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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

II Certame Gastronómico do Míscaro


Num concelho onde existem muitas espécies micológicas, mas que nem todas são reconhecidas, a Câmara Municipal de Aguiar da Beira pretende pelo segundo ano demonstrar que muitas são comestíveis. Contudo, já sabem, todo o cuidado é pouco, e a sua correcta identificação é o primeiro passo para evitar problemas maiores. 
Espero que a gente de Forninhos (e também  todos vós leitores) vão até lá participar na apanha e assistir à palestra para, pelo menos, desfazer alguns mitos acerca da identificação das diferentes espécies de cogumelos, pois trata-se de uma oportunidade de conhecer um pouco mais sobre cogumelos e ainda provar um dos melhores pratos: um belo arroz de míscaros...e outras iguarias feitas com base neste alimento.
Também vai haver um lanche-magusto-ceia, com animação.
O evento vai decorrer nos dias 15 e 16 de Novembro de 2014, Sábado e Domingo.
Esperamos por si.
Para saber mais é só clicar:
E já agora informo: existem em Forninhos duas Casas de Turismo Rural, a "Casa Fonte da Lameira" e a "Casa das Camélias da Beira", é só reservar (contactos na «net»).

domingo, 26 de outubro de 2014

A pilheira

O termo "pilheira" significa em Forninhos, a parte da retaguarda da lareira onde se depositam as cinzas sobrantes do último lume, que seria menosprezada, não fora que ainda hoje nos meios rurais protege as culturas da geada.
A propósito de cinzas: já ouviu falar em "ollas"? Eu não. Mas as "ollas" eram o equivalente às urnas cinerárias, normalmente feitas de barro, mas também de chumbo e de pedra onde depositavam as cinzas mortuárias, sendo guardadas no próprio chão das sepulturas ou mesmo na própria casa. E, o termo "pilheira", no tocante aos ritos cinerários, significava o espaço onde se guardam as ollas.
É minha convicção que o termo pilheira poderá remontar a esse tempo em que as cinzas eram guardadas em casa, no lar...nesse tempo longínquo em que os nossos antepassados cremavam os corpos e quiçá guardavam, cada um, as cinzas dos seus. 
Desculpem levar a conversa para algo triste, mas tudo faz parte da nossa história, mesmo quando falamos da morte. Já as nossas avós diziam aquela lengalenga que começa assim: "à morte ninguém escapa, nem o rei, nem o papa...".



Cozinha antiga com pilheira. Uma relíquia do passado!

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Sepulturas escavadas na rocha


Esta sepultura escavada numa pequena rocha, encontra-se numa mata (pinhal) a sul da lagareta que se encontra perto da Capela de N. S. dos Verdes, em Forninhos. Tem 1,70m de comprimento e 50cm de largura na parte superior e 40cm na parte inferior e a cabeça está virada para nascente.
Já falamos dela aos leitores do 'blog dos forninhenses' em Setembro de 2010 e foi descrita num livro feito de fotos - pág. 42 - a que deram o nome "Forninhos, a terra dos nossos avós", ano 2013, assim:

"Sepultura escavada na rocha de Lagarinhos

Descrição
Sepultura escavada na rocha, não antropomórfica. O corpo do defunto seria colocado na posição de decúbito supino ou dorsal, sem caixão apenas envolto num pano ou túnica (sudário). Esta sepultura seria encerrada com uma tampa formada por uma lage única ou várias colocadas lado a lado.
Cronologia 
Medieval (séc. XII-XIII)".
Mais foi referido:
"As sepulturas escavadas na rocha podem apresentar-se sem o contorno da cabeça e pés, como é o caso da Sepultura dos Lagarinhos, correspondendo ao momento mais antigo da edificação destes monumentos, em redor dos sécs. X/XI. Um pouco mais tardias, do séc. XII/XIII são as sepulturas que apresentam os contornos do corpo humano sendo por isso denominadas de antropomórficas.
(...)
É quase certo que esta sepultura estará relacionada com o povoado de S. Pedro localizado a cerca de 1,5 km a nordeste.". (sublinhados nossos).

Como há uns tempos, recebi no meu e-mail uma foto idêntica, hoje, dia 22 de Outubro de 2014, apeteceu-me publicá-la, pois aqui e ali...outras sepulturas escavadas nas rochas deve haver, quase de certeza...


O que o autor da foto disse é que a encontrou indo para Senhora dos Verdes, próximo a uma lagareta, mas não soube dizer-me se é a mesma lagareta a que chamam "lagarinho ou lagarinhos" ou se foi perto da lagareta da pág. 32 a que deram o nome de "lagar rupestre de Santa Maria". Conto consigo para ajudar a que se perceba melhor...

sábado, 18 de outubro de 2014

Castanhas Piladas

Altura delas!
Colheitas e lenha arrecadas, vindimas terminadas e nabos e "pão" semeados, pouco vai restando até a vareja, a última "empreitada" do ano a doer. Vão-se apanhando os míscaros e as primeiras paridelas dos ouriços arreganhados, as castanhas. Que vão escasseando, mas tanta história fizeram...e fome mataram...era o pão dos mais desfavorecidos, em muitas casas.

 

Os normais e típicos magustos ainda remetem a lembranças, mas das castanhas boas e sãs que iam às arrobas para o caniço que ficava por cima da lareira, quem ainda se lembra? Possivelmente só quem delas tinha uma fonte de alimento e rendimento.
À semelhança do porco morto, do vinho e cereais, havia que guardá-las e poupá-las para todo o ano, mormente para o impiedoso inverno em que um caldo feito de castanhas secas, um bocado de gordura e migado com uns pedaços de pão de milho esfarelado, era um belo sustento.
Depois de secas, pilavam-se e assim se conservavam para depois de demolhadas se utilizarem na alimentação, cozidas ou em caldo.
A preparação:
A castanha pilada - também conhecida nas nossas bandas por castanha seca - tinha um modo certo de ser preparada. Eram escolhidas as melhores, "sem bicho" e de preferência as martainhas e longais, saborosas e que descascavam-se bem.
Por cima da cozinha com lareira e pilheira de pedra, colocavam um caniço feito de tábuas estreitas, desviadas ligeiramente umas das outras, sendo aí espalhadas as castanhas que o calor e fumo da fogueira ia secando.
Findo o processo da secagem natural (1 a 2 meses), eram retiradas e metidas em canastros de verga, em Forninhos chamados de "barreleiros" por serem os mesmos onde se faziam as "barrelas" para lavar e tingir as roupas...
E os homens de botas ou tamancos calçados, bamboleando-se de um lado para o outro, pilavam-nas, isto é, quebravam-lhes a casca para estas se soltarem.
Cada qual depois as guardaria, conforme o governo da casa e necessidades; e tais sobrando, "duras que nem cornos", ansiavam pelos almocreves que no Largo da Lameira soltavam o pregão:

Quem tem castanhas piladas p´ra vender...
Peles de coelho...peles de cabra...
Ou cornicão ou cornacho...lenticão!
Ferro velho p´ra veeeeender!...

E mais tarde, cantando as Janeiras de porta em porta, la vínhamos com um punhado delas nos bolsos!
E mais tarde ainda, rilhava-se uma castanha no 1.º dia do mês de Maio, uma tradição que se cumpria noutros tempos, ou seja, nesse dia era costume perguntar-se aos miúdos: - já comeste uma castanha hoje? Olha que o burro engana-te! Havia sempre quem as guardasse de propósito para este dia como de resto se explicou aqui.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Sementeira do Pão


Outubro é altura da sementeira do pão. Em Forninhos já não vai encontrar terra lavrada prestes a ser semeada, mas vamos falar de como os lavradores faziam para germinar e produzir o nosso pão. 
Era necessário executar sobre a terra várias operações. Por exemplo, nas terras desprovidas de água, que apenas suportavam uma cultura em cada ano, era preciso estrumá-la e lavrá-la. Depois alisá-la para garantir que a distribuição da semente fosse bem espalhada, gradeando-a com a grade voltada ao contrário - como pode ver-se na imagem acima - em que se utilizou uma pedra para fazer peso e garantir o alisamento. Às vezes o peso da pedra era substituído pelo próprio lavrador que ía com os pés em cima das travessas da grade e inclinado para trás segurava com uma das mãos a corda para manter o equilíbrio e com a outra mão segurava a aguilhada para orientar os animais. 
Espalhar a semente
Se o terreno era grande, como por vezes acontecia, requeria que tivessem certos cuidados. Colocavam-se por exemplo, marcas delimitadoras de zonas. As marcas podiam ser ramos espetados na terra, que depois de lavrada e alisada estava mole, para orientação visual de quem estava a espalhar a semente. O semeador utilizava um saco e tirava uma mão cheia de grão que espalhava e a cada mão cheia de grão que tirava, espalhava.
Claro que se uma seara era muito grande não se conseguia estrumar, lavrar, gradar, semear, tudo num só dia ou no seguinte, embora estas tarefas fossem efectuadas num curto espaço de tempo.
Espalhada a semente era altura de amarejar a terra, ou seja, traçar margens ou regos  com as aivecas do arado na terra semeada, para que o cereal desenvolva as raízes mais abaixo - num espaço arejado - e para permitir em tempo de chuva o esgotamento das águas e, assim, não estragar a sementeira.
Disseram-me que a habilidade para fazer regos perfeitos e direitos na sua seara era, por vezes, motivo de vaidade e orgulho, já que de comentário entre todos! Verdadeiras obras de arte agrícola que se mantinham até à ceifa. Hoje há pinhais, em Forninhos, com os regos pronunciados. Já uma "arada" mal feita ficava com esse aspecto até à ceifa e por isso havia tempo para gozarem com o artista. 
É evidente que a forma de lavrar as searas nada tinha de especial e não existia uma receita para as distâncias em que deviam ser executadas, tudo dependia de vários factores que o lavrador melhor que ninguém conseguia avaliar em cada caso: comprimento dos regos, inclinação do terreno, pluviosidade do local, consistência da terra, etc...
Todos nesta terra eram lavradores e todos merecem ser lembrados, mas merece aqui especial menção o meu avô Cavaca, um dos mais habilidosos.
Convém ainda recordar que o estrume curtido era acartado para as terras no carro de bois equipado com as sebes e "artilhado" com fugueiros ou fueiros (paus que se enfiam numas argolas no estrado do carro e que se mantêm na vertical e que servem de apoio às sebes) como pode ver-se na imagem abaixo. Bem, talvez o mais habitual fosse o carro de uma junta de vacas (duas vacas ao mesmo tempo a puxar o carro). A razão para uma só vaca, prender-se-à com factores económicos e menor área no campo para cultivar.


Carro com rodas de meia lua, equipado com sebes e chavilhão na ponta e charrua (utilizada também na lavoura) fotografados há muitos anos junto à Sede da Junta de Freguesia de Forninhos. Não sei se ainda existirão...penso que não, por tal é que este blog continuará a mostrar o que o tempo apagou.

sábado, 11 de outubro de 2014

OS RESPONSOS

Os responsos são orações populares que se rezam aos santos para que não aconteçam males, ou então que apareçam coisas perdidas. 


Quem tinha "sabedoria" para arresponsar era por norma mulheres idosas, era-se vista como pessoa de algum poder, pelo que não era para qualquer uma.
Aqui recordo vagamente a minha avó Maria Lameira quando volta-não-volta ali ao final do dia ou noite adentro a ela recorriam, principalmente quem tinha rebanhos e na recolha para as cortes dava falta de alguma rês. Entre por aqui e veja a foto da minha avó Lameira. No fundo dos degraus de pedra que ainda lá estão e que dão para o pátio, firme e hirta, aconchegada pelo xaile preto para se proteger da orvalhada que ia "caindo" escutava a "choradeira" da desgraça com a responsabilidade de ser a última esperança daquela gente tão sofrida pelas agruras da vida.
Como que ausente do mundo, balbuciava algo inaudível, curiosamente de modo calmo e sereno. Estava a arresponsar...
Tinha que ter toda a oração dita de forma encadeada sem se enganar. Quando a vontade de se encontrar era grande, a responsa repetia o pedido mais que uma vez. Quando toda a oração saía bem era certo que o perdido ou o desejado seria alcançado. Quando se enganava tinham de recomeçar e repetiam até três ou mais vezes. Se as rezas continuassem a não ser bem encadeadas estava o "caldo entornado".
Até se chegava ao ponto de sentenciar se estava vivo ou morto, geralmente comido por bicho ou lobo. 
Dizem que o mais eficaz e utilizado era o responso de Santo António.

Beato Santo António se lebantou,
Se bestiu e calçou
Suas santas mãos labou,
Ao Paraíso cortou.
Chigou ao meio do caminho
Com o Senhor se incontrou,
- Para onde bais, Beato Santo António?
- Com o Senhor eu bou.
- Tu comigo num irás
Que eu p´ro Céu subirei.
Tudo quanto me pedires te farei:
Cães e lobos com os dentes trabados;
Rios e regatos bão imbaçados;
Corações inimigos acobardados;
O perdido seja achado.

Também se responsavam pessoas, tal como um filho do tio António Grilo, acho que era o Júlio, desaparecido aquando da invasão da Índia e que se corria estaria preso, embora sem certeza absoluta, pois poderia até estar morto. Era responsado todos os dias e sem enganos, felizmente deu sinais de vida. 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Para quem gosta de cogumelos...


Agora sim, o tempo mudou...chegou o Outono, altura dos tão apreciados tortulhos e míscaros e muitos outros cogumelos que vemos e não apanhamos, pois não está na nossa arte apanhá-los, embora sejam bonitos de ver e ficam bem na fotografia, como este magote em cima ou essa espécie abaixo que dizem são venenosos. Por tal, quem gosta de cogumelos, tenha sempre presente "Todos os cogumelos são comestíveis, alguns só uma vez"!


Em Forninhos as pessoas, na sua grande sabedoria, herdada de gerações sem conta, só come os conhecidos pelos nomes populares de tortulhos e miscaros (clique no azul para os conhecer).

sábado, 4 de outubro de 2014

Forninhos - O local da Igreja

Exterior da Igreja Paroquial - anos 60 (??)

Há uns anos publiquei esta foto aqui. Liguei-a com a construção da igreja da minha aldeia, mas como não teve a leitura que merecia, novamente trago aos leitores o assunto porque acho que atrás do que a História diz há uma outra história!
Uns 2 meses antes tinha publicado um post que intitulei "Cemitério Antigo". E o que é que o cemitério tem a ver com a nova igreja? Perguntam vocês.
É que no local onde hoje está a igreja matriz ou igreja paroquial, estava ainda o cemitério e admitamos ao lado uma velha capela-mor.
Mas será que a velha capela-mor podia estar ao lado da igreja nova?
Eu não acredito, porque em documento de 1734 que publiquei em Fevereiro de 2012 lê-se: "He cousa pouca não convem estar ali igreija pode ir a Ornelas, ou a Matança - Dandose algua cousa pello currãres, mas não a Ornelas por serem Abbas anexas a Pena Verde". Perante esta visão/informação, colocava-se à data um problema: construir uma igreja maior. O que foi feito em 1797, ou seja, 63 anos depois. Mas e o cemitério que ficava no adro da igreja? Forninhos antes de 1797, em pleno final do séc. XVIII, não tinha um cemitério? Também não acredito! As minhas fontes dizem-me que o cemitério antigo sempre foi no adro, ao lado da actual igreja, entenda-se, da igreja nova (que julgo ficaria na parte que dá acesso à sacristia). Pena não estar assinalado. 
Só se fizessem os enterramentos no cemitério medieval de S. Pedro (podem rir).
Ora, a lei liberal que tinha proibido os enterramentos dentro das localidades é de 1834. Esta lei levou 56 anos para ser aplicada, porque em certas aldeias, inclusive Forninhos, se recusavam a enterrar os mortos no "meio do mato", alegando o perigo de rezar menos pelos mortos, facilmente esquecidos em lugar ermo. No caso da nossa aldeia só o foi nos anos 40 do Séc. XX, no tempo do Sr. Pe. Albano. O cemitério foi então criado no local onde hoje está, mas sem que todos os corpos fossem trasladados.
Pelo que fica dito, de 1734-1797 sofreu a igreja uma profunda modificação para poder comportar mais gente, pequena como era, pelo menos, para os domingos. O que deve ter acontecido, quando se decidiu construir uma igreja maior, foi requalificar a "velha capela-mor" (por norma, renovavam-se os templos e as pessoas não se lembram ouvir falar na "velha capela")...ou então construíram de raíz um novo templo e isto foi feito em 1797, embora há quem afirme que a construção igreja de Forninhos "deve remontar a 1731" já que no cimo do portal está gravada a data de 1731 (?). 
Enquadrando a coisa no resto da História que entretanto fui estudando, é quase certo que foi construída a actual Igreja de Forninhos em 1797 no mesmo local da antiga capela-mor. Esta opinião vale o que vale. 

Documento de 1734 - Visitas Pastorais


De histórico há apenas a assinalar:
1- Segundo a História da Igreja em Portugal, a igreja de Forninhos foi reedificada, com obra concluída em 1797, pois a 2 de Dezembro desse ano era concedida licença para a respectiva bênção, tendo os moradores de pagar, por essa mesma licença, entre o S. João de 1797 e igual dia de 1798, 5.600 réis de selo da bênção. A igreja foi reedificada, "tanto de paredes como de armação... e da mesma sorte a capela mor com a sua tribunal nova, asseada e com toda a decência".
2- "Durante as obras de reedificação, os fregueses serviram-se da velha capela-mor, que ficava ao lado da igreja nova, na qual não cabia a quarta parte do povo da freguesia.".
3- Em 20 de Junho de 1758 (data respeitante à resposta do padre cura ao inquérito paroquial) refere-nos o Baltazar Dias que a paroquial "está próxima do povo" e dotada de um "altar-mor e dois colaterais".
4 - Já depois da construção do cemitério, anos 40, foi subido o corpo da igreja e colocados os sinos, anos 50. Conta-se que nesta altura foi trazida do templo de S. Pedro para Forninhos a imagem de S. Pedro de Verona. Mas essa imagem foi levada para o Seminário de S. José de Fornos de Algodres encontra-se hoje no Seminário Maior de Viseu!
5- O cemitério de Forninhos foi aumentado em 2012 e construída dentro uma capela. Uma ampliação necessária, mas até hoje eu ainda não entendi a finalidade, nem a necessidade da capela!

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Ainda se vai à pesca...

Porque será que o pai Paulo, trouxe o seu filho Dinis, a pescar junto ao moinho do Bombo, nos Valagotes, ele homem de Sintra, que quando vem a Forninhos traz aquele bom marisco apanhado ainda de noite? Por o filho ser neto da terra.


Doces lembranças que vão esmorecendo a cada ano que passa, mas felizmente que por aqui a natureza tem sido poupada aos terríveis incêndios e visto à distância, aparenta que tudo continua um idílico paraíso. Quem dera!
Temos lindos ribeiros e ribeiras e então o rio Dão...diziam que este ano tudo andava a ser limpo, margens verdejantes, águas límpidas, boas pescarias e  por aí fora...por isto, no final da primeira semana de Agosto, resolvi ir "à partida".
Planeei a coisa quase em segredo por me terem dito que em Cabrancinhos não ia valer a pena; o peixe tinha desaparecido nas águas paradas cobertas de limos. O ribeiro já não tinha obrigação de nada, o Moinho da Carvalheira já morrera, para que gastar dinheiro...
Fui a Cabreira sozinho, pelas 3h duma tarde quente, mas quente. Houve quem me chamasse louco por ir àquela hora, ainda por cima sem companhia, mas fui... e no lago da levada que outrora regava a várzea dos meus avós, nem sinal de peixes, mesmo com o chamariz do engodo, ali que outrora, com uma simples vara de amieiro, bastava fio e minhoca no anzol, se levava para casa uma boa refeição. Aquilo estava morto, nem sequer uma rã ou uma cobra ribeirinha que tanto nos assustava quando por debaixo da levada apanhava-mos o embude para pisar e "almariar" os peixes nos pequenos charcos que ficavam secados pelos motores de rega que tinham regado o milho. Aí sim, uma farturinha, como tínhamos coragem de meter as mãos por debaixo de pedras e tocas de raízes. Ainda tenho a marca no indicador direito, cobra, rata ou enguia, sei lá...
Perplexo, segui Ribeira de Cabreira abaixo, ladeando como podia por cima de pedras, silvas e giestas, sendo que às tantas quase me perdi, até encontrar o Lagar do Senhor Luisinho. Registei no telemóvel (se por ali me ficasse, por ali tinha andado) e fui descendo em direcção ao Rio Dão, pensava, pois por entre poucos troncos e muita ramagem seca, presumi que do tal trabalho de limpeza este ano tudo estaria limpo, mas adiante...
Num charco maior, mirava se havia peixe, caramba, outrora era uma farturinha e assim fui andando até à Revolta, porca, imunda, aquele sítio que outrora fora um "praia" fluvial, aonde tanta criança aprendeu a nadar e que com canastros camuflados com verdalheiras, bogas e barbos eram apanhados e nós crianças fugidas da escola, éramos desculpados pelos pais, por levarmos para casa uma boina cheia de peixes.
Pensei, apenas restava o Poço dos Caniços, ao lado, logo abaixo. Estava mais airoso e limpo do que imaginava e fiquei contente. Também não me tinha perdido, a Ponte da Carriça estava a poucos metros, portanto, estava no mundo e a pescar no meu rio Dão. Aqui sempre houve peixe e grande, barbos valentes que as bogas ficam lá mais acima...
Eram quase 7h da tarde, 4h palmilhadas e as pernas marcadas pelas silvas e pergunto a dois senhores que sentados pescavam o farnel de cana de pesca encostada.
- Companheiros, está a dar peixe?
- Meu caro senhor, se o senhor vem donde eles nascem...e nada trás...
Arremeti caminho, direito a Forninhos; mais tarde soube que se tivesse andado mais dois quilómetros em direcção à Quinta da Ponte, talvez tivesse sorte, estava o Dão mais limpo e ali já pertencia ao concelho de Penalva.
Fiquei a pensar, como uns concelhos podem ser mais limpos que outros, mas querendo, ainda se vai à pesca e vai havendo peixe...