilho de vinho e eram desconsiderados, pudera...
    E la iam de taberna em taberna.

    À taberna de outrora
    Tudo se ia comprar
    Massa, arroz, pirolito
    E de manhã matabichar.

    Para matabichar
    Levavam figos e pão
    Bebiam um quarto d’aguardente
    Faziam a primeira refeição.

    A taberna também servia,
    Para o homem se entreter
    Jogava as cartas e o pino
    Até se ir recolher.

    Pão e vinho segue o caminho
    Um ditado popular
    Mas copo atrás de copo
    Iam p’ra casa a cantar.

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