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sábado, 20 de fevereiro de 2016

Mães de peito

Pintura de David Gerard
Noutro tempo havia muitas mulheres paridas e muita gente mal nutrida, assim, apesar de seios avantajados, faltava o nutriente para os rebentos. Havia muitos meninos e pouco leite. Recorriam então a quem lhes pudesse dar o peito para mamar por "esmola", sendo que eram considerados "filhos da esmola".
A tia Clementina teve três filhos e não dava leite, mesmo a vizinha, poucochinho, quase nada, mal dava para os dela, mas lá se amanharam e sobreviveram.
Uma mulher que bem conheci, teve sete filhos, quatro foram para os anjinhos de meningite ou o que quer que fosse, havia tanta maleita, sobreviveram três dos seus e  outros mais, entre eles a Clementina Pega e a Adenera que por as ter amamentado a chamavam de "mãe".
Outra mulher houve que tenho tido a filha, era muito abundante de leite e por tal ainda sobejava para dar de mamar a uma criança, hoje uma mulher  ainda robusta e trabalhadora.
Houve ainda quem na precaridade da vida, houvesse sido criado a café de cevada...
E aquele que diziam que nasceu de sete meses, nesta aldeia do fim do mundo, e a parteira para ele olhando, descrente, duvidou por estas palavras que ele fosse avante "as camisas que rompesse, não as pagavas tu...". Condenado pelo correr trágico da vida.
Mas havia mais. Quem pudesse, ainda se podia valer em quase extrema necessidade de chá de flor de laranjeira, mas pouquinho, apenas para limpar a boca da criança e do leite de vaca, havia que ter cuidado por se tratar de leite grosso.
Por tal e muito mais, sofriam as progenitoras. O trauma de poderem falhar na sobrevivência dos filhos, findo mais de meio dia de terem parido e o leite não escorrer. Não pensem em médicos, pois nem estradas havia, mas uma ou outra mezinha ou saberes ancestrais, tal como senhora mãe que quis provar por si se fulana tinha ou não tinha leite e dela mamou. Não tinha, nem uma gota! Foi salvo o rebento de uma coisa estranha, o leite em pó, naquelas latas do pós-guerra da Caritas...
E estas mães de peito, podendo, para se nutrirem a si, aos seus e dos outros, bebiam o segundo litro de leite cru de vaca, da ferrada da ordenha. O das ovelhas era sagrado para o queijo e o sustento.

38 comentários:

  1. Nem sempre a falta do nutriente para os rebentos era motivo para recorrer às mães de peito.
    A minha avó Coelha foi mãe de peito da Alice (vide post anterior) porque os pais decidiram emigrar para o Brasil e deixar a bébé. A minha avó tinha com a mesma idade uma filha de nome Margarida que amamentava e por isso podia dividir a mamada com a filha e sobrinha/afilhada.
    A minha tia Margarida ainda hoje diz que a Alice é sua irmã gémea de partilha de amamentação e outros cuidados próprios dos bebés.
    Os nossos avós eram pessoas humildes, solidárias e francas, e que nos transmitiram valores que se estão a esquecer. Hoje se alguém pedisse "esmola" à vizinha ou familiar era de imediato “abandonada” no café!
    Mas ó Xico essa das camisas que rompesse, não as pagavas tu...não entendi. Faz parte duma reza?
    Desconhecia que o chá de flor de laranjeira era um substituto do leite materno, ainda que pouquinho!!!

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    1. Hoje em dia perde-se muita coisa que os «antigos» davam mais valor... Mas no que respeita a leite materno, já existe um movimento para que as mães que tenham em excesso possam doar a quem não tem.

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    2. Para a Paula.
      Este Post teve o intuito de despertar recordacoes e honrar estas pessoas que davam continuidade a vidas da mesma comunidade. Gentes esquecida no turbilhao de festividades inocuas e mediocres de quem tais promove sem sentimento...
      Recordo bem a tua avo Coelha, ainda era gaiato e muito minha amiga. Uma Senhora tal como outras e bem dizes, solidarias e francas e que bem expressas de forma comovente no relato da Alice.
      "...Nem sempre a falta do nutriente para os rebentos era motivo para recorrer às mães de peito...".
      Um facto que nao recordo e estava longe de imaginar, era que mesmo na aldeia, as progenitoras pela lide do campo e outras tarefas longe de casa e nao podendo sempre "carregar" os rebentos, os deixavam para mamar noutras senhoras disponiveis e de confianca, enquanto regavam os lameiros ou cifavam o centeio com os seios doridos e inchados pelo leite, elas proprias os vertiam para o chao. Mais tarde agradeceriam de forma respeitosa a partilha.
      No que respeita a camisa, devo teve registado mal o que me foi transmitido verbalmente. Nao faz sentido e por tal fui indagar. Foi com a minha avo Maria Lameira que isto se passou quando foi parteira de um bebe nascido de sete meses e com poucas esperancas de vida, tao franzino que ele era e lhe fez a promessa,
      " olha meu menino, as camisas que romperes, sou eu que te as vou pagar".
      Cumpriu a promessa por muitos anos, felizmente para ambos.
      Para a Portuguesinha
      Muito bem vinda, pois o que pretendemos fundamentalmente e que se nao percam os valores dos "antigos".
      Meio seculo atras, nao havia meios rudimentares sequer que permitissem fazer um "banco de leite materno", agora sao outros tempos, mas que vingue sempre o termo partilha e solidariedade.
      Cumprimentos.

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    3. Pois, o que escreveste para mim não fazia sentido nenhum!
      Quanto aos que teimam em não lembrar mulheres como as nossas avós, sabes o que eu digo?
      - Não lhes falta a mama!

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  2. Muito interessante.
    Minha mãe sempre teve muito leite. Porém quando a minha ira tinha três meses ela engravidou do meu irmão. Contava que continuou tendo
    muito leite e não sabendo que estava grávida, pois naquela altura dizia-se que a mulher não engravidava estando a amamentar, ela ficava espantada, porque a minha irmã acabava de mamar e pouco depois já estava a chorar como se estivesse cheia de fome. Foi ao médico com a menina, e o médico descobriu que ela já estava grávida de 3 meses e disse que o leite com que alimentava a bebé, não tinha força, era água leitosa.
    Um abraço e bom fim de semana

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    1. Mais um relato intenso e real da amiga Elvira.
      Daquelas coisas que mais ficam por vistas ou ouvidas por quem por tal passou!
      Um abraco.

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  3. Que interessante!
    Gosto muito de descobrir como "se fazia" antigamente.
    Se poder fazer um novo post sobre como a mulher lidava com "aquela altura do mês" em tempos remotos, decerto ia gostar de ler.

    Mas não se esqueça de passar pelo meu cantinho para me avisar! :D

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    1. Tambem gosto de pesquisar coisas "antigas", mas de preferencia "in loco" com pessoas antigas e reais.
      O escutar relatos de voz com voz ou olhos nos olhos, traz consigo a magia da nossa historia que aqui queremos preservar.
      Quanto ao resto e sem me levar a mal, para mim e pessoalmente, os meses nunca tiveram altura diferenciada e por tal nao me sentir habilitado para sob tal me debrucar.
      Cumprimentos.

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  4. Que lindo trazer essa lembrança e tema! E tive uma das irmãs que teve ama de leite! Gesto lindo de uma mãe que tem a mais e compartilha! Lindo mesmo! Belo post! bjs, chica

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    1. Feliz por ter gostado, Chica.
      Por vezes esquecemos aquelas que ajudaram de uma forma ou outra a dar continuidade a vida...
      Beijo

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  5. Um tema interessante, amamentei meus gêmeos
    com tanto amor .graças a Deus quem pode ter
    o leite materno adorei a postagem
    Bjusss
    Rita

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    1. Teve esse privilegio, Rita, tal como porventura a maioria das mulheres.
      Outras houve que por vicissitudes varias se iam conformando no ritmo do dia a dia, mas nunca deixaram de ser reconhecidas como maes verdadeiras e ainda para os filhos criados nestas situacoes de terem o valor acrescentado de outra "mae".
      Beijinho

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  6. ........
    Em 1965 minhã mãe e duas tias, engravidaram ao mesmo tempo,
    na mesma casa nasci eu e minha prima Luisa . Ali bem perto
    em Agosto , já tinha nascido o meu primo Francisco .
    Fomos os segundos ( dos primeiros quatro netos de Franciso e Bela ) . Mas penso que mamamos todos nas nossas progenitoras
    Luisa e Francisco vivem na Madeira e são dois simbolos de estabilidade e equilibrio . Vidas pensadas com boas escolhas
    e soluções . Orgulho-me dos primos que tenho !!
    Sei que berrava a noite inteira para mamar....a minha prima
    era bem mais sossegada !?
    Sempre ouvi falar da parteira . Das mães de peito confesso
    que não ouvi falar muito. Mais sei que as havia para os meus
    lados !!
    Parabéns pelo post...!!

    Bom Domingo
    AG

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    1. "...Uma família não é um grupo de parentes; é mais do que a afinidade do sangue, deve ser também uma afinidade de temperamento. Um homem de génio muitas vezes não tem família. Tem parentes...", dizia Fernando Pessoa.
      O Antonio "revolta" memorias de gentes proximas, mas de modo expansivo e sentido de partilha.
      Caro amigo, deixe que diga, aquando em coisas aqui escritas para salvar memorias, a gente sente que subimos mais um degrau no tentar dignificar as nossas gentes pelo abrir de alma. Tem esse dom real no modo de defender os seus e contar vidas, vividas!
      Bem haja.

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    2. Olá Xico

      Julgo que foi Sofia Pinto Coelho autora do livro : " Meu avô Luís " que disse , ser um risco escrever
      sobre a familia . Mas esta oportunidade de dizer que
      tenho nos meus primos e primas orgulho vem do fundo
      do meu coração ! Quando digo que me "roubaram" os filhos vem do fundo da minha alma ! Quando digo que
      sou feliz é um triunfo de satisfação !!
      A nossa familia é a que formamos em cada etapa e eu
      tive com a fé de minha mãe essa capacidade ! Não é
      facil ! Mas não imagina, Xico , eu com 50 anos ao lado do meu enteado e do meu sobrinho ( 13/11 anos ) em Alvalade a ver o Sporting- Académica , com o meu cunhado.Não imagina o desafio da minha isenção estar
      condenado quando vem aí um Sporting - Maritimo ! Os putos não me largam dizem que vou levar uma cabazada.
      Ora a vida , a minha vida tem sido isto! Desafios.... Levei os meus filhos á Luz , não sei se são ou não adeptos , mas agora , nesta fase tenho de agradecer
      a Deus dar - me força para cumprir mais esta missão .
      Fazer com que a minha marca , simpatia , sorriso e
      teimosia deixe ideias positivas para as gentes vindoras....! Mas as minhas origens , onde nasci onde
      andei na escola , com a minha prima eng. Luisa , esse
      tempo bom de "puto" meio traquinha , 1/2 responsável,
      esse tempo e todo o meu tempo está intacto e levo
      comigo para todo o lado ! Os meus avós e bisávos e
      meus pais de mim terão sempre orgulho ! Sem armas
      e facas vou vencendo a " batalha" na esperança de vencer a " guerra" !

      Grande abraço
      AMG

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    3. "..ser um risco escrever
      sobre a familia...".
      Bom, a gente anda por aqui vai muito tempo, passou meia duzia de anos e por tal digo que uma familia extravassa para os seus semelhantes. Encolhidos em si, fenecem...
      Como muito bem diz, a vida vive nos seus proprios desafios, engole por outros nao respeitarem desafios, por tal eles nem sequer serem capazes de pensar o que seria um desafio se o pudor lhes fosse colocada na frente.
      Bastou pouco tempo para perceber ser um "banido" na minha terra, aldeia aonde nasci, mas podem contar com as exigencias morais e materiais e pior para outros, continuar a abrir as janelas do obscurantismo.
      Nao tive o prazer de o conhecer apesar da proximidade da casa do tio Antonio Grilo. Aquela casa grande de pedra com um patio com forno do tio Alfredo, meu pai.
      Antes dela, a casa dos Guerrilhas.
      Coisa que se vao perdendo fisicamente, mas o raio da memoria nao deixa dormir. Por tal cada dia traz o sol de novo dia, para o casal, filhos e filhas e netos se tal houver, afinal a vida continua no seu ciclo equilibrado...para a paz, luta da humanidade.
      Abraco.

      Eliminar
    4. Caro Xico

      O saber e a inteligência ao "serviço" da verdade numa
      deu certo ! Não sei se já viu na SIC o programa
      Alta Definição ..onde todos choram,homens e mulheres
      um dos últimos foi o dr Pedro Santana Lopes.
      Quando se entra em "nós" sobretudo a partir de meia idade, depois de perdermos os avós , os pais , de perdermos a" genica" dos 20/30 , começamos a ter pausa para o chá de reflexão !?

      Eu concluo : Acabaram as mães de peito veio os suplementos . Acabaram as guerras e a fome toca a assaltar a nossa digindade .Ter familia não é ter a casa sempre cheia . Se fosse isso eu teria a maior familia do Mundo ! Sogros , irmãos , cunhados , amigos dos sogros , irmãos do sogro , tios , gatos,
      amigos etc . Tudo isso não é familia ! É uma oportunidade de familia ! Familia é aquele casal de vizinhos os "Costa" , que nunca entraram em minha casa e viram na net a minha vivenda saqueada á venda....vieram ter comigo . Era Domingo . Agosto de 2006. Não sabia dos meus filhos ? Levaram-me com eles
      para a igreja deles que não a minha ! E rezei e rezeram comigo . Cinco Domingos..Os " Costa" nunca. beberam whiky em minha casa , mas foram a minha
      familia quando todos fugiram e eu passei em 15 dias
      de um herói a um deliquente !!
      Meu caro Xico , o Mundo mudou ,os filhos nascem sem pai , as mães atiram - nos ao rio , vão para o Casino de madrugada e deixam os bebés em casa !!

      Importante é que não me vai ser nada complicado
      explicar a minha vida aos meus filhos,os meus filhos
      nunca vão perceber porque razão a casa foi" roubada"
      e o avô Julio " Grilo" me aborda numa rua há dois meses para eu não escrever sobre o avô dele que morreu ha 40/50 anos....em Forninhos !?
      Percebo por isso, Xico , que vocês tenham problemas
      mas..a vida vai permitir que nos cruzemos. Sem stress
      até porque eu quero escrever um livro aos sessenta e
      Forninhos faz parte de um Capítulo desse livro...ok

      Vou estar sem aparecer dois meses..Em Abril volto !

      Grande Abraço, continuem estou por aí..
      AMG

      Eliminar
    5. Caro Xico

      O saber e a inteligência ao "serviço" da verdade numa
      deu certo ! Não sei se já viu na SIC o programa
      Alta Definição ..onde todos choram,homens e mulheres
      um dos últimos foi o dr Pedro Santana Lopes.
      Quando se entra em "nós" sobretudo a partir de meia idade, depois de perdermos os avós , os pais , de perdermos a" genica" dos 20/30 , começamos a ter pausa para o chá de reflexão !?

      Eu concluo : Acabaram as mães de peito veio os suplementos . Acabaram as guerras e a fome toca a assaltar a nossa digindade .Ter familia não é ter a casa sempre cheia . Se fosse isso eu teria a maior familia do Mundo ! Sogros , irmãos , cunhados , amigos dos sogros , irmãos do sogro , tios , gatos,
      amigos etc . Tudo isso não é familia ! É uma oportunidade de familia ! Familia é aquele casal de vizinhos os "Costa" , que nunca entraram em minha casa e viram na net a minha vivenda saqueada á venda....vieram ter comigo . Era Domingo . Agosto de 2006. Não sabia dos meus filhos ? Levaram-me com eles
      para a igreja deles que não a minha ! E rezei e rezeram comigo . Cinco Domingos..Os " Costa" nunca. beberam whiky em minha casa , mas foram a minha
      familia quando todos fugiram e eu passei em 15 dias
      de um herói a um deliquente !!
      Meu caro Xico , o Mundo mudou ,os filhos nascem sem pai , as mães atiram - nos ao rio , vão para o Casino de madrugada e deixam os bebés em casa !!

      Importante é que não me vai ser nada complicado
      explicar a minha vida aos meus filhos,os meus filhos
      nunca vão perceber porque razão a casa foi" roubada"
      e o avô Julio " Grilo" me aborda numa rua há dois meses para eu não escrever sobre o avô dele que morreu ha 40/50 anos....em Forninhos !?
      Percebo por isso, Xico , que vocês tenham problemas
      mas..a vida vai permitir que nos cruzemos. Sem stress
      até porque eu quero escrever um livro aos sessenta e
      Forninhos faz parte de um Capítulo desse livro...ok

      Vou estar sem aparecer dois meses..Em Abril volto !

      Grande Abraço, continuem estou por aí..
      AMG

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  7. Um bom texto, Xico! Traz reflexão e grandes lembranças. Já ouvi muito por aqui sobre "ama-de-leite"... Uma prova de amor e de socorro/necessidade.
    Bom domingo p você e Paula. Abraços

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    1. Digo, ama de leite.
      C carinho

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    2. Quase diria, pelo que agora fui sabendo, que seria uma "obrigacao" d uns para os outros.
      As maes valiam pelo tinham e davam umas para as outras...entreajuda, mesmo com os filhos.
      A coisa mais sagrada era que eles nao ficassem abandonados no choro e alimento e por tal, irmamente se socorriam.
      E estas mulheres de peito, nada regateavam por aquilo que podiam dar, o seu leite materno numa aldeia em que todos se conheciam. Mas e curiosamente era coisa normal, quem tinha dava e quem nao tinha recebia.
      Era um tempo quase d pureza, Anete.
      Beijos.

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    3. Oi, gente querida!
      Hoje no Ciranda de Frases usei uma imagem de vocês! Bela imagem!! Obrigada, amigos.
      Abração

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  8. Eu tive uma mãe de leite que reencontrei quase 55 anos depois e foi uma sensação maravilhosa!
    Laços que existiam entre as mulheres da nossa aldeia!
    Um tema interessante que abordou...bj amigo

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    1. "... reencontrei quase 55 anos depois ...".
      Nem consigo imaginar, minha amiga o turbilhar de emocoes.
      Retenho o "maravilhosa".
      Neste mundo de barrigas de aluguer por dinheiro, tipo maquinas da casa da moeda, havia nas aldeias um acordo de honra.
      Hoje os teus, amanha os meus.
      E quem estiver mais perto, acode a cada um...
      beijo, Graca.

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  9. A Tia Anunciação Guerra foi uma dessas senhoras, quando teve a sua filha Arlete, amamentou também a Ana Brasileira e uma senhora da Quinta da Ponte, da família dos Matelas ,mãe da Cristina (peço desculpa, não me lembra o nome da senhora. Quem vai para o Boco, última casa do lado esquerdo.

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    1. Deve ser a Lucília, conhecida por Cilinha.
      Um abraço.

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    2. Amigo Henrique, deixa que te diga que admiro a forma tao genuina nas tuas recordacoes e que relatas de forma soberba.
      Relatas nomes, lugares e estorias que ajudam a fazer a historia da nossa terra.
      E acima de tudo, avivas as memorias mais esquecidas, tais como a minha que agora nestes nomes me transportam ao passado.
      Bem hajas e um abraco.

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  10. Que alívio seria quando "os filhos da esmola" tinham a possibilidade de que lhes fosse encontrada, por perto, uma "mãe de leite". Longe tudo, sem médicos, sem acesso a leite em pó, a não ser essas latas da Caritas, das quais nunca tinha ouvido falar, seria dramático uma mãe não ter leite, ou tê-lo em quantidade muito insuficiente.
    Um tema bonito, sobre humanidade e necessidades de sobrevivência.
    Boa semana.
    xx

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    1. Ainda tenho vagas ideias desses tempos pois a idade nao perdoa. Se quer que lhe diga, na pequenice ainda vi mulheres a darem o peito a criancas ao soalheiro, mas era coisa banal por a "gente" ter outros entretens.
      A Paula provocou o tema e tremi quando disse que este era da minha responsabilidade, Pouco ou nada tinha, mas bendita a hora por me "obrigar" a falar com gentes antigas e desvendar coisas. Jamais soube que a minha avo materna havia tido sete filhos, dos quais restaram tres.
      Nem imaginava que os carregavam para os campos no carro de bois, enquanto lavravam as terras estes ficavam num caixote de madeira na sombra dos pinheiros ou tal nao podendo, em casa guardados por uma avo ou filha mais velha, aguardando a outra mae para acalmar a fome e dar de mmar. Tal nao fosse possivel e para acalmar a crianca, era feita uma "chupeta" com um bocadito de pano e acucar amarelo por dentro, para aguentar ate chegar a progenitora.
      Vi por debaixo da casa do padre, filas de gentes com senhas da Caritas, reflexos dos pos guerra. Mercearia e margarinas, latas de leite em po e barras de queijo.
      Se me perguntarem como ali chegavam os mantimentos, ignoro.
      Sem estradas, sem nada do nada...
      Sei que dez anos depois de eu ter nascido, a minha mae teve em casa um parto com gemeos. Houvera assistencia e a menina teria sobrevivido, nao por falta de leite que esse a minha mae tinha ou a vizinha mais proxima.
      Um pouco como hoje ainda, Portugal, Lisboa e Porto...
      Abraco, Laura.

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  11. Um texto fabuloso.

    O meu ex-marido e a irmã foram criados com o leite de uma ama de leite.
    Os meus sogros estavam em Angola,no interior, e era comum quando a mãe não tinha leite irem à sanzala e trazaem para casa uma mãe que estivesse a criar um filho , ficando a mesma na casa dos patrões amamentando as duas crianças( a sua e a dos patrões).

    Beijinhos.

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    1. Fabuloso sim o seu registo de tempos historicos que ainda mexem com tanta coisa. Tabus muitas vezes ignorantes por nada perceberem do contexto.
      Soberbo, por trazer a realidade da partilha imensuravel e desprendida do geneses da vida. Todos somos irmaos!
      Se hoje dou, amanha recebo e vice versa...
      Beijo.

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  12. Boa noite Xico, grande tema aqui trouxe ao Blogue.
    Seria recorrente em tempos muito antigos, pois talvez por ter visto esses exemplos a minha mãe contava com muito orgulho que embora sendo uma jovem mulher muito magra amamentou ao mesmo tempo crianças da idade das suas três filhas;))! Não me recordo, como é evidente, porque as nossas diferenças de idade são diminutas, mas sei quem é o meu mano de leite;))!
    O que eu acho é que naquele tempo vivia-se em comunidade e tudo se partilhava, além da sabedoria popular de que o leite materno era impriscindivel para um desenvolvimento mais saudável das crianças. Como tudo mudou...
    Beijinhos para si e Paula.
    Ailime

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    1. Li ontem o seu comentario, Ailime e quase me atrevi a responder, sendo que tal nao fiz por o poder saborear.
      Volta e meia, durante o dia, como que vi o "filme', imaginando a senhora sua mae, a si que tive o prazer de conhecer, minha avo e mae e tantas gentes da terra das quais nem me "alembro".
      E tudo se mistura num turbilhao de partilha, igual em qualquer canto do nosso ser. Havia que dignificar de modo publico, estas Senhoras e agradecer a forma desprendida como proviam a continuidade da vida de modo "corriqueiro", por ser tradicao, mas com o mesmo amor e entrega como se filhos paridos delas fossem.
      Ai de quem deles fizesse mal...
      Beijos nossos Ailime e bem haja.

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  13. Que belo relato, fizestes me lembrar que eu também fui amamentada pela saudosa Dora, minha segunda mãe. Eu era muito doentinha quando nasci. Ela tem uma filha da minha idade e hoje somo como irmãs, nunca deixamos de nos visitar. Hoje em dia as mães que tem de sobra leite elas vão ao hospital para doar para os recém nascidos. Uma atitude louvável.
    Felicidades.

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    1. ..Eu era muito doentinha quando nasci. Ela tem uma filha da minha idade e hoje somo como irmãs, nunca deixamos de nos visitar...".
      Retenho isso com enlevo, Anaja amiga.
      Afinal os oceanos partilham sentimentos indenferenciados.
      E com eles estorias bonitas e felizes nos encontros de amas de leite, segundas maes que jamais podemos esquecer...
      Beijo e abraco ao Alfredo.

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  14. Ainda aqui volto para falar de minha mãe. Amamentou seis filhos, todos homens, felizmente todos vivos e ela também. Todos mamaram bastante tempo e leite não lhe faltava. Ela sabia o que devia comer para o leite não faltar para o filhote. Uma das coisas, sei que era as sardinhas e outra (penso) um ovo de galinha batido com meio copo de vinho. Coisas herdadas, para o mês que vem, 87 primaveras.

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    1. Aquelas "gentes" do outeiro e Ribeiro, eram levados da breca! Filharada com fartura. Da parte de minha mae, teriam sido cinco, nao tivesse uma morrido ao nascer. Vos, seis que continuam gracas a Deus, do vosso tio Antonio Carau, cinco mulheres que aquando vao a Forninhos, fazem por elas a festa.
      Mas nem todas ou todos criados a todo o tempo com leite proprio, nao sendo que a mae tivesse tempo, nao bastava o leite. Faltava o tempo e por tal, se a vizinha parida na altura, pudesse dar o leite na parte da manha, de tarde a outra retribuia na sesta. Era assim, mesmo que amojadas de leite.
      Umas, como dizes no caso de tua Senhora mae que a fortaleciam, outras com uma malga de soro bem recheado de pao de milho, quando tal tinham, com uma pinga de azeite.
      Abraco.

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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