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sábado, 9 de janeiro de 2016

Capelas: Forninhos e Dornelas em 1916

Dornelas é freguesia vizinha de Forninhos. Encontrar escritos sobre estas aldeias não é fácil, aos historiadores não interessavam, pelo que os poucos documentos que chegaram até nós são os provenientes de informações paroquiais e mesmo assim são escassas porque os párocos apenas respondiam ao que os seus superiores questionavam não levando muito a sério a importância das suas respostas para a "sua" terra. 
Vamos analisar a relação das capelas numa e noutra freguesia, pelo olhar do mesmo pároco, José António Tavares de Pina. 
Estamos em 1916, 10 de Dezembro.

1.ª Valagotes. Invocação de St.º António ou de Santo Amaro (?) Estado de conservação bom e paramentos impróprios para celebração de qualquer cerimónia religiosa.
2.ª Da N.ª S.ª dos Verdes. Em bom estado e com paramentos regulares.
Não há mais capelas quer públicas quer particulares não havendo também em qualquer delas relíquias. Ambas estas capelas são públicas.

Nota:
Na memória paroquial de Forninhos, datada de 20 de Junho de 1758, o Cura Baltazar Dias em resposta ao ponto 13.º do inquérito escreveu que: "Tem uma capela de Nossa Senhora dos Verdes fora do povo próximos pertence a mesma igreja, tem mais uma Capela de Santo António esta da quinta dos Valagotes".

Tudo indica que porventura por distracção o pároco não soube distinguir a identidade do Santo (já que o documento mais antigo refere a invocação a Sto. António) ou então o pároco não seria assim tão distraído, podendo ter existido nessa capela uma imagem de Sto. António e outra de Sto. Amaro! É que a imagem do Santo Amaro não tem qualquer parecença com a do Santo António.
-/-
No final, o pároco ainda refere que não há em qualquer das nossas Capelas relíquias, mas...é do conhecimento de muitos forninhenses que no altar da Capela de N. S. dos Verdes, em uma tampa colocada sobre a pedra de ara, foi encontrado em 1984 um papel escrito por D. José Moreira Pinto, que foi Bispo de Viseu a partir de Maio de 1928, datado de 7 de Julho de 1930, com um elogio às relíquias que ele terá visto em visita à nossa ermida.
"die 7 Mensis Julli Ego Josephus da Cruz Moreira Pinto Episcopus Viseensis consecravi altura hoc et reliquias Sanctorum Martyrum grandioso et ... et ... inclusi".
Quando se refere a relíquias, refere-se a relíquias de santos como: pedaços de ossos ou roupa usada por santos?! Ou terá sido um elogio às imagens que ele terá visto na Capela?
O texto de 10 de Dezembro de 1916 fala que não tinha quaisquer relíquias!
Mistérios!

Dornelas tinha (e tem) quatro capelas:

1.ª Colherinhas - invocação de N.ª S.ª das Neves. Bom estado de conservação e com paramentos em relativo estado de conservação, embora já um tanto velhos.
2.ª Capela de St.ª Bárbara. Sem paramentos e em bom estado de conservação. Pública.
3.ª Da St.ª Luzia. Sem paramentos e em bom estado de conservação. Pública.
4.ª De Santo António. Sem paramentos e em bom estado de conservação. Pública.
Não existem mais Capelas nesta freguesia, quer públicos quer particulares, assim como se não veneram em qualquer delas relíquias de santos.

Nota:
Na memória paroquial de Dornelas, datada de 8 de Junho de 1758, o Cura José de Campos em resposta ao ponto 13.º do inquérito escreveu: "Tem esta freguesia quatro capellas, três neste povo, hua de Nosa Senhora do Campo, outra de Santo António ao redor do povo, e outra de Santa Luzia no mesmo povo. Há mais um oratório particular em que se dis misa, que hé de Sebastião Varella de Almeida, cavaleiro do hábito de Cristo, e há outra de Nossa Senhora da Ouvida, que está na Quinta de Colherinhas desta mesma freguesia".

O documento mais antigo menciona que a Capela da quinta de Colherinhas é uma invocação a Nossa Senhora da Ouvida, mas em 1916 o pároco, José António Tavares de Pina, informa que esta Capela é uma invocação a N. S. das Neves; só que nessa Capela sabe-se que existe a imagem de N. S. das Neves e que lá faziam festa religiosa, pelo menos até 1967, com celebração duma missa solene sempre no dia 5 de Agosto (que é o dia de Nossa Senhora das Neves).
Em meados do Séc. XVIII o Cura divulgou a Capela de "Nosa Senhora do Campo", será a Capela de Santa Bárbara?
Em resultado da visita à Capela de St.º António, de Dornelas, o pároco relativamente à invocação do Santo não se interroga (?) o que é de estranhar já que na mesma data, visita duas Capelas com invocação a Santo António e só numa delas (na de Forninhos-Valagotes) coloca a hipótese de a invocação ser a Santo Amaro, pelo que não admira que tenha existido na Capela de St.º António dos Valagotes uma imagem de Santo Amaro, patrono de doenças dos ossos,  comemorado a 15 de Janeiro.

23 comentários:

  1. Conhecer o passado das nossas terras é muito interessante.
    Um abraço e bom fim de semana

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    1. Os documentos antigos são sempre interessantes porque nos ajudam a conhecer o passado das nossas terras. É facto. Pelo menos situam-nos em determinada época, ainda assim, no caso, todas as conclusões que podemos tirar são...suposições, porque até os padres se enganam! Daí transcrevi os pontos 13º das memórias paroquiais de 1758 de ambas as freguesias para podermos cruzar informações.
      Espero que não subestimem a informação do Pe. José António Tavares de Pina.
      Bjo/bom domingo!

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  2. Porventura o paroco nao se tera enganado ao referir Santo Amaro, pois eram profundos conhecedores da arte sacra e sendo que na altura muitas capelas e roubos foram despidos destas reliquias, algumas com a conivencia dos proprios padres...
    Vejamos o exemplo do bispo de Viseu aqui citado e o seu relato acerca das reliquias da Capela da Senhora dos Verdes.
    No "reinado" deste senhor bispo, ocorreu nesta mesma capela o roubo dos famosos Serafinzinhos.
    Curioso que foi este mesmo que ordenou um "roubo" ainda maior, a de S. Pedro de Verona.
    "Foi no dia 26 de Março de 2011, que foi inaugurado o Núcleo Museológico Arte Sacra -- Diocese de Viseu. No seu espólio, encontra-se a imagem de São Pedro de Verona, oriunda do antigo templo em devoção a este mártir, que se localizava no antigo povoado de S. Pedro em Forninhos.
    Esta imagem, tal como foi dito, estava na extinta capela de S. Pedro de Verona que terá sido destruída em tempos remotos, segundo reza a história, pelas divergências existentes entre os povos que acorriam ao templo. Mais tarde, foi trazida para a Igreja de Santa Marinha, sendo levada então pelo pároco da altura, por ordem de D. José da Cruz Moreira Pinto, bispo de Viseu, para o Seminário São José em Fornos de Algodres, onde esteve muitos anos. Há pouco anos atrás, as imagens presentes nesse seminário foram encaminhadas para o Seminário Maior de Viseu. A imagem de São Pedro de Verona foi alvo de restauro, e faz hoje parte, deste importante núcleo museológico...".
    Coisas estranhas de roubos perdoados por graca divina!

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    1. O S. Pedro que foi parar ao museu de arte sacra de Viseu é para nós uma relíquia, mas não tem grande valor monetário, senão onde já ía...trata-se pois de uma imagem até um pouco tosca, em pedra calcária, agora os "Serafinzinhos" esses sim tinham valor e a 7 de Julho de 1930 ainda estavam na Capela de N. S. dos Verdes, certo é que a partir de 1959 nunca mais ninguém os viu dentro da Capela (fora já não sei...) nem sei se D. José da Cruz Moreira Pinto teve culpas no cartório. Dizem que foi o Pe. Virgílio de Colherinhas. Se foi, que tombe sobre a campa dele a trombeta dos infernos.
      Santo Amaro. Deve ser mais um que "desapareceu". Também creio que os padres da altura eram profundos conhecedores da arte sacra. Já os de hoje...não foi há muito tempo que a Dra. Fátima Eusébio, Directora dos bens culturais da igreja, visitou Forninhos acompanhada pelo Sr. Pe Paulo e outros...e além de ter dito que a maioria dos santos existentes não eram os originais ainda mandou retirar um quadro ou imagem da capela (nova) dos Valagotes, por ser pagão, portanto...está tudo dito sobre o conhecimento que têm os padres de hoje; não sendo a maioria os originais, é porque os santos foram trocados nos restauros, acho eu!
      Já outros foram-nos roubados e vendidos e o pior é que possivelmente com a conivência do Clero.

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    2. Esqueci-me de dizer, porque é importante, que no "reinado" D. José de Cruz Moreira Pinto, bispo de Viseu, entre 1928 e 1964, uma das suas linhas de conduta foi limpar os resíduos de paganismo nas festividades cristãs. Assim, durante vários anos, em algumas freguesias da diocese de Viseu, inclusive Colherinhas (anexa de Dornelas), a festa do arraial da N.S. das Neves realizava-se decorrido alguns dias da cerimónia religiosa, ou seja, no domingo a seguir ao 5 de Agosto. Então aí havia foguetes e vinha a Banda Filarmónica de Sezures.

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  3. É bom que existam registos do que se vai fazendo em benefício das nossas aldeias...mesmo wue nem sempre haja consenso!
    Uma semana excelente!

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    1. Mesmo sem consenso o que me interessa saber nem é se a Capela dos Valagotes é de invocação a Stº António, porque ainda hoje é, mas é saber se tinha uma imagem de Stº Amaro.
      Bjo amigo. Boa Semana.

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  4. Estranho que um dos párocos não soubesse a que santo era dedicada a Capela de Valagotes, mas como dizes, poderiam ter existido imagens de dois santos. Quanto à existência ou não de relíquias, as informações são realmente contraditórias, independentemente do tipo de relíquia de que se possa estar a falar.
    Uma prova de que não houve precisão nas informações deixadas aos vindouros. Se entendi bem o que li...:-)
    Boa semana!
    xx

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    1. Muito bem, Laura.
      Se em 1916 o Padre se interroga é porque se calhar viu dois santos, porque:
      1º Santo Amaro não tem qualquer parecença com a do Santo António.
      2º Visita duas Capelas com invocação a Santo António e só numa delas coloca a hipótese de a invocação ser a Santo Amaro.
      Quanto às relíquias é que é mais difícil de entender:
      3º Na visita às capelas de Dornelas disse que não se veneram em qualquer delas relíquias de santos (sublinho de santos).
      Quando esse padre refere que não havia relíquias de santos, disseram-me que quase de certeza se refere a relíquias que muitos templos têm ou tinham. Eram pedacinhos de osso ou de roupa usada por santos, que eram colocadas em relicários, normalmente de ouro ou prata, mas em muitos casos também em madeira dourada, que eram levados em procissão debaixo do palio.
      4º Na visita às de Forninhos diz "não havendo também em qualquer delas relíquias".
      Relíquias de quê? Santos?
      O Xico tem razão quando diz que foi no "reinado" do Bispo José da Cruz Moreira Pinto que ocorreu na nossa capela o roubo dos anjos Serafins, popularmente chamados de "Serafinzinhos", que eram dois castiçais, autênticas relíquias.
      O grave Laura é que ainda hoje não se importam de deixar aos vindouros invenções, inverdades, imprecisões!
      Boa Semana.
      Bj**

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    2. P.S: Passaram quase 100 anos (no final de 2016 estes documentos têm 100 anos) e ainda há pessoas com vontade de deixar aos vindouros as maiores mentiras sobre a Terra de Forninhos. Um bom exemplo é uma "monografia" apadrinhada pela Junta de Freguesia cheia de invenções, erros, notório desconhecimento da história e memória local.
      Gastaram € 12.000,00 e ninguém da Junta foi capaz de fazer uma revisão da mesma.

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  5. Olá

    Muito interessante, nada como conhecer o passado para entender melhor o presente.

    Beijo e feliz semana

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    1. Foi com a frase "Há quem diga que para compreender o presente é preciso primeiro conhecer o passado" que nos apresentamos. Já passaram seis anos sobre a primeira publicação e pensamos ter seguido o caminho a que nos propusemos.

      Cont. de boa semana e bem-haja pela visita comentada.
      Bj**

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  6. Muito interessante, trazer à tona essas discussões sobre as "verdades" que compõem o universo da historiografia das nossas cidades. É importante, esse interesse em desvendar "isso" ou aquilo". Quando há documentação, fica bem mais fácil mas, muitas vezes há informações desencontradas que leva a gente à suposições,deduções,como no caso das imagens de Santo Antônio e Santo Amaro.Aqui, no Ceará, também tem disso...rsrs

    Meu abraço, Paula, Xico!

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    1. Ao menos os documentos situam-nos em determinada época, mas o ideal era podermos contar com a ajuda da gente antiga dos Valagotes (que não conheço). A nós, resta-nos supor, deduzir, que o padre era distraído ou não...que era bom conhecedor da arte sacra e que em 1916 havia na Capela dos Valagotes um Santo António (que ainda há) e um Santo Amaro (que já não há).
      Se era pároco das Freguesias de Forninhos e Dornelas, devia saber bem quais as imagens que havia nas capelas das suas paróquias, digo eu. No entanto, interroga-se acerca da invocação.
      Um Grande abraço.

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  7. Oi Paula!
    seria tão bom se os fatos passados fossem relatados com verdades, pois serão a historia de um lugar e de sua gente, mas onde há poder, por menor que seja ou dinheiro envolvido, sempre haverá corrupção e fotos que nem sempre batem com a verdade e sim com o que for melhor focar no momento, o que é uma pena...
    Amiga, aproveito pra desejar pra você, para o Xico e as suas famílias um feliz ano que se inicia.
    Beijos.

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    1. A quem o diz Fátima!
      Quando há dinheiro…por azar o genuíno não interessa a ninguém…se houver uma ou duas pessoas sérias ainda vá que não vá...só que a maior parte das vezes, bem sabemos, que o principal interesse de todos os envolvidos é ganharem dinheiro. Oxalá em Forninhos isso não volte a acontecer.
      Beijos e Bom Ano.

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  8. Boa noite Paula,
    Aprecio muito o seu trabalho minucioso de investigação sobre os factos da vossa Aldeia e outras como neste caso, como já tenho expressado aqui e até pessoalmente;)!Um trabalho que deveria ser louvado por quem de direito. Louvado até no sentido de ser bem aproveitado para que muitas situações fossem reparadas e/ ou revistas, por exemplo. Todos ganhariam com isso.
    Pena que o padre que refere não tenha tido o cuidado de saber concretamente o nome correcto do santo ou santos.
    Os registos em principio deveriam ser fidedignos!
    Desejo-lhe continuação de boa semana.
    Beijinhos,
    Ailime

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    1. Agradeço o seu apreço, Ailime.
      Tenho-me aguentado, mas por ser tão radical e defensora da história e tradições da minha aldeia, não mereço ser louvada por quem de direito!
      Não me importa. Tenho a consciência tranquila até porque não sou eu que registo inverdades e falsidades, nem passo a vida a ver apenas qualidades nas coisas da minha terra. Promover a minha terra também é criticar, alertar, corrigir, informar...

      Um abraço e bom fim de semana.

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  9. Pena que alterem a realidade dos documentos, ou simplesmente os ignorem, deturpando a história.

    Beijinhos.

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    1. É, mas a culpa não é só da Igreja, também é do povo, que desde sempre esteve muito ligado à religiosidade e apesar disso AINDA HOJE IGNORA A INFORMAÇÃO CONSTANTES NESTES DOCUMENTOS!
      Beijinhos/Bom fs.

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  10. Paula, com amor e dedicação sempre trazendo fatos e mostrando possibilidades. Trabalho bonito e inteligente o de vocês!
    Agora já sou vó outra vez! O tempo passa e ontem comemoramos 42 anos de namoro, sendo 36 de casados! UAU!...
    Abraços grandes

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    1. Obrigada Anete.
      Parabéns e que tenham toda a felicidade do mundo são os meus desejos.
      Um abraço de amizade.

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  11. Todos nós deveríamos cultivar as memórias, isso ajudar-nos-ia a entender melhor o passado e, correspondentemente, a perspectivar melhor o futuro. Nessa lógica se insere a história local, pois cada sítio tem memórias muito próprias.
    Gostei do blogue, parabéns!

    Uma boa semana :)

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