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sábado, 28 de março de 2015

Limpar a casa pela Páscoa

Não era só limpar - era uma limpeza geral. A Páscoa era a altura em que tudo em casa tinha de ficar a brilhar. O balcão (escadas) de madeira ou de pedra, o soalho da casa toda, bancos, cadeiras, a loiça, a roupa, as cortinas...nada escapava. Era uma lavagem geral e que durava quase toda a semana.
Com água e sabão amarelo e escova na mão esfregava-se com força o soalho de madeira todo e o balcão se fosse de madeira. Aquela mistura de água, sabão e madeira molhada, era um odor inesquecivelmente bom. 
Eram tarefas feitas exclusivamente por mulheres e que as deixava exaustas, mas ao mesmo tempo satisfeitas por poderem usufruir daquele cheirinho e limpeza únicos!
Aqui, lembro que certas mulheres usavam por baixo dos joelhos um objecto feito de madeira chamado "tacoila", para que não se molhassem os joelhos, quando se lavava o soalho de madeira da casa.

Tacoila

Apresentavam-se os trapos todos a limpeza geral também. Lá diz o rifão popular: na semana dos Ramos lava os teus panos que na da Paixão lavarás ou não. Era preciso lavar tudo, cortinas, rendas e linhos, pôr tudo ao sol a corar, as colchas de dias de procissão também eram retiradas das arcas/malas e arejadas nessa semana. 

colchas em dia de procissão

No que toca aos homens, havia sempre uma preocupação especial nesta altura do ano que era caiar as paredes da casa, principalmente as da sala do folar. No dia do folar o padre entrava em casa com a sua comitiva, benzia a casa e na sala do folar desejava as Boas Festas, Aleluia, Aleluia.
Essa divisão tinha de ser especialmente preparada, com todos os pormenores. A última coisa que passava pela cabeça de uma dona de casa de Forninhos era receber o padre sem ter tudo limpo e sem ter preparado o folar (oferta da casa ao pároco). Antes do meu tempo, ofertavam queijo, ovos, bolos de azeite, pão-leve, pão-trigo.
Eram tempos bem diferentes dos de hoje.
Na igreja matriz também: limpava-se chão, escadas, altares. Areavam-se castiçais, lanternas, o turíbulo, etc. para no sábado da Aleluia, tudo brilhar e se encher de flores e de vida, pois durante a quaresma tudo devia estar despido e pobre nos altares da igreja.

Para si e para a sua Família votos sinceros de que passem bem a Páscoa. 

domingo, 22 de março de 2015

Retalhos da vida de uma aldeia

Acho o modelo desta salgadeira - arca em madeira que se enche de sal - muito interessante! Com compartimentos; um, para salgar as carnes e conservar os untos; outro, para a panela de barro com azeite usado para conservar alguns enchidos depois de retirados do fumeiro.
Porque estamos na quaresma não resisto a repetir um post que fiz há tempos e que nestes dias faz sentido reviver a situação. 


Sabiam que durante muitos anos era prática nos quarenta dias de preparação para a Páscoa, algumas famílias forninhenses pregarem a arca salgadeira? 
Não se tocava na carne da salgadeira, desde o dia de Entrudo/Carnaval, aonde se não ia enquanto não amanhecesse a Ressurreição do Senhor.
Presentemente sacrifícios como esse já se não fazem, mas em Forninhos ainda se vai usando  a "arca frigorifica " dos nossos avós e eu acho muito saborosa a carne que nela é conservada.
O(s) unto(s), gordura amassada, enrolada e moldada em bolo, acreditam que até ver esta fotografia não sabia sequer o que era, nem qual a sua função!
Pelo que entendi servia para temperar as sopas, principalmente o caldo verde. Também servia como creme ou pomada, usado para "desembaçar". Sei que a minha bisavó Emilia que "desembaçava" crianças doentes o fazia, rezando uma oração e aquecendo nas brasas um pouco de unto esfregava-o sobre a barriga do doente.
O sal era para todo o ano, com ele temperavam os alimentos e também as viandas dos animais. 
Trago hoje duas ou três situações de outros tempos, porque somos nós que hoje temos a incumbência de contar como foi a vida dos nossos avós, amanhã serão os nossos descendentes ou os descendentes deles, mas até lá que haja saúde e coza o forno, na Páscoa, os tradicionais bolos de azeite, os "folares" da nossa terra.


Estes nossos bolos, ao contrário de outras terras portuguesas, não são doces, são para ser comidos com queijo da serra, presunto e chouriça.

sexta-feira, 20 de março de 2015

As andorinhas

Uma andorinha não faz a primavera e por morrer uma andorinha não acaba a primavera, são dois provérbios que nos fazem relacionar andorinha com primavera. Elas estão quase a chegar, pois começa hoje, 20 de Março, às 22h45 a primavera.
A chegada das andorinhas é sempre bem recebida pelas pessoas, pois isso significa que o tempo está a ficar mais ameno. No campo, sempre foram aves cuja protecção as pessoas se encarregavam de assegurar, ninguém as caçava nos custilos, ninguém estragava os seus ninhos. Dizia-se que as andorinhas eram sagradas, sabe-se lá porquê.
Nas áreas mais urbanas, fazem os ninhos nas partes de baixo dos beirais dos telhados e são feitos à base de lama que depois de seca confere uma consistência que lhe permitem segurarem-se. Os ninhos são totalmente tapados, apenas possuindo uma entrada do tamanho da ave.
Nas áreas rurais, as andorinhas fazem os ninhos à base de palhas/pauzinhos e lama, muitas vezes nas paredes, numa qualquer reentrância entre pedras.
Achamos este ninho de andorinha na parede duma casa, não habitada, de Forninhos:


A sua alimentação é quase exclusivamente efectuada à base de insectos que apanham em pleno voo. Quando se estão a alimentar voam com o bico aberto fazendo com que os insectos entrem naturalmente com o movimento. Também para beberem água o fazem, muitas vezes, com o bico aberto, fazendo voos rasantes às superfícies dos rios.
Diz-se que as andorinhas "advinham" quando vai chover, i.é., diz-se que quando as andorinhas voam baixo, ou seja, perto do chão, vai chover. Mas não é por as andorinhas possuírem qualquer característica meteorológica, o que se passa na verdade é que quando o ar fica mais húmido os insectos concentram-se junto ao solo e às andorinhas só lhes resta voar junto ao chão para, assim, facilmente apanharem os insectos.
Claro que as pessoas vêem mais facilmente as andorinhas do que os insectos, daí dizerem que estas "adivinham" a chuva, mas afinal "os meteorologistas" são os insectos!
Bem vistas as coisas, ajudam a proteger as colheitas dos insectos, pois cada andorinha come milhares de insectos por dia.
O seu canto, se de canto se pode falar, não é musicalmente rico, nem melodioso. 
Ouça o seu chilrear:

quinta-feira, 19 de março de 2015

19 de Março, dia do pai

O dia do pai, aliado à celebração da festa litúrgica de S. José, comemora-se hoje, dia 19 de Março.


Ausente, mas tão presente...

Partia cedo, noite escura
Que a noite também dormia, 
Mais um pouco.
Tal como nós, pequeninos
Como algo que procura
P' ra cima puxava a manta
Com brio,
Não fosse a pequenada ter frio
E olhava com enlevo
E sorria
Sussurrando aos seus anjinhos
Dormi bem, não tenhais medo.
Mas quase noite, quando voltava
Pelo trabalho quebrado
Dava tudo o que podia 
Naquele regaço suado.
Num colo cheio de amor
Que depois dele partir
La para "cima", distante,
Continuamos a sentir
O tanto que ele nos ama,
Uma estrela cintilante.

(Inédito Xicoalmeida)

Dedico este meu poema, a todos os pais, com consideração e estima.

sábado, 14 de março de 2015

Restaurar ou modificar?

Vários autores defendem que a capela foi erigida em louvor a Nossa Senhora dos Verdes - padroeira dos renovos agrícolas - com o objectivo de agradecer o milagre acontecido na Era de 1720, quando uma praga de gafanhotos se abateu sobre os campos da região, desaparecendo, somente, graças à intervenção de Nossa Senhora. Acho que estão enganados, pois tudo aponta para uma construção anterior, século XVII, pois sabe-se que está gravada na parede da nave, lado direito, a Era de 1696 (com o reboco das paredes e pintura de cor branco, em 2009, foi tapada), sendo assim é hoje quase certo que a ermida já existia aquando do voto, ou seja, antes de 1720. Segundo a lenda a capela foi construída devido ao aparecimento de uma imagem de Nossa Senhora numa fonte ou nascente situada junto ao local.

Antes, caiada
Depois, com a pedra à vista
Hoje, rebocada  e pintada
Capela N.S. Verdes: Era 1696
Mas ao longo dos anos, várias obras foram mudando o exterior da capela, quem prestar atenção descobre as diferenças entre as três imagens.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Memórias chamuscadas

Ali estavam os três com mais de oitenta anos, sentados na ladeira do ribeiro.
Tagarelavam coisas deles, claro, mas deviam ser genuínas.
Tão íntimas que nem conta deram que estava ao lado e mal pareceria não dar as boas vindas. 


- Santas tardes para vossemecês, disse eu.
 Nem tempo deu para escutar o murmurar do ribeiro...
- Olha, dirigindo os olhos para as duas, andas por cá... - quando vais embora.
- Visita de médico, digo eu, sabe como são as coisas.
- Estás com pressa, pergunta.
- Nada que não se componha, acrescento.
- Ainda bem, sabes. (queres comer ou beber alguma coisa, estás à vontade), estava aqui a falar com elas e a olhar para a Estrecada, tinha mais pinheiros e muitos lobos.
A vida que a gente viveu, ai meu Deus...os medos!
- Tens tempo para escutar, pergunta.
- Claro, por quem e...
- Sabes que por vezes as pessoas não acreditam, mas ouve lá...
Nós por aqui, tínhamos os nossos porcos de criação e da ceva para matar no inverno, senão morria-mos à fome. Estavam nos cortelhos, percebes, nas lojas por debaixo, mas...conta tu agora (olhando para uma das senhoras).
- Lembras claro dos cortelhos (para mim), havia umas pias ou gamelas metidas na parede, metade dentro, metade para fora e nesta se deitava a vianda para os animais, três vezes ao dia.
Dei por mim a pensar, porcos, mas bem tratados. Estava rendido com a narrativa, apesar de ainda recordar algumas coisas, mas o modo genuíno como falava, parecia uma pintura fabulosa.
- Quando chegava a altura do Natal, já eles (os porcos), tinham sido fidalgos um ou dois meses antes da matação, comendo do melhor, restos das batatas, milho , centeio, etc. Tinham era de medrar...
Aqui entra o senhor que ia anuindo com a cabeça a cada frase. A vida era parecida em tudo.
Para eles que quase me pareciam dizer que jamais se pode esquecer os trabalhos tidos por necessidade, mas ao mesmo tempo a honra deles.
A conversa ia alongada, mas aproveitando o recolher das galinhas pelas senhoras, insistiu num copo de vinho, do dele, teimava em dizer que era do melhor. E era, de tal modo que veio mais outro.
A casa aonde nasci, fica ao lado e talvez por isso seja mais fácil a comunhão emocional.
- Enquanto elas não chegam vou te falar dos lobos. Tu ainda os viste, pois vieram comer um cãozito nas vésperas da páscoa, que te tinham dado, lembras pois choraste tanto...
- Se lembro, para toda a vida, balbuciei quase menino...
- Olha, vou te ser franco, eles andavam na vida deles e também tinham filhos para criar.
Também me arrepiei um dia quando o nosso vizinho ia acomodar de noite as ovelhas e se saltaram ao caminho, ali, estas a ver, sim, entre aqueles pinheiros e os olhos reluziam, os teus pais também viram.
- Até contam que a tia Maria gritava, salvem o meu D...
Não contes a ninguém, mas não era apenas pela fome e vou te contar um segredo, vinham pelo cheiro do chamusco...
Mas eis que no entretanto as mulheres chegam (e eu devia estar de abalada...), com o avental cheio de ovos, sendo que uma galinha pedrês havia desaparecido por andar no choco.
Zangadas, como se a gente tivesse culpa, uma coisa assim...
- Falaram de que, perguntam.
- Lobos e porcos, respondo assumindo a responsabilidade.
O senhor não gostou e irado (chateado) disse que disso percebia ele.
Até bati palmas, que me iam custando os olhos da cara, mas e por tal  aqui vim escrever o sentir genuíno e verídico do pouco que nos vai restando.
Este Grande Senhor disse:
Olha Francisco, sei que escreves e eu não sei ler, mas eles, os lobos, tinham o passadiço deles, caminhos que poucos conheciam, vinham das lageiras, corriam os lameiros direitos ao carvalho da cruz, lombo velho e carriça . Eram lixados os gajos, deixa que te diga e quando cheirava a chamusco, valha-te Deus, as mulheres ficavam ainda piores que os homens e tinham razão.
Pergunta aqui à vizinha que ia morrendo para criar os porcos.
A porca parida, ficou meia maluca no parto, arreganhou os dentes e quase a comia, nao fora o homem dela ter aparecido, mas lá se criou e no dia da matação, parece bruxedo, desceram da serra e vieram cheirar...
O cheiro apelativo para eles era a palha queimada para chamuscar os porcos...e a fome.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Mentiras e mais mentiras...

Em Forninhos não há cesteiros. Na verdade, a arte popular da cestaria nunca se desenvolveu nesta terra, mas isso não constituiu qualquer problema para que os autores da "monografia" da freguesia de Forninhos escrevessem o contrário, incluindo "o cesteiro" na arte dos ofícios da terra. Se calhar para eles - ou para quem os informou - quem sabia fazer um cesto, era cesteiro! Mas se assim fosse podia existir cestaria em qualquer povoação rural desta ou outra zona!

canastros, cestos usados nos trabalhos agrícolas

Segundo o que foi avançado por esses autores, em Forninhos "As necessidades do quotidiano agrícola aguçavam o engenho e surgiam então as cestas de mão, arredondadas, com uma asa larga para facilitar o transporte de objectos e produtos pesados. Donde veio esta? Confesso que não sei. "Serviam um pouco para tudo, desde a sementeira, à apanha da fruta ou ovos ou o transporte do farnel para o campo. Os cestos maiores eram usados nos trabalhos agrícolas na apanha da uva ou do milho."
Tenho lido bastante sobre a arte popular da cestaria e sobre esta cesta, a tal com uma asa larga, descobri que se chama cesta de corra. É feita com corras de carvalho.

cesta de corra, com asa larga

"Construída com amor e muito engenho, a arte da cestaria começou a desaparecer com a generalização do plástico em meados da década de 60."
Mais:
Em Forninhos, "O cesteiro percorria os campos à procura da sua matéria-prima. Colhi-a e tratava-a, secando-a. Quando estava em condições para ser moldada, o artífice estruturava primeiro o esqueleto da peça, forrando-o de seguida com as fibras de madeira ou juncos".
"Só com uma faca, as mãos e dos dentes, o cesteiro entrelaçava a matéria-prima numa sequência repetitiva dando vida e forma à peça.".
Olhem que a cestaria foi de tal modo importante em Forninhos que ainda hoje "...já não há quem faça estes cestos, mas a lembrança perdura e ainda podemos encontrar pedaços de velhas memórias de outrora."!!!
De Forninhos tenho lembrança de ver uma senhora - D. Mimi -  fazer um cesto de vime, mas disso nunca fez negócio! Negócio faziam os artesãos que se deslocavam à nossa aldeia vender cestos, que os faziam na hora, bem como revestiam os garrafões com vime.


garrafão de vidro empalhado
Historiador e arqueólogos inventaram e conceberam cestos adequados às necessidades dos nossos agricultores e baseados na ideia de que "As necessidades do quotidiano agrícola aguçavam o engenho" existiram cesteiros em Forninhos! 



Nem sei como no brasão de Forninhos não está representada a cestaria. O brasão podia fazer uma referência ao junco, ao vime, à cesta de asa larga, sei lá...!

quarta-feira, 4 de março de 2015

Pastores em Festa

Um dia muito bem passado em autêntico ambiente serrano, este primeiro domingo de Março. Trouxe de volta além de memórias antigas da feira do Mosteiro, o honroso nome do pastor e do seu gado. Foram alguns milhares que acorreram ao evento, coisa que se não via há muitos anos, por estas bandas. Tendeiros com coisas antigas e modernas, a tradicional doçaria, uma verdadeira multidão,


 e um imponente carneiro:


Vaidosas e aperaltadas as ovelhas:



Era o dia das mais belas


Por mim, todas tinham ganho


Aqui comprei o verdadeiro doce Teixeira:


Coisas do antigamente que aqui se encontram. Raras...


Capela de S. Sebastião no lugar da feira


Por cá adoramos uma boa arruada de bombos


Tal como os autarcas parecem partilhar:


Carradas de queijo da serra para o povo:


E deste tacho de feijoada no Zé Pequeno, me regalei:


O homem dos sete instrumentos que toca pelo nariz


Além de realejo e castanholas


E alguma mocidade


Com o rancho folclórico, como manda a tradição:


Até pró ano!