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sábado, 29 de outubro de 2016

"Comer e Calar..."

Não era só em Forninhos, por este Portugal fora, a mulher dependia do homem e vivia sob as suas ordens. Nem a frase "Lá em casa mandam elas" lhe atribuíam igualdade, superioridade então...! Estavam preparadas para a sua condição inferior, até por ficarem atrás na igreja, enquanto os homens ficavam à frente.


Em Forninhos houve sempre homens mal formados que maltratavam as suas mulheres, uns, porque passavam o dia na taberna, a jogar e a beber até se emborracharem e depois de noite vinham para casa entreplicar com a mulher. Outros, porque eram maus por natureza davam enxertos de porrada nas mulheres por tudo e por nada! Essas "comiam" se deixavam a porta aberta e também "comiam" se a deixavam fechada!
Quando se fala do assunto vêm logo à baila o nome dos mais "famosos".
A uns dava para bater, a outros dava para partir a loiça e a outros dava para andar atrás da mulher com uma corda, um pau, uma faca, a ponto de a mulher ter de dormir fora de casa, até que a bebedeira ou a ira passassem ao homem e ela pudesse voltar para casa.
E, nesses tempos, elas tudo sofriam, sem revolta, tomando esses actos como normais, sendo que algumas, por vergonha, ainda os encobriam; já outras ainda se gabavam de nunca os homens lhe terem posto um dedo em cima! Coitadas!
O cenário nas aldeias mudou, já não se ouvem gritos de "Ó da guarda", "Acudam-me", "Quem m´acode" e até na igreja muitas ficam à frente, ao lado dos homens, mas a realidade é que ainda por lá há casos de violência, mais de violência psicológica, casais de que toda a gente fala e ninguém faz nada, porque "entre marido e mulher ninguém mete a colher".

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

As carvalhinhas


Vêm-lhe o nome, certamente, porque a margem das folhas tem recortes que se assemelham às do carvalho. Florescem naturalmente a partir do Outono, quando o número de horas de luz começa a ser reduzido. Hoje em dia já existem muitas variedades, logo podemos ver carvalhinhas com tamanhos variados e cores diferentes (branca, amarela, cor-de-rosa, lilás...), mas há anos atrás eram só as branquinhas que enfeitavam as campas dos nossos defuntos daqui a dias, dia de "Todos os Santos", quando as campas do cemitério eram mesmo campas e poucas pedras sepulcrais havia. 

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O CHEIRO DO BORRALHO


Agora os tempos são outros, há quase tantas maquinetas no céu como estrelas este tem, porventura menos certeiras no dizer se vai chover amanhã que a sabedoria popular antiga que por esta altura do Outono a que alguns chamam de Primavera do Inverno, se precaviam de modo ancestral para afrontar estoicamente o frio e a mingua que este acarretava.
Bem de primeira necessidade, a lenha essencialmente dos pinheiros que eram sagrados pela riqueza das bicas de resina e por tal quase intocáveis. Tempos difíceis em que a própria caruma era regrada, tal como as giestas para fazer o estrume orgânico para as sementeiras e por tal, por estes dias moribundos de sol, muitos iam apanhar os tangos (ramos secos dos pinheiros, mas muito altos) para provisionar a casa de lenha, nada se perdia, desde os molhos de caruma, os das vides da videiras podadas e as sacas de pinhas. Nem os carolos do milho, logo o canganho da vindima iria virar aguardente no alambique. 
Outras iam mais longe, subiam a serra e iam até à Farrangeira em busca dos sorgaços e suas raízes.
E assim surgia a fogueira acesa na lareira, com ramos verdes e secos, conforme a possibilidade e em volta da qual se soltava a alma de um povo, mais ligeiro enquanto ardia e se assavam umas batatas e cebolas rachadas cobertas de cinza, por cima umas brasas e que iriam acompanhar um conduto qualquer, ou não, para a ceia que tardava tal como o "graças te damos Senhor por esta refeição que nos acabaste de conceder...".
Enquanto se arrumava a cozinha, recordo o meu avô a colocar algumas cavacas secas na fogueira para fazer um bom "brasiol", brasas vermelhas e intensas que iriam durar noite adentro, mais que o nosso negar de sono que na primeira história dele esmorecia a nossa resistência e no boa noite ensonado íamos viajar para o vale dos lençóis...
Chegava finalmente o remanso, portas e janelas deixavam escapar pelas frinchas o pronuncio do Inverno, mas na cozinha quente era agora ao borralho que pausadamente se falava da vida pessoal e dos outros, o contar do que se foi ouvindo no campo, alegrias e tristezas e do feito e do que haveria a fazer no dia seguinte.
Ainda bem que as crianças há muito dormiam, não fossem ouvir o deitar de culpas de coisas acontecidas por feitiçarias, nem barulhos da noite provocados pelo lobisomem, pois lobos e raposas eram coisas banais. Falavam que um homem da da aldeia havia morto um vizinho à sacholada...tudo isto enquanto no assador iam estoirando as primeiras castanhas, se cosiam umas meias de lã e começava o treino da roca de linho e a panela grande de ferro, aproveitava o calor para cozer a vianda dos porcos para cevar para a matação....
Recuado no tempo, aprendi o significado da palavra "antanho", por tal estas coisas não esquecer vou procurando coisas de outrora sem registo histórico lavrado em papel, mas nas memórias e que vai perdurando.
Hoje e a propósito do tema, recebi uma "prenda", porventura uma saborosa e genuína crendice de que poucos se devem lembrar ou ouvir falar...
Uma das coisas que por vezes se faziam ao borralho, quando uma mulher estava grávida, era pegar numa castanha que estava meia oca, vazia, digamos e que tivesse acoplado um rebento a que chamavam "filho" a que chamavam de "bonequinha" . O intuito era saber se a grávida tinha no ventre um menino ou menina e para tal, cuspiam na castanha e colocavam esta sobre uma brasa da lareira e esperavam...se esta desse um estoiro ao rebentar, era menino, se desse um bufo, era menina!
Bom, já taparam as brasas com cinza, querem ir dormir.
Boa noite.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Novas da Capela

Em post anterior que pode reler aqui, referi-me à nossa capela, mas esqueci-me do alpendre. À data em que fora erigida a capela (digamos em 1696),  o alpendre não existia. E acrescento uma nota imaginária (ninguém me levará a mal por isso): depois do povo construir uma igreja maior, para poder comportar mais gente, fora desejo do mesmo povo ter uma capela maior. Tornou-se realidade esse desejo e construiu-se o alpendre em 1838, conforme data gravada.


Mas interessa-me saber se a capela é anterior a 1696. 
A respeito desta matéria, uma vez mais, na obra de Forninhos, há contradições. 
Sobre a edificação ou surgimento da nossa capela lê-se, pág. 130 (início): "...a edificação da capela da Senhora dos Verdes deve-se à forte devoção para com a Virgem, em virtude do milagre relacionado com a salvação das colheitas." .
Para mim, isto não faz sentido nenhum, porque a capela (sem o alpendre e talvez sem a sacristia), já existia antes da praga dos gafanhotos de 1720, pois só assim se explica o voto, nenhum povo ia fazer um voto a uma capela que não existia! Uma coisa é o culto a Nossa Senhora dos Verdes, outra coisa é a capela! E, ainda para mais, porque existe a data de 1696 gravada numa pedra que remete para finais do século XVII.
No último parágrafo da página, sobre a sua arquitectura, já é referido: "...porventura edificada na transição do século XVII para o XVIII..."



Porque quem informa ou escreve tem a obrigação de estar um passo adiante dos leitores, pois para isso se prepara e investiga, sou a informar o seguinte: 
Compulsados os livros de registos da Câmara Eclesiástica de Viseu, onde se registava a instituição de igrejas e capelas da diocese não há nada sobre a nossa Capela (a série correspondente aos livros da Câmara Eclesiástica principia em 1694 e vai até ao século XIX). Segundo me informaram, para o período anterior existem apenas registos esparsos, a maioria da documentação relativa a igrejas e capelas perdeu-se ou está em parte incerta e isto pode significar que a nossa capela seja de construção anterior a 1694, pois se tinha de ser concedida uma licença ninguém acredita que se instituísse a capela da Senhora dos Verdes, sem que se tivesse feito o respectivo registo no cartório da diocese com as respectivas licenças. Na realidade não eram passadas duas licenças, mas apenas uma no final do processo de instituição das capelas ou igrejas. Este (final do processo) era constituído por várias partes: pedido de 'licenciamento' da capela por parte dos instituidores do templo; avaliação das condições do templo, geralmente feita por parte do pároco da localidade onde se encontrava sediada a capela; autorização, com a respectiva licença da instituição do templo. Era assim que as coisas se passavam realmente. Foi assim que se efectivou o processo da construção da nova igreja de Forninhos em finais do século XVIII.
Mas, sobre as licenças, no parágrafo 2.º, da página 130, lê-se isto: "...para a edificação de uma capela tinha de ser concedida uma licença, a qual só era atribuída após informação do pároco sobre a decência do lugar e qual a utilidade do templo. Igual procedimento se verificava quando estava concluída a obra, na qual não se podia celebrar missa sem a concessão de uma nova licença para efectuarem a bênção do novo templo...". (sublinhado nosso).
Note-se que o referido é sobre todas as capelas públicas, pois no caso específico da Capela da Senhora dos Verdes «nada», ainda assim por que motivo os autores afirmam que eram passadas duas licenças para a edificação de uma qualquer capela?

Nota: Pela minha parte, tenho informado o pouco que sei e posso, no sentido de repôr a verdade dos factos relacionados com a minha terra, agora cabe aos outros netos de Forninhos que frequentam esta página apreciar como lhe aprouver o que se disponibiliza. 

sábado, 1 de outubro de 2016

Coisas da Escola

Não havia mesas ou secretárias, havia as carteiras em madeira com tampo inclinado e o quadro da escola, à frente, enorme, que era quase sempre fonte de conflito: quem ia ao quadro era de castigo e a seguir o castigo ainda era pior, para alguns...



O alfabeto era o meu preferido.
Nós líamos o alfabeto assim:
- A, Bê, Quê, Dê, É, Fê, Guê, Agá, I, Jê, Lê, etc...
Hoje é como vocês sabem.
Ora, este modo de ler os nomes das letras levavam a que houvesse sempre confusão com duas letras cujo nome era lido da mesma maneira, por exemplo: o 'c' e o 'q'. Ou seja, com leitura da época os dois eram 'quê'. Então o 'c' era quê e aquele que fica lá para a frente no abecedário, depois do 'pê' era o 'q' de 'qua qua'.
Mas havia uma fórmula muito mais antiga de o chamar: era o 'quê de 9'. Se não acreditam basta perguntarem aos pais ou avós, consoante a idade que tenham...ou aceder aqui.
Se reparar esse quê e o 9 são iguais no desenho. A posição relativamente à linha de escrita é que é diferente: o quê assenta a barriga na linha, ao passo que o nove assenta na linha a pontinha da 'haste'.  
Essa linha, era sagrada. A barriga de cada letra tinha de assentar nela.
Devem lembrar-se que para os principiantes até havia cadernos de duas linhas, ou seja, cada 'linha' de escrita eram afinal duas linhas e era dentro delas que se escrevia: nem para cima, nem para baixo, à excepção, claro, da haste do quê para baixo, a do 'dê' para cima, a do 'pê' para baixo, o 'h' que ultrapassava a de cima, etc...
E a tabuada? 


o meu livrinho da tabuada

Não havia calculadoras, nem computador para fazer contas, felizmente aprendemos a fazer contas nós mesmos! As contas eram feitas na cabeça de cada um (eu às vezes contava pelos dedos, confesso).
Tardes inteiras, em grupo, a decorar e cantarolar: 
- 2 vez 1, dois.
- 2 vezes 2, quatro.
- 2 vezes três, seis...e por aí adiante...
Acho que a cantilena era a mesma por todo o país, com a mesma entoação.
Letra e música feitas nas escolas do então Magistério Primário do nosso país, pelos vistos!
Não há como não lembrar também o livro de leitura de cada classe e o material que não era propriamente de ensino, como a régua -não a régua de régua e esquadro-, mas das reguadas e a vara de carvalho ou cana da índia ou fosse lá do que fosse - eram estes os materiais muito em voga nas mãos dos professores da época. 
E, finalmente, mas não menos importante, os mapas, o globo terrestre, alfabetos em madeira, unidades e instrumentos de medida.



Notas:
- Não são do meu tempo: o aparo e a caneta do tempo e o tinteiro na carteira; a pedra de ardósia e a pena (julgo que também de ardósia, o giz veio muito mais tarde) com que se escrevia nela, a palmatória e as fotos de Salazar e Tomás.
- Li sobre o 'quê de 9' num blog chamado "capeia arraiana", a cujo autor agradeço, e foi por aí que nasceu este artigo.