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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Tradições: Voto, Procissão de Ladaínhas à N.S. DOS VERDES

A Senhora dos Verdes de Forninhos, advogada dos frutos e sementeiras, sempre teve muitos devotos em todas as freguesias dos concelhos à volta e duas romarias no ano: Segunda-Feira do Espírito Santo e 15 de Agosto. Segundo a tradição oral conta, houve em tempos uma praga de gafanhotos que comiam os campos. Os lavradores desesperados com a situação fizeram uma promessa a Nossa Senhora para afastar a praga dos campos, o que veio acontecer. Como agradecimento, os lavradores todos os anos lhe faziam uma romaria em sua honra, em que as ofertas era sempre os melhores produtos que colhiam na terra. O ex-Voto, Quadro do Milagre, é um testemunho dessa realidade e tem a seguinte inscrição:

MILAGRE QVE FES N.S. DOS VERDES EM AS SEARAS DESTRUVIDAS DOS BICHOS E FAZENDO HVA MVI DEVOTA PROCIÇAM OS MORADORES CIRCVM VEZINHOS, FOI NOSSA SENHORA SERVIDA QVE SE APLACASSE ESTA PRAGA. ERA DE 1720.


Dia 3 de Maio, é o Dia de Santa Cruz, uma data que os forninhenses ainda preservam em respeito à própria memória e à dos seus antepassados. Assim, amanhã, pelas 09 horas, o povo de Forninhos irá em Procissão de Ladainhas, cumprir o Voto à Senhora dos Verdes e para abençoar os campos para que a peste, a praga, trovoada, não entre nos nossos campos e a fome na nossa casa, durante o ano, colocam uma cruz nos campos semeados. Em tempos idos, segundo as falas dos mais antigos, a cruz era colocada só nos campos de centeio.
No Espírito Santo é também costume ir ali em romaria a Procissão das freguesias de Esmolfe, Sezures (?) Penaverde, assim como a de Dornelas. Sei também que em tempos bem recuados todas as freguesias do extinto concelho de Penaverde, bem como as freguesias do antigo concelho de Algodres eram obrigadas ali ir em procissão cantar as ladainhas com a cruz alçada e o respectivo Pároco, precisamente no Espírito Santo. Depois o Prelado diocesano proibiu a actuação de outros padres, que não o Pároco de Forninhos, mas as freguesias continuaram a comparecer na mesma e cada uma por sua vez “cumpriam o voto” fazendo a romaria e cantando a ladainha a Nossa Senhora dos Verdes ou outros cânticos marianos. Foi assim ao longo dos tempos e ainda não se perdeu por completo esta tradição.
Não sei dizer-vos desde quando estas ladainhas têm existência, mas provavelmente terá sido no Século XVIII, depois do milagre ocorrido nos campos da região.

Nota Pessoal:
Dia 28 de Maio de 2012 é Dia do Espírito Santo e a única coisa que sei é que o impasse "administrativo" das nossas festas continua por resolver.

14 comentários:

  1. Isso que refere no que toca as freguesias do antigo concelho de Algodres, ainda perciste na memoria e tradicao dos mais antigos.
    Nos anos sessenta do seculo passado, embora a minha freguesia (Vila Cha) ja nao fosse a Forninhos, cumprir o "voto". Continuava-se essa antiquissima tradicao, fazendo uma procissao de ladainhas dentro dos limites da freguesia, mas que ia a umas alminhas, que ficavam na direccao geografia de Forninhos.
    O mesmo acontecia tambem na Muxagata segundo informacoes que recolhi, mas ai a procissao ia a uma pequena capela/nicho de Na. Sra. dos Verdes, que ficava tambem situada na direccao geografia de Forninhos!
    Isto faz lembrar aquele dito, que eu modifiquei: "se nao podemos ir a "Forninhos" trazemos "Forninhos" aqui"!

    Um abraco de amizade.

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  2. Há que se orar e muito para agradecer e elevar o espírito em comunhão com Deus, um belo exemplo de fé e tradição. Um abraço, Yayá.

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  3. Do ponto de santuário religioso das aldeias circunvizinhas centrado na figura de N.S. dos Verdes, advogada dos frutos e sementeiras, Forninhos já foi terra de muita fé e tradição, todavia a partir da década de 1960, tudo mudou. Uma delas foi o costume de visitar as Capelas, nichos, alminhas e cruzeiros com ladainhas.
    Também as pessoas mais antigas de Forninhos guardam na memória, além do Voto à Senhora dos Verdes, ser obrigatório ir à Capela de Santo António, nos Valagotes. O mesmo acontecia em todas as freguesia circunvizinhas a que eram obrigadas ir às suas Capelas, em Quinta-Feira da Ascensão, creio.
    Até à 1.ª metade do Século XX as pessoas levavam a religiosidade muito a sério, embora por parte da Igreja houvesse algum exagero, por exemplo, era uma obrigação participar na Irmandade, mesmo que o “irmão” (homem da casa de morada de família) não pudesse estar presente, era obrigatório estar alguém da família na hora da chamada, o habitual até era mandar uma criança (filho ou filha) dizer: “Presente”.
    Estamos no Século XXI e embora não haja searas, a procissão de ladainhas para cumprir o Voto e orar à Senhora dos Verdes de Forninhos é uma tradição com alguns séculos que ainda perdura e constatamos que ainda hoje os habitantes de Forninhos neste dia de Santa Cruz colocam uma cruz de pau nos campos semeados. Sempre foi assim ao longo dos tempos.
    Lembro-me na minha tenra idade (não sou assim tão novinha, já vivi 4 décadas) ver a gente da Lameira fazer as cruzes, um pau bem alto, e o que cruza pequenino. O meu pai, o tio Luís Moreira, o tio Ilísio, o tio António Carau…

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  4. Também eu me lembro de ver o meu pai fazer as cruzes para por nos campos semeados de centeio, quando eu era pequena no dia de santa cruz lembro-me dessa procissão, não me lembro se a procissão ia até à Nossa Senhora dos Verdes ou se dava só a volta ao povo, também me lembro da procissão do Espirito Santo, vinham procissões de várias terras, juntavam-se todas à entrada de Forninhos no Carvalho da Cruz e seguiam todas juntas até à Nossa Senhora dos Verdes, como há muitos anos que não vou à festa do Espirito Santo, não sei se ainda vêm procissões de outras terras.

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  5. As tradicionais romarias do Espírito Santo ainda se fazem e cada uma inicia o percurso junto a um cruzeiro, com excepção da de Dornelas que costuma caminhar junto com a de Forninhos. Embora a festa seja feita numa 2.ª Feira, que não é feriado nacional (note-se!), Graças à Senhora dos Verdes ainda se vê muita gente a fazer romaria à capela e a orar para que haja boas colheitas. Penso que a romaria e festa do Espírito Santo é muito diferente da festa e procissão de Agosto.
    Acrescento mais um pouco do que me falaram da tradição das ladaínhas:
    Na 1.ª metade do Séc. XX, depois do Domingo de Páscoa era costume irem 7 freguesias cantar as ladainhas com a sua cruz alçada, cada uma em seu Domingo (7 Domingos/7 Semanas) e cada uma por sua vez cumpria o Voto. Não sei dizer se, por exemplo, a aldeia de Vila Chã ía no 1.º Domingo ou no último, mas suponho que o nosso amigo Al poderá dizer-nos.
    Se cada freguesia procurar as suas Memórias dessa época, desejavelmente com a ajuda dos mais velhos daí poderá resultar boas surpresas para a História de muitas localidades.

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  6. P.S. No Dia do Corpo de Deus é que a procissão dá a volta à aldeia e na Quinta-Feira da Ascensão (“Dia da Espiga”) a romaria é feita só à volta da Igreja e os campos são benzidos. Depois que deixou de ser feriado, a Ascenção é celebrada no Domingo a seguir ao "Dia da Espiga”. De hoje a 15 dias é a 5.ª Feira da Ascenção, portanto, a Ascensão do Senhor ao Céu será celebrada no dia 20 de Maio.

    Em Forninhos dizia-se “Dia da Ascenção seca a raíz ao Pão”.

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  7. Que interessante saber da N S dos Verdes. Aqui nunca ouvi falar dela.
    De repente você sabe, qual é a N S que carregada um cacho de uvas nas mãos? Minha mãe ganhou uma imagem, mas não sabemos qual é o nome dela. Perguntamos a alguns padres que também não sabem.
    Aqui se comemora o dia do Divino , mas não é feriado. A festa se faz no final de semana mais próximo.
    Quanto ás pedras de quartzo, se é do Brasil, a origem é mesmo Minas Gerais. É que os comerciantes, muitas vezes até clandestinamente, espalham esses minerais em todos os roteiros turísticos. É igual ao artesanato de pedra sabão, feito em Ouro Preto e vendido no Brasil todo.
    E acredite... Tem mineiro que viaja, compra e trás de lembrança para quem ficou... rsrsrs já recebi um porta jóias de pedra sabão que veio de Natal , no Rio Grande do Norte,e a pessoa me disse que trouxe o menor porque é artesanato dos caros lá no norte. Lógico, se é feito aqui, lá dobra-se o preço! Coisas da vida!

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  8. Os blogues dão-nos a possibilidade de conhecer e dar a conhecer a história e cultura de outras terras. Sublinho a expressão “Que interessante saber da N S dos Verdes. Aqui nunca ouvi falar dela.”.
    O aparecimento da Capela já aqui abordámos em tempos – conta a lenda que uns caminhantes encontraram numa fonte ou ribeiro uma bonita imagem de Nossa Senhora e decidiram procurar a Igreja da povoação para a deixar. Misteriosamente a imagem desapareceu, voltando meses mais tarde a ser encontrada no mesmo local, mas desta vez com visível milagre, por ser Agosto e estar rodeada de neve.
    O povo interpretou a vontade da Senhora em estar naquele local, erigindo uma Capela com invocação à Nossa Senhora das Neves.
    Anos mais tarde, uma terrível praga de gafanhotos assolou as culturas, pondo em causa o sustento da região. O povo invocou a Nossa Senhora, a praga teve fim e os campos reverdejaram. Em razão do sucedido, como agradecimento, mudaram o título da invocação para NOSSA SENHORA DOS VERDES.
    Apesar de não existirem certezas quanto ao “nascimento” da N. S. dos Verdes, o ex-Voto permite-nos dizer que a antiquíssima tradição da procissão das ladainhas existe depois do milagre ocorrido nos campos da região, na era de 1720.

    Continua…

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  9. Partindo deste “Milagre” fazia todo o sentido ter apostado no turismo religioso e atrair visitantes em torno do Santuário de N.S. dos Verdes, contudo o que hoje existe das ladainhas após a Ressurreição do Senhor, são apenas memórias e pouco mais.
    A freguesia de Forninhos tem algumas potencialidades que bem aproveitadas, ao tempo, podiam ter feito desta terra um ponto turístico. O Turismo Religioso foi uma delas. E não falo só no monumento, mas o culto a N. Senhora.
    Bem perto de nós temos um bom exemplo: a N.S. da Lapa. Infeliz e lamentavelmente Forninhos ficou incorporado no concelho errado.

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  10. Estas são tradições bem antigas, mas devotas a N. S. dos Verdes.
    Desde que me conheço em Forninhos, sempre vi e fiz essas singelas cruzes de pau, que eram colocadas em todos os terrenos, mas sempre com a grande maioria colocada nas cearas de Centeio ou Trigo.
    As procissões vindas de várias Freguesias, essas cada uma se juntava em determinado local, por eles já estabelecido; tambem neste dia veem pessoas de Penaverde, que se juntam próximo do cruzeiro antes de chegar á Nossa Capela.

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  11. E ontem mais uma vez se cumpriu a tradição e as cruzes foram colocadas pelos campos semeados fora da nossa terra e como dizes também fizeste estas cruzes e isso é importante paras as nossas memórias.
    Há uns versos antigos que dizem que Forninhos é um jardim sem rival, está cercada de oliveiras e não lhe falta o bom pinhal; no concelho é a primeira na produção do bom vinho, produz bom milho e centeio, tem de tudo um bocadinho; nós chamamos “Verdes” à Senhora por ser deles protectora.
    Estes escritos são um bom contributo para descrever séculos de trabalho de uma população que cultivou com a ajuda do rio Dão e seus afluentes um sem número de terrenos à volta duma povoação que fica na encosta da Serra e vê a ribeira a passar.

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  12. Cara Paula: Sei que me pediu para informar em que domingo ia a romaria de Vila Cha, como ja escrevi noutro lugar, essa romaria ja nao se realizava nos meus tempos e, nunca consegui descobrir nenhum documento que me desse a informacao correcta.
    Sei isso sim que o concelho de Algodres, ia creio que na primeira oitava do Espirito Santo, suponho que nesse dia iriam todas as paroquias que estavam agregadas a igreja de Algodres, portanto seriam Cortico, Vila Cha, Muxagata, Sobral Pichorro, Fuinhas, Maceira e Casal Vasco, para alem de Algodres! O Monsenhor Pinheiro Marques, no "Terras de Algodres" refere-se-lhe, mas muito ligeiramente e sem grandes explicacoes, por isso deduso que fosse assim!

    Um abraco.

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  13. Boa noite, é uma tradição que tenho conhecimento, e que já é comemorada há muitos anos, isso de meter as cruzes nos campos é a pedir a bênção para que os mesmos produzam em abundancia a fim de alimentar a casa o ano inteiro.
    Lendas e crenças são o que resta de uma situação muito próxima do que um dia foi vivido, por isso se realizam estas actividades religiosas para fazer lembrar e agradecer a protecção.

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  14. Segundo o que se lê nas memórias paroquiais de 1758 numa das respostas dadas pelo Cura:

    “São obrigados à capela de Nossa Senhora dos Verdes várias procissões em alguns dias do ano principalmente nos dias santos do Espírito Santo.”

    Caríssimo Al, bem sei que esta informação sabe a pouco, mas também eu deduzo que as paróquias por si referidas já no Séc. XVIII ali faziam romaria, bem como as paróquias agregadas ao concelho de Pena Verde e algumas das terras de Penalva, pelo menos, Sezures e Esmolfe. Mas, claro está, fica sempre a incerteza dada a falta de outra documentação que se conheça e falta de investigação do passado longínquo. Como lá atrás escrevi, se cada freguesia procurar as suas memórias dessa época, poderá encontrar boas surpresas para a história da sua terra. A ajuda dos mais velhos também é preciosa. Aquelas com quem tenho conversado, têm algumas lembranças das procissões de ladainhas realizadas na 1.ª metade do Séc. XX, mas humanamente é impossível saber como era em tempos mais recuados (Séc. XVIII e Séc. XIX).
    Sobre o pedido à N.Senhora para afastar a praga de gafanhotos ficou a lenda e o ex-Voto, como resultado positivo do pedido e todos os anos pelo dia 3 de Maio o povo de Forninhos cumpre o Voto à Senhora dos Verdes e pelo Espírito Santo a tradição também ainda se não perdeu por completo, ainda é costume ali ir em romaria procissões de aldeias circunvizinhas.
    Se há tradição digna de registar é a procissão de ladainhas para cumprir o Voto à Senhora dos Verdes, por ser uma tradição com alguns séculos e a principal das aldeias circunvizinhas.

    Um abraço amigo para si e outro para o amigo João.

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