O Arquivo Distrital da Guarda disponibilizou há tempos alguns livros dos passaportes de alguns dos anos dos séculos XIX e XX (todos os passaportes concedidos e prazos ficavam registados em livro próprio). Mesmo com a dificuldade em decifrar a caligrafia do escrivão que os redigiu, desafio os forninhenses a "passearem" por lá e eventualmente poderão encontrar um antepassado...
Deixo o que encontrei à primeira olhadela:
10-03-1913 - José Augusto, de 24 anos, casado, jornaleiro, filho de pai incógnito e Cândida Gomes, sabe ler e escrever e reside em Forninhos
Destino: Nova Yorque
A amostra, bem sei, não dá uma ideia clara da quantidade concedida, mas como o Arquivo Distrital de Viseu disponibilizou alguns pedidos de passaportes de pessoas da nossa terra (não tem disponíveis online os livros), conseguimos por Viseu perceber que entre os anos de 1875 e 1913 mais ou menos (para mais que para menos) uma dúzia de pessoas, pediu passaporte para se ausentar do país e que era obrigatório haver alguém que "abonasse" a viagem (uma espécie de fiador); em cada documento consta a identificação do requerente, a filiação, o estado civil, a naturalidade, a idade, a profissão, a residência, as condições perante o serviço militar, a apresentação do registo criminal emitido pela comarca, o lugar do destino da viagem e quem acompanhava a pessoa (se fosse o caso) e também consta as várias características particulares de cada um, como altura, a cor dos olhos e do cabelo, nariz, barba e sinais.
Requereram passaporte:
19-02-1875 - Miguel Ferreira de Melo, de 31 anos, solteiro.
Destino: Rio de Janeiro
19-02-1875 - António Ferreira de Melo, de 40 anos, proprietário
Destino: Rio de Janeiro
11-07-1881 - João Fernandes, de 34 anos, solteiro, jornaleiro, filho de António Fernandes
Destino: Rio de Janeiro
05-05-1887 - José Diogo, de 22 anos, solteiro, cultivador
Destino: Império do Brasil
09-11-1887 - António da Fonseca, de 37 anos, casado, jornaleiro, natural de Forninhos e residente na Matela
Destino: Rio de Janeiro
25-02-1909 - António Diogo, de 44 anos, casado, agricultor, filho de António Diogo e Maria Christina
Destino: Rio de Janeiro
reside em Sezures atestou o pároco de Sezures António Gonçalves Nunes
Foi baptizado em casa em perigo de vida
10-10-1910 - Jeremias Ferreira, de 25 anos, solteiro, trabalhador, filho de Miquelina Ribeiro
Destino: Rio de Janeiro
reside em Demercilo há mais de 4 anos como criado de servir (atestou o pároco Alfredo Augusto de Almeida Paes)
06-05-1911 - Casimiro Diogo, de 30 anos, casado, agricultor, filho de António Diogo e Piedade de Andrade
Destino: Santos
Residente na Ínsua
06-05-1911 - Diamantino Pires, de 29 anos, casado, agricultor, filho de Luís Urbano e Ana Pires
Destino: Santos
Residente na Ínsua
24-01-1913 - Mateus de Almeida, filho de Maria dos Anjos, agora com 34 anos, casado, agricultor, volta a pedir passaporte com destino ao Rio de Janeiro - Já não reside em Sezures, mas na Ínsua
18-02-1913 - António Monteiro, de 21 anos, casado, agricultor, filho de Manuel Monteiro e Maria Augusta
Destino: América do Norte
Residente na Ínsua
18-02-1913 - Francisco Melo, de 24 anos, solteiro, agricultor, filho de José Caetano e Maria Amália
Destino: América do Norte
Residente na Ínsua
Francisco Melo |
Fatos relevantes sobre o Francisco Melo:
1- Ficou livre do recrutamento para o serviço militar e depois veio a participar na I Grande Guerra através do Exército Americano vide aqui.
2- o registo criminal diz que foi condenado a quatro meses de prisão pelo crime de ofensas corporais em José Tavares, solteiro, filho de Maria Jose Pedra, de Forninhos.
18-02-1913 - António de Almeida, de 32 anos, casado, agricultor, filho de Francisco de Almeida e Ana dos Anjos
Destino: América do Norte
Residente na Ínsua
18-02-1913 - Justino da Fonseca, de 41 anos, natural da Quinta dos Valagotes, Forninhos, casado, agricultor, filho de António da Fonseca e Ana de Jesus
Residente na Ínsua
Destino: América do Norte
Curiosamente, nestes passaportes todos eram homens e a maior parte residiam na Ínsua, concelho de Penalva do Castelo, conforme atestou Alexandre Almeida Lopes, o Regedor da freguesia da Ínsua. Acho que era uma forma de conseguirem o passaporte através de Viseu, pois era a unidade administrativa mais próxima de Forninhos (Distrito da Guarda). O destino da viagem para a maior parte era o Brasil.
Viagens de Antigamente!
Mas pelos vistos, as dificuldades que muitos tiveram para sair do país, foram quase insignificantes comparadas com os trabalhos por que passavam os que tinham que viajar para além dos limites do concelho.
Do que consegui perceber, qualquer pessoa que pretendesse viajar para fora da sua comarca tinha que ter um passaporte para transitar, por motivos relacionados com o serviço militar ou razões de trabalho (para o Alentejo, por exemplo, no tempo das ceifas ou ir ao Porto comprar matérias primas, como fazendas); por cada localidade onde passasse (parasse/pernoitasse), a autoridade local tinha que visar o passaporte, confirmando e registando os dados que nele constavam; caso o viajante não apresentasse passaporte era-lhe aplicada uma multa que seria elevada para aquele tempo.
Quando o meu pai foi tropa, 1966/1967, há pouco mais de cinquenta anos, era o Regedor Antoninho Bernardo (conhecido também por Toninho do Aníbal) quem lhe carimbava e rubricava o "passaporte de fim de semana". Era uma forma de controlar os soldados.
Os tempos mudaram e as pessoas hoje circulam livremente, mas ainda temos de pagar as portagens!!
Interessantes registros e imagino quanto é legal para quem tem parentes de lá! Feliz JULHO! beijos, chica
ResponderEliminarPara mim, basta encontrar a palavra "Forninhos" e fico logo contente! Já o que sentem os outros...não faço ideia. Mas como falam tanto em "nossos avós" que espero que 2 ou 3 ou mais... vão "folhear" os livros disponíveis.
EliminarBom mês de Julho! Beijos, ótimo domingo.
Beautiful blog
ResponderEliminarThank you very much.
EliminarPlease read my post
ResponderEliminarI can't read and write correctly.
EliminarPublicação muito interessante que gostei de ver e ler. Elogio
ResponderEliminar*
Um domingo muito feliz, com Saúde, Paz, Alegria e Amor.
*/*
Ilusões e Poesia
*/*
Muito agradecida!
EliminarIgualmente para si, votos de um domingo, com saúde paz, alegria e amor, bjs**
Boa Tarde
ResponderEliminarImpressionante viagem ao passado
São vidas . Momentos . Viagens .
Tentativas de melhorar a vida .
Muitos destes homens filhos de pai incógnito . O que é incrível ...
Será que em algum caso vieram a saber que foi o Pai ?
Épocas e tempos de amargura .
Acho que só meu lado foi igual.
Não tenho dúvidas que meu Pai foi
sempre vítima de um infância dura.
De fome . Ainda hoje a Família tem
essas marcas de revolta e tristeza.
Parabéns .👏👏👏👏
Belo Post.
Bom Domingo
Saúde
Antônio Miguel Gouveia
A referência aos filhos de pai incógnito aparece muito porque foi-lhes negado o nome do pai, mas creio que a maioria sabia quem era o seu pai.
EliminarToda a gente sabia.
Até padres engrossaram a lista de pai incógnito!
Boa semana
Abraço
São registos bem interessantes!😘
ResponderEliminarSão, sim Sra! A vida deles é que não era, não será por acaso que tanta gente emigrou!
EliminarBj
Boa tarde Paula,
ResponderEliminarComeçou bem cedo a emigração na vossa Região!
Muito interessantes os registos dos passaportes que dão uma ideia de que já naquele tempo tudo era feito com critério.
A vida já era muito difícil naqueles tempos e muitos já sonhavam em ter uma vida melhor para si e para os seus, sendo que na maior parte eram casados.
Mais um trabalho de pesquisa muito importante.
Beijinhos e uma boa semana.
Ailime
Olá Ailime,
EliminarAs limitações que se viviam na época, fez com que os forninhenses procurassem bem cedo uma melhor vida!
Hoje temos estruturas para tudo e mais alguma coisa, mas numa época em que não existia sequer o Registo Civil até que o controlo era bem feito.
Aqui os viajantes eram todos homens e alguns já casados. Não tenho a certeza, mas do que consegui perceber, acho que nesse tempo só as mulheres viúvas podiam requerer o passaporte e seguir sozinhas ou acompanhadas com filhos; as casadas e solteiras podiam viajar apenas como acompanhantes do marido ou do pai ou outro familiar mais velho.
Beijinhos
Começou Julho com uma pesquisa muito interessante, as coisas mudaram sim, como falou, mas há o pagamento nas portagens.
ResponderEliminarO meu abraço... Saúde, paz e felicidades multiplicadas.
Obrigada, igualmente!
EliminarAinda há o pagamento das portagens, mas já não ficamos com o coração aos saltos quando atravessamos a fronteira, para ir a Espanha, por exemplo!
Tempos idos...
ResponderEliminarMas que e na memória dos mais antigos permanecem.
Excelente pesquisa a que chamo de história, pois cada um de nós tem ali um bocadinho nos registos de Forninhos...
Eram sem dúvida, os tempos de antão, o dos amores suspensos na busca de melhores dias por entre as vagas do mar.
E quase todos e felizmente vingaram na cruzada da sua senda.
Bem-hajas Paula pela tua contínua cruzada em busca dos nossos valores!
Não sei se permanecem, pois a componente humana que era importante ouvir, inexiste ou tende a inexistir.
EliminarImaginamos nós que seria uma canseira as andanças pelas comarcas, pelos consulados, registos civis, mais a viagem de barco...
Do outro lado do mar, a maioria se vingou, também não voltou e ainda adoptou a nacionalidade do país que escolheram para viver. Do Brasil até se dizia que era a terra do esquecimento! Felizmente hoje já não é assim e alguns familiares ainda vão regressando de avião e chegam a Forninhos à procura das suas raízes, através dos nomes de família, pois a nossa terra é um ponto de referência, para os que lá nasceram e de lá partiram e para os que, não tendo nascido lá, traçam a sua genealogia a partir de quem lá nasceu, viveu e morreu.
Outros tempos!
ResponderEliminarIsabel Sá
Brilhos da Moda
Tempos sem Acordo de Schengen! Tempos de viagens de muitos dias. Uma viagem que demorava muitos dias a concluir, faz-se agora em poucas horas!
Eliminar