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sábado, 27 de fevereiro de 2016

O Jogo do Raminho

Hoje é dia de apanhar algumas pontas que têm ficado mal atadas nestes anos todos. Por exemplo há uns aninhos falei dos jogos que jogávamos e falei por alto do jogo 'das comadres e dos compadres',  mas afinal o jogo das 'comadres' e dos 'compadres' não era apenas um jogo ou sorteio de nomes que acabava com  os casamentos carnavalescos, o sorteio do dia das 'comadres' distinguia-se do sorteio dos 'compadres'. O jogo das 'comadres' terminava no sábado de Aleluia, em que os rapazes presenteavam as raparigas com amêndoas.
Mas acabo de saber que afinal houve um outro jogo de sugestão amorosa praticado em Forninhos, com que as nossas mães, as nossas avós e bisavós brincaram. Chamava-se o Jogo do Raminho.


O jogo consistia no seguinte:
Aos domingos e dias Santos, depois do almoço, quando não havia baile, as raparigas juntavam-se em lugar abrigado ou ao sol e aí pegavam num raminho qualquer, malmequer, oliveira, alecrim, loureiro, sabugueiro...
A moça do ramo passava-o então à parceira do lado e dizia:
- Toma lá este raminho e adeus que eu me vou.
E a outra respondia:
- P´ra onde vais?
- Vou acarta do meu amor que tu não me dás.
- Dou, dou...
- Quem tu me dás? E encostava a boca ao ouvido da parceira, segredando-lhe:
- Dou-te F...
Novamente se repetia a lenga-lenga e se passava o raminho à moça seguinte e se dizia ao ouvido o nome dum rapaz e assim continuavam até se darem 5 voltas ao grupo, dando-lhe um namorado de cada vez.
Depois cada uma das participantes era convidada a dizer qual dos 5 nomes que lhes segredaram ao ouvido era preferido ou com qual ficava.
A escolha era assim, a primeira perguntava à segunda:
Quem te veste? Fulano, um dos cinco.
Quem te calça? Fulano..
Quem te dá comer?
Quem te leva a passear?
Quem te leva para a cama? Ela citava o nome e claro era este o eleito.
Feitas as confissões o jogo terminava.
Esta simples brincadeira foi com certeza veículo de alguns casamentos, pois constituía de certa maneira o primeiro passo a dar no caminho do namoro.

(Informante: M.ª Augusta Guerra da Fonseca).

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Mães de peito

Pintura de David Gerard
Noutro tempo havia muitas mulheres paridas e muita gente mal nutrida, assim, apesar de seios avantajados, faltava o nutriente para os rebentos. Havia muitos meninos e pouco leite. Recorriam então a quem lhes pudesse dar o peito para mamar por "esmola", sendo que eram considerados "filhos da esmola".
A tia Clementina teve três filhos e não dava leite, mesmo a vizinha, poucochinho, quase nada, mal dava para os dela, mas lá se amanharam e sobreviveram.
Uma mulher que bem conheci, teve sete filhos, quatro foram para os anjinhos de meningite ou o que quer que fosse, havia tanta maleita, sobreviveram três dos seus e  outros mais, entre eles a Clementina Pega e a Adenera que por as ter amamentado a chamavam de "mãe".
Outra mulher houve que tenho tido a filha, era muito abundante de leite e por tal ainda sobejava para dar de mamar a uma criança, hoje uma mulher  ainda robusta e trabalhadora.
Houve ainda quem na precaridade da vida, houvesse sido criado a café de cevada...
E aquele que diziam que nasceu de sete meses, nesta aldeia do fim do mundo, e a parteira para ele olhando, descrente, duvidou por estas palavras que ele fosse avante "as camisas que rompesse, não as pagavas tu...". Condenado pelo correr trágico da vida.
Mas havia mais. Quem pudesse, ainda se podia valer em quase extrema necessidade de chá de flor de laranjeira, mas pouquinho, apenas para limpar a boca da criança e do leite de vaca, havia que ter cuidado por se tratar de leite grosso.
Por tal e muito mais, sofriam as progenitoras. O trauma de poderem falhar na sobrevivência dos filhos, findo mais de meio dia de terem parido e o leite não escorrer. Não pensem em médicos, pois nem estradas havia, mas uma ou outra mezinha ou saberes ancestrais, tal como senhora mãe que quis provar por si se fulana tinha ou não tinha leite e dela mamou. Não tinha, nem uma gota! Foi salvo o rebento de uma coisa estranha, o leite em pó, naquelas latas do pós-guerra da Caritas...
E estas mães de peito, podendo, para se nutrirem a si, aos seus e dos outros, bebiam o segundo litro de leite cru de vaca, da ferrada da ordenha. O das ovelhas era sagrado para o queijo e o sustento.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Forninhenses em terras do Brasil

As minhas pesquisas sobre o passado de Forninhos, factos, pessoas, estórias, seguem a bom ritmo. O material existente é já vasto e em grande parte inédito.
Desta vez fui em busca dos dois filhos dos meus bisavós Teresa e Eduardo que emigraram para o Brasil (António e Ilídio de Albuquerque), etc...e entre pequenos avanços e grandes recuos, becos onde se não vislumbrava qualquer saída, enfim, um pouco de tudo, eis que de repente encontro o cartão de registo da filha do Ilídio de Albuquerque e Aurora de Jesus. 
O irmão mais novo do meu avô Cavaca tinha na altura - 1936 - uma única filha com 6 meses de idade de nome Alice, e decidiu com a sua mulher Aurora, partir para o Brasil, deixando a bebé com os meus avós, Zé Cavaca e Maria Coelho, conhecida por Maria Coelha. Este registo permitiu-me chegar a outros forninhenses em terras do Brasil, gente que partiu para lá entre 1920 e 1960 em busca de uma vida que fosse para além do trabalho agrícola de sol a sol e que muitos de nós não conhecemos:


Mais tarde a Alice foi viver com os avós maternos para Moreira, freguesia de Penaverde e o seu pai, Ilidio de Albuquerque, faleceu ainda novo em terras do Brasil, sem que tivesse voltado à sua pátria. Já foi em idade casadoira que a Alice foi chamada para o Brasil pela sua mãe Aurora.


José Marques Coelho, filho de José Marques Coelho e Emília Coelho, nascido em Forninhos a 20-01-1906.


José dos Santos, carpinteiro, filho de Francisco de Almeida Esteves e de Alice dos Santos Marques, nascido em Forninhos a 08-04-1930.


António Gonçalves, filho de António Gonçalves e Patrocínia de Jesus, nascido em Forninhos a 15-02-1924.


Maria Filomena Carreira de Almeida, filha de António de Almeida e Albertina da Silva Carreira, nascida em Forninhos a 06-01-1935.


António Coelho de Almeida, filho de José Coelho e Justina de Almeida, nascido em Forninhos em 11-01-1901.


Américo dos Santos Melo, filho de José Ferreira de Melo e Aurora de Jesus Pires, nascido em Forninhos em 13-05-1920.


António Vaz de Melo, filho de Américo dos Santos Melo e de Ermelinda da Conceição Vaz. Nascido em Forninhos em 03-01-1953.


Maria Augusta de Almeida Esteves, filha de Daniel Esteves e de Ana de Almeida. Nasceu em Forninhos a 08-01-1934.


José Augusto Esteves, filho de Alípio Batista e Júlia dos Prazeres, nascido em Forninhos a 23-01-1902.


António Augusto, agricultor, filho de pai icógnito e de Maria da Graça Fernandes. Nasceu em Forninhos em 28-01-1918.


José dos Santos, filho de António Marques e Maria de Albuquerque Moreira. Nasceu em Forninhos em 22-04-1920.


Armando de Almeida, agricultor, filho de Diogo de Almeida e de Luiza dos Santos, nascido em Forninhos a 19-10-1921.


Rosa Craveiro, filha de António Paulo Craveiro e Esperança de Jesus. Nasceu em Forninhos a 22-02-1909.


José Urbano, pedreiro, filho de Maria Urbano, nascido em Forninhos a 20-01-1908.


Maria Adélia, filha de Francisco de Almeida e de Etelvina Fernandes. Nasceu em Forninhos a 29-11-1929.


Maria Augusta Batista, filha de Luiz de Almeida Nunes e Maria Batista dos Anjos, nascida em Forninhos em 07-01-1917.



Adenera Augusta, filha de Manuel Ferreira Urbano e Palmira Fernandes, nascida em Forninhos a 20-08-1918.

Gentes Forninhenses.

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Um agradecimento especial ao Aurélio Fernandes, filho da Alzira e neto da Etelvina Fernandes que me ajudou nesta pesquisa.
Colaboração: XicoAlmeida.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Entrudo: Matação

Já lá vão uns três anos que publiquei o post  "E o Carnaval acabava", mas como nunca está tudo dito hoje publico mais umas fotografias disponibilizadas por mão amiga. Segundo informação recolhida na altura, 2012, são do Carnaval de 2004 ou 2005 e representam, a meu ver, muito bem a terra onde nasci, cresci e até 1990 vivi; são um exemplo bem representativo daquilo que as gentes de Forninhos, espontaneamente, eram capazes de fazer; são a prova que na altura havia isenção naquilo que se fazia.
Agora, os forninhenses que pensem  porque é que de há meia dúzia de anos para cá tudo o que se faz, ou tem a mão da Junta de Freguesia ou a mão do Centro Social e Paroquial.


O sangue do animal é acanado num alguidar e depois o porco é chamuscado com faixas de palha de centeio a arder. Não há muitos anos era assim em Forninhos a tradicional matação do porco.





Nos últimos anos o funeral do Santo Entrudo (um boneco de palha de centeio) era feito pelo tio Zé Coelho, que assumia o papel e sacerdote.


Os rapazes da terra assumiam o papel de acólitos e todos, sacerdote, acólitos, populares, de forma dramática, choravam e enterravam o Santo Entrudo.



Como estamos em época festiva, aproveito para desejar a todos os visitantes d'O Forninhenses um Bom Entrudo/Feliz Carnaval.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O cardo

Nos últimos anos e por esta altura, tem sido recorrente nos canais televisivos o aproveitamento de feiras que promovem o queijo em terras das Beiras. Trazem para gáudio dos que dançam ao som da música pimba, vedetas imberbes que se extasiam no proclamar 'liguem o 760...". 
E por onde fica o valor material do cardo, a alma do tesouro, o coração das queijeiras de mãos frias para o leite bem coalhar, benditas entre as mulheres por terem o dom...?


Prefiro pessoalmente voltar no tempo e transcrever um pouco das résteas arrebitadas por gentes vividas, pelo que vai essencialmente  o meu escrito para os forninhenses que aqui gostam de vir ler e que agradecem aquando nos encontramos com eles por entre abraços.
Pergunto se ainda lembram o cheiro do cardo e ao menos a sua forma?
Agora vê-se pouco, pelo que os mais novos soltam a indiferença num ombrear; desconhecem ser a sua flor a responsável pela coagulação do leite que dá origem ao famoso queijo da serra; os menos novos, o que interessa isso? Mas as avós recordam "... a gente plantava mais junto das oliveiras ou terrinha sombria, depois aquilo deitava umas cabeças tipo alcachofra. Quando abria, tipo espiga, a gente, as garotas, com uma tesoura íamos cortar aquelas pontas que as nossas mães deitavam ao sol para secar e depois esfarelavam por entre os dedos, estava pronta ...". "Qualquer tonadinha dava para coalhar o leite, na devida proporção deste".
Mas antes...
- O cardo tinha de passar pelo cepo! 
Desconhecia que era tipo almofariz, pois nele se esmagava o cardo com um instrumento tipo martelo e bocados de sal, digo, pingos deste...
O cardo, coitado, depois ainda iria passar pela boca do pote de lata com paninhos limpos para depois coalhar o raio do queijo. Era mais ou menos uma hora, mexido com uma cana em redol do lume, mas também era conforme.
Sendo apenas de uma ordenha, a coisa não metia medo, mas havendo leite da primeira e depois da última, a coisa tinha de ser orientada, pois o mais antigo tinha de ser embornado para coalhar melhor, em água morna e não ficar retalhado.
Enquanto o cardo esperava...