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sexta-feira, 28 de março de 2014

O encanto da Lameira!



O encanto da Lameira, permanece nas brincadeiras de jogos sempre iguais e em estórias gravadas nas pedras de granito aparelhado de casas envolventes, como as que guarda esta casa de meio século atrás em que nos baixos o tio "Pirolas" aplicava nos momentos de folga do trabalho do campo, a sua arte de barbeiro, a troco de rasas ou alqueires de cereais. Fazia sentido que assim fosse, pois sendo o barbeiro mais um habitante da aldeia, que trabalhava as suas terras como os restantes para o seu sustento, o tempo que gastava a fazer as barbas aos homens da aldeia, ou melhor, a aparar e/ou desfazer, não podia trabalhar, logo teria de ser compensado!
Depois, este largo, como porventura outros similares, reunindo o comércio de aldeia e a nossa-Forninhos- não escapou  à regra. Ao centro, a venda do Augusto Marques, desde o ancinho ao machado; um pouco acima, a taberna do Zé Matela; mais abaixo a mercearia, farmácia e correio do Zé Bernardo.
Meio século após, o Largo está mais fidalgo acompanhando o evoluir dos tempos, mas cuidado Lameira, sem glamour desprovido, mantém a tua beleza pois impagável é a riqueza que guardas dentro de ti!

Pudera voltar a ti
E ouvir o teu cantar
No arrastar dos tamancos
Com a lama das courelas
Cantando ao chiar dos carros
Das vacas, pois evidente
Tanto fervilhar de gente
Que te pintava nas telas
Desse espaço esburacado
Sempre de todas mais bela
De ti sempre enamorado
Sem outra coisa na ideia
Como é bom estar encostado
No meu Largo da Lameira.

(28 de Março de 2014
inédito - XicoAlmeida)


Espero que gostem!!!

segunda-feira, 24 de março de 2014

A Instrução Pimária

Consta que foi em Alcobaça a primeira escola pública do país, fundada em 1269. D. Dinis, com o cognome "O Lavrador", longe de ligar apenas à rabiça do arado, imprime um forte movimento à instrução pública. 
Até onde me foi possível averiguar, neste site
http://legislacaoregia.parlamento.pt/Pesquisa/?q=Aguiar%20da%20Beira&f=geral&ts=1,
que pode ter interesse porque pode pesquisar/consultar outra legislação régia, pelo Decreto de 7 de Outubro de 1857 consta que foi presente ao Rei um requerimento da Junta de Parochia de Dornelas, districto da Guarda, pedindo que seja ali criada uma cadeira de ensino primário, alegando a necessidade da requerida cadeira, por ser mui populosa aquella localidade, e a mais central em relação às próximas freguezias de Forninhos e Cortiçada. Vista a informação o Rei concedeu a criação competindo à Junta de Parochia dar casa para a collocação da escola, e mobília para o serviço d'ella.
Tendo em conta que fiz a pesquisa por Forninhos, sem resultado,  será que noutros tempos os de Forninhos tinham de ir à escola a Dornelas (tal como hoje)? Tudo me leva a crer que sim, a não ser que a expensas particulares pagassem a algum professor de "ler e escrever", mas gostava de conhecer outras opiniões.

Decreto - Rei D. Pedro V

Sem elementos por onde possa averiguar ao certo, podemos apenas concluir que funcionou a primeira escola numa sala da casa anexa à casa principal do Sr. Amaral, que por esta altura era da família materna da Sr.ª Prazeres, esposa do Sr. Octacílio Amaral. Lá aprenderam a escrever e fazer contas os nossos avós. 
Em 1911 dos 555 habitantes, sabiam ler 21 homens e 10 mulheres!
Alguns anos mais tarde, funcionou a escola no edifício construído pelo Estado, onde é hoje a Sede da Junta de Freguesia, conhecido ainda como "a escola velha". Ainda funcionava a escola velha, já um novo edifício estava pronto. 
Começou a funcionar a escola (a nova) oficialmente em 1959. É um edifício com duas salas com recreios anexos. Foi lá que fiz a primária e era uma escola mista. Conservou-se até 2006, ano em que encerrou.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Capitais e Trabalho


Esta foto penso que servirá o propósito deste 'post'.
Há alguns anos atrás (1957) o Sr. Pe. Luís Ferreira de Lemos deixou registado no seu livro «Penaverde sua Vila e Termo» que entre nós os trabalhos do campo eram de sol a sol, quer dizer do nascer ao pôr do sol, quer de inverno, quer de verão; e os salários variavam conforme a pessoa, a estação e as condições de alimentação.
Segundo ele, nas ceifas e malhas o trabalho incluía o comer e o salário era o dobro do de inverno. Quando a seco, duplicava sempre o salário. 
No inverno o patrão dava três refeições: almoço, jantar e ceia, respectivamente às 8h00, 13h00 e 19h00 mais ou menos. Na primavera e verão ainda dava a merenda e piqueta. Esta consistia numa pequena refeição, geralmente uma fatia de pão com um naco de chouriça e um copo de vinho, aí por volta das 10h00. O direito à merenda começava em 25 de Março - "quem em Março não merenda aos defuntos se encomenda" e acabava em 8 de Setembro, data da festa da Natividade de Nossa Senhora. 
Mas como o leitor pode ver, o que fica dito está desactualizado, embora a agricultura seja ainda aqui a principal fonte de riqueza e os produtos agrícolas a base da alimentação e em alguns trabalhos persistem ainda os instrumentos já usados pelos nossos avós há séculos, como a sachola, a enxada ou ancinho. Mas devo lembrar que o arado de pau e de ferro (charrua) foi substituído - há vários anos - pela charrua mecanizada. Já se lavra a tractor e no que diz respeito às regas usa-se o motor de rega, mangueiras e regadores de aspersão, em vez do cabaço, do picanço e da nora. Também já se ceifa e uga o centeio e o feno à máquina.
Devo também lembrar a produção da resina. Aqui abundam pinheirais e todos ou quase todos os proprietários exploravam dantes aquela fonte de receita. O preço de cada bica variava de ano para ano.
A ferida no pinheiro, era feita em Março; e no verão era a colha da resina que incubada em barris era transportada para fábricas nos arredores de Viseu. Hoje parte dos proprietários desfazem-se dos pinheiros, vendendo-os para madeira, mas a produção da resina era uma actividade que trazia proveito para todos. Ganhava o proprietário, ganhava o contratante da exploração e o pessoal contratado para a colha e, deste modo, todo o produto da exploração ficava na aldeia. Era assim até 90.
Todo este arrazoado, perguntará o leitor, para quê?
Simplesmente para mostrar o que era a ruralidade, o que era a vida nas aldeias da nossa Beira. 

Foto, piqueta, cortesia do serip413.

terça-feira, 18 de março de 2014

O tocador de concertina


Forninhos era outrora uma terra de gente mais alegre e com muita mocidade. Não raras eram as vezes em que para fechar em beleza o Domingo, a rapaziada à noite pegava no tocador de concertina - tio Carlos Melias - conhecido também por tio Carlos Cego por num jogo da  chona o seu par o ter cegado. Davam a volta ao povo cantando as modas que a concertina tocava e cantares ao desafio. Era uma festa para a malta solteira, mas recém-casados havia que não resistiam à tentação, ainda lhes custava...
Desde as rusgas com a rapaziada por tabernas e adegas até tocar num rancho folclórico da terra e, mais tarde, num grupo de cantares (vide foto), o toque da sua concertina deu alegria a três gerações, sempre disponível para a reinação, independentemente da hora.
Por vezes e para poupar as pernas, montava em cima do burro e amparado pelos rapazes, era desse modo que se fazia a "romaria", cantando desalmadamente, de tal forma que quase nem se ouviam os ferrinhos a marcar o ritmo.
O gosto pelas concertinas é uma marca intrínseca às gentes da terra e não há festa que se preze em que os tocadores não aparecem com ela a tiracolo, prontos para abrilhantar mais um medir de forças na desgarrada.
Sendo vivo, o tio Carlos teria agora oitenta e tal anos. Deixou "herdeiros" na arte de tocador, um filho e netos que nas romarias enchem os terreiros de música popular.

sábado, 15 de março de 2014

A Melhor Época para Plantar Árvores

Um antigo provérbio diz: "A melhor época para plantar uma árvore é 20 anos no passado. A segunda melhor época é agora".

A árvore do Terreiro da S. dos Verdes em 2002

Esta é a extinta árvore da S. dos Verdes que já foi divulgada no ano de 2009 porque foi apanhada pela doença e caiu. Plantou-se outra no seu lugar a 15.MAR.2009 e há outras em fase de crescimento no Terreiro, que só é pena não terem sido plantadas há mais tempo. Tem, no entanto, por finalidade este 'post', lembrar uma vez mais os meus leitores que dia 21 de Março é o "Dia da Árvore" e agora é a melhor época para plantar árvores. O Inverno rigoroso está a ir embora, regressa a vida aos campos e tal como acontece com a natureza, também a comunidade ressurge na Primavera. 
Então, como está quase em forma o Largo da Lameira, faltando concluir o sítio que mantém três antigas oliveiras e, diga-se de passagem, ficam lá muito bem, dão sombra e são uma referência para a freguesia, porque não plantar outras no largo e terminar de vez as obras?
A vida diária de Forninhos é, afinal, a rotina das pessoas que lá vivem. Sempre foi e será assim. A diferença, nos tempos que correm, é que já são poucas as pessoas que cruzam as ruas e largos da aldeia e se as obras nos locais que possibilitam o encontro continuam  "na mesma como a lesma" vão ser cada vez menos!

quarta-feira, 12 de março de 2014

PERSONAGENS MARCANTES

Sr. José Bernardo e D. Emília em 1955
Das mais carismáticas e marcantes personalidades da nossa terra, à época: Sr. José Bernardo.
Nasceu na vizinha aldeia de Moreira em 1898. Aos 20 anos foi mobilizado para a Primeira Guerra Mundial e destacado para França. Veio a casar em Forninhos com a D. Emília e por cá ficou, tal filho da terra. Montou a sua casa comercial de aldeia - venda - na qual se aviavam os agricultores do que necessitavam e podiam, consoante as posses de cada um.
Granjeou fama não apenas pelo seu comércio, mas sobretudo pelo seu dom e aptidões no tratamento da saúde a quem a ele recorria, fosse da terra ou arredores, nunca apelidado como curandeiro, mas como "médico de fim de semana".
Era respeitado e quase endeusado, pelo bem que fazia como "médico" popular. Naquele tempo, não esquecer, não havia Serviço Nacional de Saúde, nem havia transportes para farmácias e o acesso aos cuidados médicos não era de fácil acesso, como é hoje, apesar de estarmos sempre a reclamar...
O resultado do seu trabalho neste campo, veio mais tarde a ter reconhecimento oficial ao ser-lhe concedida autorização para determinados tratamentos.
Não resisto em partilhar um episódio por talvez ser dos mais marcantes da sua personalidade:
Havia uma senhora que foi acometida pela doença do carbúnculo, que era transmitida por doença de animais herbívoros contaminados e na maior parte das vezes, letal, infelizmente não rara à altura no meio rural.
Vendo a esposa irremediavelmente condenada e sem esperanças, o marido precavido, procurou o Sr. José Bernardo, que também vendia caixões, para encomendar as "quatro tabuínhas" para a mulher.
Inquirido sobre o que se passava com ela, foi-lhe aconselhado que fosse com ela ao médico de Aguiar da Beira, conhecido como Dr. Barbas, mas não havia posses, nem meios... e a mulher estava condenada, assim deve ter pensado o marido.
Sendo assim e sem nada a perder, pediu-lhe que trouxesse a mulher em segredo pela calada da noite (tais actos eram proibidos) e fez-lhe a "sangria" à "queima".
Passados, mais ou menos, 3 meses, encontrou o marido que lhe disse que a mulher estava curada!
A notícia circulou e passou "fronteiras" ao ponto de a Guarda, tal como na Inquisição, o vir buscar e ficar detido no Posto. Interrogado, a princípio ficou calado; depois negou; até que contou o sucedido e exausto exclamou:
- Ficou ou não ficou curada, arrisquei e acertei!
Perante os factos reais deste episódio e à fama que já granjeara, o Dr. Barbas concedeu ao Sr. José Bernardo autorização oficial para tratar feridas, arrancar dentes e tratar de ossos...e sabe-se lá que mais...
Uma homenagem a este Homem que tantos salvou e outros ajudou a prolongar a vida.

Foto, cortesia do seu filho Virgílio.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Lameira, Lugar e Errata

O povo de Forninhos divide-se em dois lugares: a Lameira e o Lugar e hoje vamos apresentar a visão de alguém que nasceu e viveu no Largo da Lameira, pois é importante saber que na nossa freguesia existiu um lugar que já foi a fronteira, o centro e a ponte, mas também a sala de toda a gente. Com a devida autorização do nosso conterrâneo Ilídio Marques, publico um texto poético da sua autoria:

O Largo da Fonte 
era do povo a fronteira,
o centro e a ponte
entre o Lugar e a Lameira

No Largo da Fonte ou do Cruzeiro
ficava a nossa escola,
ali se bailava antigamente
e também se jogava à bola.

Era o nosso maior terreiro
e a sala de toda a gente.


Sem dúvida, o Largo da Fonte da Lameira foi um importante espaço de convívio e custa a aceitar que os doutos autores da monografia de Forninhos, a terra dos nossos avós, tenham feito "tábua rasa" a esta e todas as fontes da aldeia e sobre os lugares de convivência ainda tenham usado termos que nada têm a ver com a nossa terra.
Forninhenses: temos que deixar história, ou que será que no futuro vão contar sobre os nossos lugares de convivência? 
Que em Forninhos havia feiras?
Que os jovens, numa altura em que os namoros começavam com um simples piscar de olhos, procuravam cruzar-se com as suas pretendentes nas cerimónias religiosas?
No Natal, o madeiro abrasado* reunia os homens da comunidade que também se juntava nas desfolhadas**?

Errata:
Em Forninhos não havia feiras e uma boa parte dos namoros entre rapazes e raparigas da terra começavam na fonte. Os rapazes esperavam as raparigas quando estas iam à fonte para abastecerem a casa com a água necessária e acompanhavam-nas até casa. 

Sobre os termos populares usados:
*   "madeiro abrasado" = cêpo
** "desfolhadas" = escanadas

sábado, 8 de março de 2014

Flores de Março, para si Mulher

Quando passeamos pela aldeia, de repente somos chamados à atenção pela leveza da brancura que contrasta com o verde das folhas...


logo mais abaixo,  outras em botão preparam-se para ser também flor, com tons vivos


e tal como as as campainhas em tons amarelos, vão iluminando a paisagem que nos faz esquecer o tempo de frio, chuva e nuvens baixas do princípio de Março, trazendo com elas a luminosidade.


Assim, quando já se pensa na Primavera que se aproxima no calendário, aqui ficam estas flores da nossa terra, em homenagem a todas as mulheres que nos visitam, nos seguem e nos apoiam, com os votos de um Dia Especial hoje e Sempre!

sexta-feira, 7 de março de 2014

Dia 8, em Fornos: Feira Queijo Serra da Estrela

Porque se encerra mais um clico anual de feiras do queijo, permitam-me que publique também o cartaz da Feira do Queijo Serra da Estrela, em Fornos de Algodres, pois todos somos poucos na divulgação dos eventos que se realizam na nossa região, fazendo votos que alguns leitores possam ir no Sábado à Vila de Fornos provar e comprar o tradicional e mais afamado "Queijo da Serra". A sério! Visite Fornos e comprove!
Quem pela distância não puder ir a esta Feira, pode sempre acompanhar através da RTP1.


http://aquidalgodres.blogspot.pt/ a quem "roubei" o cartaz.

terça-feira, 4 de março de 2014

Registos da Festa do Pastor e do Queijo 2014

E aconteceu a Festa do Pastor e do Queijo do Mosteiro, freguesia de Penaverde, como estava previsto no passado Domingo. A Feira Nova, não resisti e fui lá pela primeira vez. Adorei!
Através deste 'post' o blog dos forninhenses presta assim a sua  homenagem e agradecimento a todos os produtores do genuíno queijo da serra e queijeiras(os). Foram tantas centenas que com frio e chuva tiveram um dia diferente. Olhem:













À moda das nossas beiras: dar e receber como sempre fomos, gente de bem!

sábado, 1 de março de 2014

Casamentos do Entrudo

Há uns quatro anos, falei aqui por alto dos casamentos satíricos alinhavados nas "Quintas-Feiras das Comadres e dos Compadres", tradição peculiar da nossa cultura que, entretanto, não sobreviveu no tempo e no espaço devido à falta de mocidade.
A geração a que pertenço sabe do que falo, mas os mais jovens já nem sabem que isto alguma vez foi assim, mas é bom que o saibam...
Primeiro, era o dia das comadres que era a quinta-feira antes do Domingo Magro e havia o hábito em Forninhos de oferecer fritas, também conhecidas por rabanadas, especialmente às comadres. Depois, vinha o dia dos compadres, que era a Quinta-Feira antes do Domingo Gordo e os compadres comiam uma choiriça.
Os casamentos, esses, realizavam-se ao Sábado (Sábado Magro e Sábado Gordo) por rapazes que assumiam o papel de sacerdotes e de acólitos.
Estes casamentos satíricos serviam mais como pretexto para se poder dar livre curso à crítica, do que como uma forma de aproximar os "proclamados noivos". 
E sabem como em Forninhos os  casamentos eram feitos?
Os rapazes juntavam-se no Forno Grande, aproveitando com certeza o quentinho que ali se sentia nas noites de Inverno, para fazer os papelinhos (tipo sorteio) com o nome dos rapazes disponíveis e, noutro, papelinhos com os nomes das raparigas nas mesmas condições, que colocavam em boinas; tiravam à vez esses 'bilhetes', um da boina dos rapazes e outro da das raparigas e assim acasalados resultavam os casamentos e as comadres e compadres! Realizado  o sorteio afixavam um papel (tipo edital) na desaparecida árvore da Lameira, pois ali se dirigiam todos os habitantes que sabiam ler e procuravam "os avisos". De manhã, bem cedo, todos os que por ali passavam tinham conhecimento de quem casava com quem, embora o edital desaparecesse rapidamente.
No Sábado (magro e gordo) os rapazes, à noite, faziam então os casamentos, munidos com um funil, para distorcer a voz, e um em cada ponto mais elevado da aldeia para serem claramente ouvidos e, ao mesmo tempo, encobertos pela escuridão da noite para não serem identificados, procediam ao ritual que, resumidamente, descrevo:

- Ó camarada!
- Olá companheiro!
- Há aqui uma rapariga boa para se casar...
- Quem é que lhe havemos de dar?
- Damos-lhe fulano...
- E que prenda lhe havemos dar?
- Damos-lhe uma toalha de estopa!

Ah! Havia sempre no sorteio um burro para uma rapariga, assim como uma burra para um rapaz!
A esse propósito, um desses rapazes, o Tónio Lopes, contou há 4 anos a história que hoje lhe trago. Um episódio que ocorreu nos fins dos anos 70:

«É verdade Paula nesta quadra carnavalesca fiz muitas vezes os casamentos; é uma das brincadeiras de que me fazem muitas saudades da minha juventude, ainda quase todos os anos vou ao meu terraço com o funil matar saudades.
Mas voltando ao passado, nos fins dos anos 70, eu e o meu irmão Zé Carlos e vários colegas (mais de 10) fomos casar as raparigas. Como tu referiste e muito bem, fazíamos o sorteio com os papelinhos. O burro tinha de calhar a uma rapariga, assim como a burra a algum rapaz, mas tive a infeliz sorte de ser eu a fazer o casamento duma rapariga com o burro; o pai dela não gostou e veio à rua com umas correias na mão para nos assapar. O pessoal toca todo a fugir e só fiquei eu e o meu irmão.
No dia seguinte tínhamos a G.N.R. à porta para irmos ao Posto de Aguiar da Beira prestar declarações (isto só eu e o meu irmão). No Posto, os Guardas disseram que não éramos nenhuns padres para andarmos a fazer casamentos e queriam que pagássemos setecentos e coroa (700 Escudos + 50 Centavos). Mas como nessa altura não era fácil vergar-nos, dissemos aos Guardas que não tínhamos dinheiro, que não pagávamos e viemos embora.
Passados dois meses fomos a Tribunal pagar, cada um, 3.500 Escudos (cinco vezes mais que a multa). Andou o nosso pai a trabalhar meio mês para nos dar o dinheiro, por causa de um Sr. que não se lembrou que na sua juventude também casou muitas vezes as raparigas, tal como nós.
Não foi por causa disto que a tradição acabou, continuou-se sempre com os casamentos pelo Carnaval, pelo menos, até ao princípio dos anos 90.».

Esta é uma história dos finais dos anos 70. Haverá muitas outras e até mais engraçadas.

Funil