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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A nossa Aguardente

Tão normal como fazer o vinho, era o fabrico de aguardente no alambique de cobre, que os nossos avós normalmente encomendavam aos latoeiros de longe, de Rio Tinto. E, porque eram poucas as pessoas que tinham o seu próprio alambique, era muito frequente cobrar por se fazer aguardente no alambique alugado (ou próprio). Em Forninhos, nem por isso, mas noutras terras chegava a andar um homem todo o dia a cobrar de casa em casa. 
O alambique ficava no pátio de uma casa, à medida que os moradores combinavam os dias para fazer a aguardente.


Depois de feita a vindima, pisados os cachos e feito o mosto, que serve para encher as pipas de vinho (hoje, vasilhas de inox), ficam no lagar, a escorrer uns dias, os restos: o engaço (pedúnculos e ramificações dos cachos), as peles e as grainhas das uvas. Então depois era colocado o canganho numa dorna e aterrado com folhas de videira ou de figueira e por cima terra, e assim se conservava e se evitava que se lhe juntassem os mosquitos.
Chegado o dia de fazer a aguardente. 
Primeiro de tudo, coloca-se um pouco de palha no fundo do pote (parte de baixo), para não agarrar, com cerca de 10 litros de água ou vinho atrasado e, de seguida, enche-se o pote de canganho. Nota: o pote do alambique da imagem, depois de cheio, leva 10 ou 15 litros de água ou vinho, consoante o aperto do canganho. 
A parte de cima, a alquitarra, enche-se com água fria.
Alto!
Antes é afixada com a ajuda de uma massa de farinha (de centeio) com água, para vedar a água e o vapor.
O pote é colocado em suportes próprios, em cima de lume forte, para a mistura ferver e libertar o vapor que é obrigado a sair pelo cano/tubo comprido (condensador/serpentina), que desce de cima, passando por dentro da alquitarra com a água. Quando começa a destilar, convém manter sempre o mesmo corrimento, pois o lume que arde e dá o calor deve ser mantido mais ou menos constante, com boas brasas e sem chama. Se escorrer demasiado, passa-se um pano molhado à volta do pote. Se não deitar o suficiente mete-se mais lenha, usando sempre este método até sair fraca...
Costuma-se usar um copo pequeno para provar a aguardente: se é saborosa, se é forte ou fraca...mas ao lançar-se um pouco dela às brasas, se as incendiar, fazendo chama, é sinal de estar forte... 
A primeira aguardente retirada, cerca de 2 jarras, parece água destilada, e só à medida que decorre a fervura vai sendo cada vez mais forte, no fim, já sai mais fraca. Era também normal misturar (caldear) a aguardente mais forte com a mais fraca.
A aguardente sai quente e depois é guardada em garrafões, dantes de cântaro e/ou almude, que seriam conservados bem fechados, depois da aguardente ter arrefecido. 
Durante o fabrico da aguardente no alambique, assam-se batatas, cebolas e bacalhau. Mistura-se tudo com bastante alho e o nosso bom azeite e acompanha-se com o vinho tinto da casa.
Presentemente, parece que estes alambiques já pouco são usados (dizem que agora é proibido) e a maioria das pessoas faz a sua aguardente nas Cooperativas da zona, em Sezures e Rãs.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Exploração Agrícola: Arrendamentos, S. Miguel

Capela antiga de S. Miguel - Quinta da Ponte, datada de 1833

Como muitos de vós sabereis, S. Miguel, segundo a tradição, foi quem derrotou Lúcifer, que nos dias de hoje chamam Diabo, e está muito ligado com as uvas e, nesta região, também com a exploração agrícola. Eu explico: quando as terras patrimoniais não chegavam, o chefe da família tomava outras de renda. O senhorio entregava então a terra ao arrendatário, mediante uma renda estipulada em dinheiro ou medidas, que se pagava pelo São Miguel, a 29 de Setembro. Geralmente o proprietário/senhorio não marcava o tempo, mas quando era estipulado prazo, o arrendamento terminava com ele; quando não, a época de as deixar era, em regra, também pelo S. Miguel; ao sair, deixava a propriedade conforme a encontrara. 
Antes da emigração era assim. Presentemente, há muitas terras "de poiso".
Também se dizia que a partir do S. Miguel acabava a sesta e deixava de ser obrigatória a merenda, pois com a passagem recente do equinócio e entrada no Outono, o dia solar fica cada vez mais pequeno. 
E quem não se lembra da festa de S. Miguel na vizinha povoação da Quinta da Ponte há uns anos atrás festejada no último domingo de Setembro? 
Esta festa, como outras, passou a ser feita no verão, mas parece, assim ouvi, que no dia 29 de Setembro...todos os anos... é celebrada uma missa e o povo da Quinta da Ponte, ainda bem, guarda dia santo!

Notas
1- Esclareço que em Forninhos a merenda se suprimia a partir do dia 7 de Setembro, há até um dito que diz que ao caminhar para o Outono a Senhora leva a merenda e traz o Diabo os serões. E, no vinte e cinco de Março vêm as merendas e abalam os serões. Mas podem conhecer melhor o costume das merendas aqui.
2- Aproveitei uma foto do Livro «Memórias do Meu Querido Torrão Natal "Quinta da Ponte"» do amigo José da Costa Cardoso, para evidenciar a festa deste Santo que a Igreja Católica celebra no próximo Domingo, dia 29 de Setembro, este ano também dia de eleições autárquicas, na nossa terra muito relacionadas com a "fé cristã".
3- Esta era a antiga Capela da Quinta da Ponte, datada de 1833, vide pilar direito; tinha um alpendre com gradeamento à volta. Com a reconstrução eliminou-se o alpendre e o interior da Capela ficou mais espaçoso.

domingo, 14 de abril de 2013

O Linho

O linho dava muito trabalho, desde a semente até às toalhas e panos branquinhos. Tudo começava pela sementeira, que acontecia entre Março e Abril e três meses depois estava pronto para arrancar e começar uma série de operações até obter o tecido do linho, que muitos leitores se calhar nunca o viram a não ser já costurado…mas quem quiser pode ver o aspecto da semente e planta AQUI.


O linho era semeado em terrenos húmidos e com bastante água, pois o linho exige muita rega, muita água. Depois de arrancado (com raíz e tudo) era ripado no ripanço, 

levado em molhos para a água do ribeiro do “Linha'do ribeiro” e poças das Androas, etc, para curtir, enterrado na água, e depois cerca de duas semanas iam estender os molhos nos lenteiros; enriquecida a fibra era levado para casa e aí começava outra série de tarefas até à fiação e à feitura das peças de uso doméstico, como camisas e lençóis e também religioso, como toalhas dos altares.

Era preciso bater muito o linho e durante muito tempo, com um maço; esfrega-lo sobre uma pedra para tirar-lhe a casca rija e fazer as “amuças”. Depois o linho era tascado no cortiço com um instrumento chamado espatela ou espadela.

No cedeiro era separado o linho mais fino do mais grosseiro – a estopa. O linho em “fêvera” fica na mão da tascadeira e a estopa cai no chão e depois destas operações ficam as “estrias” ou “estrigas” como se dizia em Forninhos, que era a quantidade de linho ainda em “rolo”, que depois passam à fiação, na roca, com o fuso.  
E para que servia a estopa? Para fazer sacos que eram vendidos na Santa Eufêmia da Matança.

Da fiação ao tear vai ainda muito trabalho

linho era então fiado com roca adequada. As mulheres punham-no na roca para depois o puxarem com os dedos, molhando-o, lambendo os dedos e dele fazerem fios, enrolando-os no fuso. Desta operação resultam as maçarocas que são postas no sarilho para dar as “meadas”.  


Barreladas em água a ferver com cinza numa panela de ferro, até o linho amolecer, passam depois à dobadoira para fazer os novelos que vão ao tear, donde sai o pano, que depois de corado alguns dias ao sol (tinham de ser regados permanentemente) serve para fazer utilidades para a casa e roupa de cama e outra. 


Os teares são também peças-chave do processo e eram indispensáveis a quem, tendo linho, queria então fazer lençóis, toalhas, panos para tapar as cestas e tabuleiros, camisas. Quem tinha linho e queria fazer peças procuravam as tecedeiras – tecelãs – de fora, mas parece que há muitos anos atrás houve teares na nossa aldeia, uma oficina onde se tecia o linho, nos fundos da casa que foi do tio Armando Castanheira, quem o fazia era uma senhora chamada Leonor, irmã da tia Ana Castanheira.


Nos teares também se faziam as mantas e passadeiras de trapos, encomendadas aos farrapeiros de fora.

A vida era muito variada numa aldeia muito habitada, como o foi Forninhos. Hoje nada disto existe. Mas como o frio e chuva estão a ir embora e regressa a vida aos campos,  preparei  uma III peça sobre o cultivo e tratamento do linho, que até há 50/60 anos muita gente o cultivou. Era uma tarefa muito trabalhosa, durante 4/6 meses em cada ano, é certo, mas muito, muito interessante.

Nota:
Arquivemos ainda a nomenclatura das medidas do linho: 2 "amuças" eram uma estria. 12 estrias e uma amuça - era um afresal; 25 estrias - eram um adeito.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Uma tradição antiga: "Vacas e Bois ao Ganho"


Havia em Forninhos pessoas, lavradores, que não tinham possibilidades económicas para ter gado, mas que faziam um contrato/acordo oral com os mais endinheirados que eram quem comprava, por exemplo, um bezerro/a e o punha na sua loja para o criar durante algum tempo, ficando portanto com o encargo de o amansar, estimar e alimentar e quando estivesse em condições de o vender, o ganho era dividido pelos dois, caso fossem animais de engorda. Caso fossem animais para trabalho, aquele que o tinha comprado ganhava mais de metade. Pela possibilidade de parição de bezerros, as vacas, eram quem mais lucro davam. Estou a vender 'a coisa' tal como a comprei, mas não é completamente certo que se passasse tal e qual, de qualquer forma este tipo de negócio era uma maneira de ambas as partes realizarem algum dinheiro, embora com maiores vantagens para quem tinha feito o investimento inicial, pois só arriscava o dinheiro e não tinha nenhum trabalho.
Como geralmente era nas feiras das redondezas que se procedia à venda de gado, e como estamos em Janeiro e está aí à porta a tão esperada feira dos Vinte do Mosteiro ou feira de S. Sebastião como diziam os antigos, que continua a celebrar-se no próprio dia (20 de Janeiro), lembrei-me de colocar esta entrada, pois antigamente foi esta feira anual um local predilecto para a compra e venda de gado, assim como a feira anual de St.º Ildefonso de Esmolfe (a 23 de Janeiro) e, ao mesmo tempo, aproveito para lembrar que as feiras, festas e convívios na nossa região não se realizam apenas no Verão e que os Santos de Inverno também são merecedores de uma chamada de atenção. 
Espero que a meteorologia ajude!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O Lagar de Azeite do Sr. Luisinho

Em Documento do ano de 1917 é mencionado que como indústria local, tinha Forninhos "fabrico de azeite em um antigo lagar". Esse referido antigo lagar era o do Sr. José Baptista, que foi desactivado em 1938. Outro dia vamos aqui divulgá-lo. Mas é o Lagar do Sr. Luísinho, que outrora foi também importante fonte de riqueza, que está hoje nas nossas memórias. 


Trata-se de uma construção ampla com paredes construídas em granito e fica este Lagar no lugar com o mesmo nome "Lagar". Já perdeu a cobertura. Ficaram as paredes de pedra, pio e mós onde a azeitona era esmagada. A recuperação sei bem que seria muito dispendiosa e muito complexa, mas restaurado podia ser motivo de atracção turística para muitos forasteiros que visitam a freguesia de Forninhos. Muito perto deste edifício existem ainda ruínas de moínhos. 


Já não sou do tempo em que na minha terra havia lagares de azeite, nem conheci o Sr. Luísinho, mas sei que noutro tempo muitas pessoas gostavam de passar a noite no lagar quando faziam o azeite. Assavam batatas, cebolas e bacalhau que regavam com o azeite tirado directamente da pia e todos comiam à volta do borralho, onde se contavam estórias. Muitas vezes a água chegava ao meio do rodado dos carros de bois carregados com os sacos de azeitona. Hoje tudo mudou. Ainda se apanha azeitona para consumo privado, mas leva-se para algum lagar das redondezas e bem vistas as coisas Forninhos é que perdeu/perde. A economia do azeite podia e devia, se fosse esse o desejo, ser aproveitada, pois a oliveira produz muito bem na nossa região e o azeite é de muito boa qualidade. Bem sei que escrever sobre isto é fácil, tomar iniciativa e combater com acções reais é difícil, mas se quisermos que Forninhos fixe e atraia pessoas é preciso ajudar os locais, migrantes e emigrantes a criar investimento que gere emprego. 

P.S: Desta vez fiz o 'post' com a conta do meu irmão, pois ainda não criei uma outra conta minha. Obrigada David e obrigada a todos pelas dicas. O blogue é hoje uma das primeiras ligações informáticas que muitos forninhenses estabelecem quando se ligam ao computador e isto não acontece para saberem as "notícias" da terra, mas por aqui recordarem bons momentos do passado e é neste local que vêem que se discute de forma séria a história e o futuro da nossa terra.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Moínhos: Património Popular

moínho do Salto
Eram raras as aldeias da nossa Beira, que não tinham moinhos de rodízio, mas porque nunca se olhou para este património popular com olhos de ver, temos perdido esses testemunhos deixados pelo povo simples e anónimo, eregidos à medida das suas necessidades, em sítios isolados, mas mui pitorescos. Um desses exemplos é o moinho da Carvalheira, que já aqui foi referido mais que uma vez, mas existem outros moinhos na aldeia de Forninhos, ao redor dos cursos de água, em Cabreira e junto ao lagar de azeite do Sr. Luísinho e no Salto, abaixo da ponte da Carriça, que foram também importantes para o povo de antigamente. Apresento, assim, aos que não conhecem, esses moínhos construídos junto ao rio e ribeira, aproveitando as águas das levadas ou açudes, só que até a água foi-se também perdendo, sem ninguém com isso se importar ou indagar as causas!!!


moínho da família Bragança



moínho de Cabreira



moínho da Carvalheira


O único que ainda lembro funcionar é o moinho da Carvalheira e se calhar porque foi o último a ser desactivado ainda lhe resta o rodízio. Para além destes moinhos, sei que houve também uns moinhos nas Caldeirinhas e outros junto ao lagar de azeite da Eira, ao tempo pertença do Sr. José Baptista, que se desmoronaram pela força da corrente. Mesmo que deles não existam ruínas, acho justo lembrá-los, assim como acho necessário fazer-se um levantamento e registo deste nosso património popular de reconhecido valor no tempo em que a cultura e colheita do nosso pão era feita pelas mãos dos homens e mulheres e o pão cozido nos nossos fornos, que podem ver aqui e aqui
*
O Moinho da Carvalheira, faz parte real da minha meninice, qual território sagrado dos Incas, onde a natureza se agitava naquele local recôndito, impregnado de lobos, corujas, raposas e aves de rapina, procurando o alimento para as crias, tal qual íamos esmagar o grão para o pão-nosso de cada dia. Adiante, os Cuvos, que mal produzia um raquítico milho, mas saborosos chicharros. Subindo a encosta para o lado direito, lá estava o imponente Castelo e do outro lado o Castro.No meio da encostava havia uma nascente que não secava, de dia para o homem de noite para os bichos.
Junto ao moinho, as Dornas e a sua gruta de água cristalina, aonde se sentia o mundo na sua perfeição absoluta! Chegava com o meu pai, as vacas arrastando o carro, chiando sobre o peso do grão e o difícil trilho.Teria seis anos de idade, mas a expectativa de passar o dia e a noite neste local mágico, acelerava o coração. Carro descarregado e vacas a pastar na orla da ribeira com o coaxar das rãs e o bailado das libelinhas, era hora de ir roubar umas ameixas ao Sr. Daniel, cá mais abaixo, encher os bolsos e a boina.
A seguir, uma vara de amieiro, um fio de nylon mais um anzol ferrugento com gafanhoto a servir de isco, sempre se apanhavam umas bogas tontas que se viam a olho nu; numa água que era brilhante. As maiorzitas serviam para grelhar e ajudar a bucha da noite, na fogueira acesa no canto esquerdo interior da moinho, enquanto a mó carrasca, esmagava o grão, chiava, esmagava, acompanhada pelo piar do mocho ali ao perto.
Enquanto o meu pai vigiava toda a noite a tarefa, eu aconchegava-me junto a fogueira, enrolado numa manta trazida de casa, e adormecia a sonhar com as mouras encantas ali tão perto.
Manhã cedo o meu pai acorda-me, carro já carregado com as taleigas da farinha, vacas junguidas, prontos para abalar, apenas faltava o caldeiro de lata que pendurou num fogueiro. O chiar do carro sobre as pedras na subida, faziam levantar as perdizes matinais, acordar os melros na ribeira e alvoroçar os tajasnos. Já em cima, um coelhito atarantado, apenas se desviou das vacas, pois eu ia sentado na frente do carro e o meu pai nas traseiras. Se tivesse uns custilos e tempo, aqueles tajasnos e mais que fora, não escapavam.
Mais a frente cruzamo-nos com outro carro de bois, que vinha para a moagem, era o dia que lhe pertencia em sortes (não me recordo quem era). 
XICOALMEIDA
Ainda bem que há quem nos dê tão belos contributos. Bem haja amigo Xico.

sábado, 16 de junho de 2012

O CORNELHO


« Junho foice em punho»


Numa seara de centeio, algumas espigas continham o cornelho(1) que era muito procurado por adultos e crianças desde que as espigas amadurecessem até às malhas, pois vendiam-no bem caro. Depois de colhido passavam por Forninhos uns homens munidos com uma “balança de dois braços” para o comprar e pagar. Não só passavam em Forninhos, mas certamente em muitas terras, onde o centeio era uma das principais colheitas da região. QUEM TEM LENTICÃO PARA VENDER? Assim diziam em voz alta. 
No tempo que o dinheiro não abundava houve com certeza muitas pessoas que apanharam bastante e nele fizeram dinheiro para comprar a roupa e os sapatos da festa.



(1)O cornelho é um fungo que se desenvolve no centeio.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Cultivo do Linho

Quando eu era pequena, em Forninhos já ninguém cultivava linho e procedia à sua fiação, mas lembro aqui alguns dos nomes de quem mais o cultivava e melhor o trabalhava: a minha bisavó Maria "dos matelas"; a minha bisavó Casimira (conhecida como a tia Caniça); a tia Eduarda; a tia Ana Catrina; a tia Maria da Lameira, a tia Adelina Guerra e a melhor tascadeira a tia Patrocínia Beleza.


Fui procurar saber um pouco mais sobre as principais operações que o linho sofre no amanho e fiquei a saber coisas como:
- Sementeira - monda - quando tem aproximadamente 5 cm de altura;
- Rega - quando a precisa. Desde que deita a flor ainda cresce em média um palmo: «da flor à baganha um palmo apanha.»;
- Amadurece;
- A arranca;
- É ripado - no ripanço;
- É atado em molhos;
- Vai para a água para curtir - durante 8 dias;
- Enxuga-se em estendedoiros;
- É maçado com maços - nos maçadoiros;
- É amuçado - esfregado sobre uma pedra para tirar-lhe a casca rija e fazer as "amuças";
- Tascado - no cortiço com espatelas;
- Vai ao sedeiro - para separar a estopa. O linho em "fêvera" fica na mão da tascadeira e a estopa cai no chão. Depois destas operações ficam em "estrias" ("estrigas" como diziam) que passam à
- Fiação - na roca, com o fuso, que imagino, seria como na imagem:


Desta operação resultam as maçarocas. Várias maçarocas são postas no sarilho para dar as "meadas". Estas são cozidas, barreladas e coradas, passando depois à dobadoira, para fazer novelos que vão ao tear, donde sai o pano que, depois de corado, serve para o bragal, isto é, enxoval.

A tradição de cultivar linho, proceder à fiação e fazer ou mandar fazer a respectiva tecelagem nos teares simples de aldeias ou vilas já acabou. Ficaram peças costuradas e as cantigas:

O linho é poeta e faz versos
como eu jamais fui capaz
Os versos que eu vou tentar
é Ele o linho que os faz

Ninguém esqueça na vida
um fio, com outro fio
dão as velas dos moínhos
mai´las cordas do navio


Fotos: Linho, cortesia do Contribuidor ed santos.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Matação do Porco de Ceva II

Rara era a família que não tivesse o seu porco de ceva. Por este tempo, tudo servia para engordar o bacorinho: as batatas miúdas, feijões, os chícharos que não se comiam, centeio e milho, viandas bem enfarinhadas. Altas horas da noite, já o animal dormia o primeiro sono, ainda a dona o media a palmo, até mandar-lhe meter a faca.
Faço minhas as palavras de Miguel Torga: «Impressionou-me sempre na vida aldeã este cerimonial doméstico, que acaba por deixar um morto de pernas para o ar, pendurado na trave da casa. Na manjedoira vai nascer o Salvador; à lareira vai-se juntar a família;  e à entrada da porta simbólica renovação do Ano Novo, o espantalho do cadáver que há-de alimentar o futuro!».
Torga (1974)



O sangue do animal é acanado num alguidar, onde se deitou pedacinhos de trigo ou sêmea para ensopar o sangue, que se vai mexendo com a mão ou com uma colher de pau. Em diversas zonas do país o sangue é recolhido num alguidar, onde se deita vinagre (para não coalhar). 
Depois de morto o porco é chamuscado com faixas de palha de centeio, limpo e pendurado, de cabeça para baixo, pelo chambaril. Nessa posição esbucha-se, ou seja, é aberto pela barriga, sendo-lhe retiradas em primeiro lugar as tripas, de seguida as miudezas, com que se fazem os mais variados petiscos. As tripas depois de limpas, servem para fazer as tradicionais morcelas de Forninhos e outros tradicionais enchidos.


É às mulheres que cabe, a meu ver, a mais inglória das tarefas da matação: apartar e lavar as tripas. Num tabuleiro comprido retiram a tira de gordura, o redanho. No ribeiro, com água corrente abundante, lavam-se as tripas com sabão. Lembro-me tão bem...quando a minha mãe me deixava, lá estava eu a ver lavar as tripas. Em casa, depois de talhadas, levam um preparado especial de aguardente, vinagre e limão. Será que é aqui que está o segredo do bom paladar do nosso enchido?

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O Rebusco

Na aldeia de Forninhos, como em muitas outras, depois das colheitas (de propósito ou sem querer) ficavam sempre frutos para trás e as famílias mais pobres saíam ao rebusco. A tradição do rebusco, era uma das mais bonitas da nossa terra, sobretudo da parte daqueles que deixavam ficar parte do pouco que tinham, pois não seriam muitos aqueles a quem sobrava alguma coisa. Não sei onde li que o rebusco tem o seu fundamento na seguinte passagem da Bíblia: «Quando tu segares a seara dos teus campos, não cortarás rés do chão o que tiver crescido sobre a terra; nem enfeixarás as espigas que tiverem ficado. Não recolherás também na tua vinha os cachos que ficaram da vindima, nem os bagos que caíram; mas deixá-los-ás tomar aos pobres e aos peregrinos.» (Levítico, XIX, Pontos 9 e 10).

Vindimas feitas e vinho modernamente armazenado,

agora é mais prático a utilização das cubas inox e é nelas que ele descansa
até, pelo menos, ao S. Martinho.

Era costume depois da vindima ir, rapazes e outra gente,
procurar nas vinhas algum cacho que escapasse aos vindimadores

Por estes dias também as aves já se foram e além dos pardais, fiéis amigos de todo o ano, só se vê um ou outro tralhão à procura da castanha ou outro fruto.

Hoje há poucas castanhas em Forninhos, porque quase não se plantam castanheiros (acho que porque há alguns anos atrás apareceu uma doença nos castanheiros), porém, houve alguns exemplares de grande porte e razoável produção e os proprietários dos castanheiros colhiam muita castanha.

Depois de colhida a castanha, ficavam sempre alguns frutos nas árvores (ouriços) ou escondidos pelas ervas e folhagem. Os proprietários autorizavam aqueles que não possuíam castanheiros de ir ao rebusco da castanha.

Também a azeitona que alguns anos atrás não chegava para o consumo,

para poupar o azeite, todos molhavam as batatas num prato de barro, sendo que o azeite era muitas vezes misturado com água, agora muita fica nas oliveiras, pois a idade já não ajuda, os custos que comporta a sua colheita são elevados e já não se encontra quem a queira varejar.

Antes, viam-se ranchos na vareja que alegravam o trabalho com cantigas e risos, hoje, aqueles que já não têm forças para a apanhar, para não a deixarem nas oliveiras, optam por a dar de terças ou meias, mas ainda assim também há dificuldade em encontrar quem o queira fazer.

Depois da colheita da azeitona também os mais desfavorecidos saíam ao seu rebusco. Munidos de um cesto, balde ou lata, juntavam quilos de azeitona. Era um trabalho duro e pouco produtivo, mas era a única maneira daqueles que não tinham oliveiras ter alguns litros de azeite.

sábado, 8 de outubro de 2011

Fornos: Património Popular


«Haja Saúde e Coza o Forno e o Pão que seja nosso». Uma frase que no passado o povo dizia. Em verdade, a importância maior para o povo era a Saúde e o Pão, alimento de todos os dias, mas para haver pão na mesa, tinha de cozer o forno. No Forninhos antigo, havia o forno da tia Purificação, o da tia Esperança, o da tia Geménia, o do tio Luís da Coelha e o do Sr. Amaral. O forno do Lugar e o forno Grande (na Lameira) eram do povo. Cada família tinha o hábito de ir cozer ao forno mais próximo e/ou por simpatia com o dono do forno. Em muitas terras, os fornos "comunitários" com proprietário, embora de livre acesso, os utilizadores tinham de pagar a «poia» (paga por fazer pão no forno). Na nossa terra nunca se pagou por fazer pão nos fornos particulares. O espírito comunitário sempre foi um traço vincado que marcou o povo forninhense. Curiosa era a prática de emprestar o fermento. Uma malga com fermento rodava pelos vizinhos, que tinham obrigação de devolver novo fermento. Era também prática corrente emprestar pão ao vizinho ou vizinha até que este(a) cozesse e devolvesse o pão que tinha pedido emprestado e ninguém regateava o tamanho ou o sabor do pão, reforçando desta forma os laços de comunidade.




O que diriam os antigos proprietários e utilizadores destes fornos se deparassem com o cenário que estas fotos documentam?

sexta-feira, 25 de março de 2011

A Salgadeira

Ora aqui está mais um assunto, ou melhor, uma tradição que também pode estar em vias de extinção: o uso da Salgadeira, arca em madeira que se enche de sal:


Quem fez esta salgadeira antiga foi um grande carpinteiro de Forninhos, o tio António Carau. Acho o modelo desta salgadeira muito interessante, com compartimentos; um, para salgar as carnes e conservar os untos; outro, para a panela de barro com azeite usado para conservar alguns enchidos depois de retirados do fumeiro.
Sabiam que durante muitos anos era prática nos 40 (quarenta) dias de preparação para a Páscoa, algumas famílias forninhenses pregarem a arca salgadeira? A Quaresma era um período de penitência, jejum e oração e, sob o ponto de vista alimentar, um período magro.

Foto: Salgadeira (Cortesia da Natália)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A Desmancha

Um ou dois dias depois da matação, mãos hábeis hão-de desfazer o porco em pedaços... É a "desmancha". Para este trabalho usavam facas bem afiadas e a machada para cortar os ossos da cabeça e costelas. A carne era separada, a gorda para um lado, a magra para outro, as costelas para outro. Alguma ía para o fumeiro, outra ía para a arca salgadeira, onde era bem acondicionada com sal. Nada ficava sem sal e assim se mantinha branca e saborosa durante todo o ano. Por isso, na linguagem do povo das aldeias se dizia que “a salgadeira era o governo da casa”.


A minha família teve desde sempre uma grande relação com a matação do porco, este acto doméstico sempre foi praticado em casa e na família sempre houve um matador. Tanto o meu avô materno, Antoninho Matela, como o meu avô paterno, Zé Cavaca, eram bons matadores. Nestas 2 fotografias envelhecidas, Dezembro de 1971, o trabalho de desmanchar o porco foi feito pelas mãos do meu avô Cavaca, e o aprendiz é o meu pai. O meu avô Cavava, adoeceu ainda novo e acabou por deixar a família pouco tempo depois destas fotos terem sido tiradas. Faleceu no dia 20 de Novembro de 1973. Não me lembro dele, mas tenho muitos registos fotográficos do meu avô, por isso, é como sempre o tivesse conhecido.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Matação do Porco de Ceva

Sobre a matança do porco, Miguel Torga, escreveu: «Por alturas do Natal, começa a matança. Ao romper da manhã, a paz de cada povoado é subitamente alarmada. Um grito esfaqueado irrompe o silêncio. Dias depois desmancha-se a bizarma e um pálio de fumeiro cobre a lareira.».
O

«O porco, criado e cevado com desvelos de que gozam poucos humanos, lá está a sangrar no banco do sacrifício. Berra que espanta a penumbra da madrugada, mas o seu sofrimento não encontra eco nos ouvidos de ninguém. Quanto mais barulhenta for a agonia, mais escoado ficará o seu corpo no chambaril.».
Apesar do sofrimento do animal, a matação noutros tempos era um dos acontecimentos com mais entreajuda e espírito de grupo na vida das gentes forninhenses. No dia da matação convidava-se a família e amigos para todo o dia, trabalhava-se, comia-se, bebia-se, pelo meio havia uns joguitos de sueca e xincalhão, podemos até afirmar que o dia da Matação era um dia de festa.
Recordamos aqui uma matação feita no pátio da família Guerrilha, não sei o ano, mas dá para ver que já passaram uns anitos sobre este dia. Os homens deitaram mãos à obra como convém, não deixando escapar os dois porcos e cumprindo as etapas próprias deste ritual...esta tarefa, como sabem, tem rotinas muito precisas e é feita com muito empenho e só por quem sabe. Aproveito este post para uma homenagem aos bons “matadores” de Forninhos.

Depois segue-se a desmancha, de onde virão os torresmos (como já aqui publicamos), as chouriças dos bofes e da carne e mais tarde as pás e os presuntos, tudo uma delícia, com um sabor de tradição.


Nota:
Coloquei O (bolinha) para as pessoas mais sensíveis.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Destilação do Bagaço em Alambique Tradicional

Este ano mostramos aqui a faina das vindimas em todo o seu esplendor e para dar continuidade a este tema, depois das uvas apanhadas e pisadas, depois do período de fermentação, depois do vinho retirado dos lagares para os pipos, hoje, para as vasilhas de inox, fica o canganho que vai servir para fazer a aguardente bagaceira. Esta tarefa está cada vez mais em declínio e cada vez se faz menos, mas ainda vai fazendo parte do quotidiano da nossa aldeia.


Vamos então espreitar o alambique da família Guerrilha, que sempre foi muito requisitado porque, de facto, eram poucas as pessoas que tinham o seu próprio alambique, e que é um dos poucos que ainda se mantém em funcionamento:






Que belo momento este em que as tarefas são vividas com sentido comunitário



Os participantes estão de parabéns e o blog dos forninhenses agradece à família Lopes pela recolha das fotos que agora ilustram esta postagem.