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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

VÃO COMEÇAR AS VINDIMAS

Quase se atamancavam no transpôr da porteira para entrar no pátio e dizer o bom dia que anunciava que haviam chegado para o desejum da vindima: chouriça, farinheira, queijo, vinho e bagaço, num belo mata bicho! E...tal acontecia pelas sete, variando com o tempo.


Quem imaginaria que um dia o roncar dos tratores, iria turbilhar as memórias das donas da vindima caseira e quase familiar que tinham por obrigação ir primeiro na frente escolher os melhores cachos - o Jaé e Moscatel - cujas videiras escondidas vinham do tempo de seus avós...
«Estariam os cachos nas videiras, assim rezavam...».

Nesse entretanto já a irmandade calcorreava os caminhos íngremes e esburacados rumo a Valongo, melhor, ao Castiçal, mais acima, como que em procissão atrás do carro das vacas que acarrava imponente a dorna ainda vazia, se bem que segurada a preceito. O lavrador sabia a mestria dos que a prenderiam.

No socalco abaixo do alto da vinha ainda existe quase sofucada por mategado, uma figueira de figo preto riscado e no outro arreto a seguir, uns pessegueiros de aparta caroço que o tio Joaquim Branco e o Forra estreavam na vindima, ainda a pingar da orvalhada.
No pinhal, ao lado, estacionava o carro das vacas, retiradas e presas aos pinheiros circundantes, enquanto demorava o acarregar dos canastros nos ombros dos mais afoitos para entornar na dorna, ao som de cantorias por ser dia de festa. Era dia de vindima e como tal soltavam a desgarrada...Ó Moscatel, és um vinho sem igual...e dorna cheia, havia que fazer o mais difícil: levar tal por carreiros de seixos e pedregulhos sulcados e vincados pelas chuvas de inverno, com medos, mas com mestria.
Duas sacholas fortes e seguras, prendiam o topo da dorna e tal guiando para não entornar e porventura dai o termo de adornar, pondo em risco a vida dos homens afoitos, animais e mosto.
Chegados ao lagar, coisa para quem sabia. Dependia do lagar da sua boca de entrada e altura.
O do meu pai era fácil por ser de entrada baixa, mas o do meu avó Francisco, um bom lagar, era alto e carecia de gente ainda mais capaz que além de saber manejar uma dorna carregada de cachos com milhares de quilos, tinha de ter um bom lavrador a manejar o gado.
Houve uma ou outra altura a beijar a desgraça, mas passado o susto o que diziam (já mais descansados) era que virar um carro de caruma, de estrume ou de milho, era mais fácil de acontecer.
Entre um copo de regresso para a vinha, acabavam por levar a piqueta para o pessoal, a sardinha frita, as fritas e aquelas iguarias entre as quais mais um garrafão que havia que despejar, pois o novo já se fazia anunciar. A hora era a que o tempo mandava, seco ou molhado e o dono ditava se partiam para outro lado mais enxuto e depois voltavam para acabar o resto.
A janta, era quando tal aprouvesse, com os restos da piqueta e quem para tal pudesse, acrescentado com batatas e bacalhau.
E esta gente, sentada na sombra do pátio, apenas começava a comer quando ouvia o último grito dos homens ...
DEIXA TAMBOLAR A DORNA!
Não havendo gritos a seguir, a vindima tinha corrido bem e seria comemorada a preceito na noite caída, na pisa do lagar com muitas cantigas em louvor do senhor vinho.
E no fim, depois do lava pés, não cantava o maior galo da capoeira, pois estava há muito na panela pronto para comer!

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

O milho paínço


Porque está em vias de extinção e há o perigo de, quando as gerações mais antigas de agricultores desaparecerem, esta espécie agrícola ser esquecida, questionámos algumas pessoas idosas de Forninhos sobre o nome e suas origens, mas a informação apurada é escassa, sabendo-se apenas que a sua plantação era bastante frequente nos idos da década de 1940 e 1950. Segundo disseram era um milho sem espiga, que se semeava ali por Março nas terras secas e colhia-se em Julho e não necessitava de água de rega, nem de sacha, basicamente não era para a alimentação humana, mas sim para a alimentação dos animais, a maior parte para o gado de bico.
Com a chegada do milho grosso, a palavra simples - milho - passou a ser usada para este, mas o "velho milho" era designado de milho-paínço. 


De onde nos chegou então o milho paínço?
Li que é mais antigo que o arroz, a cevada, o trigo ou o centeio, é oriundo das Índias Orientais e do Norte de África e que a sua utilização continua a ser comum em lugares como a Etiópia, onde o prato nacional - Injera - é feito com farinha de milho paínço.

domingo, 30 de agosto de 2015

Os restauros da Capela

No remanso das festividades, revi os altares da secular Capela de Nossa Senhora dos Verdes, um património que gosto de admirar, e retive-me nas imagens restauradas que estão nos altares direito e esquerdo, no qual se veneram a Nossa Senhora do Leite e Nossa Senhora do Rosário, até porque em 2013 fui membro da Comissão que decidiu comparticipar o restauro da Senhora do Leite. Gostei muito de ver, pois não modificaram as suas cores. 
Para comparação:

N.S. do Leite, foto tirada em 15-08 2010
Foto tirada em  15-08-2015
Além da cor da base, as diferenças que se notam é na coroa e no cabelo, loiros, a emoldurar o rosto da Virgem, criando à volta da cabeça mais luz.
Em ambas as imagens a Virgem segura no braço esquerdo o Menino Jesus, cuja mão parece tocar no seio de Nossa Senhora, enverga um vestido cor de rosa e um manto azul, debruado a ouro.
Nossa Senhora do Leite é uma homenagem à Virgem-Mãe; a Virgem e o Menino simbolizam a maternidade e a fertilidade.

 N. Senhora do Rosário, foto tirada em 15-08-2010
Já a imagem restaurada da Senhora do Rosário de nenhum modo se pode comparar com a de 2010! Eu não gostei e gostava que ou menos desta vez alguém possa explicar/informar qual a razão da transformação, o porquê de pinturas diferentes, o porquê da não manutenção da cor original ou de gerações!

Foto de 2015
Numa próxima visita à capela para além das orações à Senhora dos Verdes façam os olhos percorrer calmamente os altares e vão reparar que existem também anjos e querubins e existem portas que se dissimulam na decoração, servindo para ser mais fácil o seu arranjo e manutenção, no entanto o tempo não perdoa e os elementos decorativos, que outrora seriam belos, são quase invisíveis. 
Também podem ver aqui a imagem restaurada da Nossa Senhora dos Verdes e comparar.

sábado, 22 de agosto de 2015

A bicharada da nossa infância

Dia 24 é dia de São Bartolomeu e era quando apareciam mais moscas em Forninhos, então ouvia-se que foram os bois lá de Trancoso que as enxotaram para cá. Adoro ouvir estas 'coisas', pois acho que têm um fundo de verdade. Mas não eram só as moscas que nos torra(va)m a paciência, outros bichos voadores também: mosquitos, moscardos e até moscas varejeirasLeiam este texto até ao fim (se fôr medroso é melhor não ler!).

Moscas
Antigamente eram também as pulgas, piolhos, carraças e os percevejos que apoquentavam adultos e crianças. 
A pior praga de que me lembro eram os piolhos. Era fácil ver ao soalheiro mulheres a catarem crianças. Cabeça apoiada no regaço ou a passarem no cabelo o pente de derrubar (de dentes mais bastos) para sobre o regaço, onde depois iam caçar os parasitas do telhado humano. Quase desapareceram, mas só de escrever já estou com comichões na cabeça!
Ainda há as melgas a chatear, as aranhas e os aranhiços e as teias deles a colarem-se à nossa cara quando se atravessa um terreno por baixo de uma arvorezita e há as abelhas que mordem e provocam inchaços horríveis. 
Pior que as ferroadas das abelhas talvez só as babas das lagartas dos pinheiros!
Há ainda as formigas normais e as de asas - as agúdes - para pôr nos custilos e apanhar agora os tralhões.
Menos agressivos e nada perigosos: os gafanhotos, o cavalinho-rei (cavalinho rei põe as mãos que eu não te matarei) e as joaninhas (joaninha voa, voa que o teu pai está em Lisboa...).
Agúde
Dos rastejantes, agora o que mais há são lagartixas, mas quando era garota abundavam os lagartos - os senhores da casaca verde - que intimidavam, mas não eram nojentos; nojentos eram as cobras, as osgas e salamandras.

Salamandra
Ainda não está enojado? É que ainda falta falar dos lacraus (que são da família dos escorpiões). Mordiam à brava os alacraus

Lacrau
Note-se que o Nacional Geographic afirma que o lacrau "é o único escorpião em Portugal".
E os bichos da água?
O que me metia mais medo era a cobra ribeirinha, depois os tira-olhos. Os alfaiates nem por isso, mas apoquentavam as lavadeiras. Eram uma praga ao de cima da poça da Eira e nos tanques.
E das moiras, lembram-se? Miúdos em algazarra, com e sem idade escolar, apanhavam girinos nas pias da fonte, para nós a da Lameira era um autêntico viveiro: íamos para lá apanhar esses seres inocentes para trazê-los para casa.

Girinos/'moiras'

Medos, nojos e brincadeiras à parte, muitas espécies quase desapareceram, algumas devido a uma melhor higiene, outras, devido a alterações dos solos e produtos químicos utilizados.

(as imagens são do google)

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

A Banda voltou à Festa da Nossa Senhora dos Verdes


Deixamos um pequeno registo da Festa da Nossa Senhora dos Verdes de Forninhos, feita com o empenho e esforço da Comissão de Festas, para todos aqueles que não puderam vir...verem como foi o dia 15, sábado, que começou às 11h00 com chegada da banda filarmónica Lobelhense e seu desfile pelas ruas da aldeia de Forninhos, 





seguindo-se às 14h30 a procissão da  Nossa Senhora dos Verdes,



Guião da S. dos Verdes a anunciar a procissão


A Cruz que indica a solenidade da procissão




 missa solene e concerto da Banda



e depois das 17h00 dança (zumba)



O baile foi à noite...
Estão Todos: mordomos, famílias forninhenses e amigos de Forninhos, de PARABÉNS!

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O olhar do talegre...

Pensava eu em menino que era o sítio mais alto de Portugal.
Na  primária, ensinavam os nomes dos rios e serras...e as linhas de comboio que nunca tínhamos visto.


Afinal a nossa serra  deslumbrante, que sempre fervilhou de passarada, cantada pelo uivar dos lobos, pelo assobio dos lavradores, pelas ceifeiras madrigais do mês de Junho cantando a desgarrada...e os pastores gritando: "acudam que é lobo..."!


 
O Henrique trouxe estas fotos, bem lindas por sinal e com elas sentimentos quase infantis, aquando a garotada ia procurar aventuras por estas serranias e sabia tão bem...
Para a esquerda, os Cuvos, terra pobre que pouco mais dava que uns bons chícharos e um milho miúdo.
Para a direita, S. Pedro, terra de bom centeio e pinheiros fortes de bicas que chegavam a ter quatro canecos de resina. Lameiros de bom feno e ranchos de gente feliz, como fomos.
Dizem que se chama marco geodésico, mas para mim continua a ser os olhos do mundo. Do meu!